SOBRE PIKETTY, SOBRE DESIGUALDADES NA REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO, SOBRE NEOLIBERALISMO – NOVA SÉRIE – 5. THOMAS PIKETTY E OS JOVENS MARXISTAS SOBRE O DISPARAR DA DESIGUALDADE, por TIMOTHY SHENK

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade

Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014

Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality

Parte I

Socialismo e capitalismo parecem ser antagonistas naturais mas a sua rivalidade é edipiana. Para muitos, a relação parece simples. O capitalismo, argumentam eles, criou a classe trabalhadora industrial moderna, que é o substrato humano do movimento socialista com os seus recrutas mais fiéis. Esta história, variações cuja importância nos reenvia de novo a Karl Marx, foi repetida tantas vezes que parece intuitiva. Mas as linhas da paternidade ficam já bem  para trás. O capitalismo não criou o socialismo; os socialistas inventaram o capitalismo.

As origens do capitalismo podem ser datadas quando alguém terá pela primeira vez negociado alguma coisa com a finalidade exclusiva de obter lucros, embora a maioria dos historiadores prefira  uma linha de tempo mais curta. Mesmo assim, os estudiosos tendem a concordar que há algo  de  útil  quando se descreve  o capitalismo como um sistema que tomou corpo nalgumas partes do mundo por volta de  1800, o mais tardar. Mas a ideia de capitalismo levou mais tempo a surgir. A palavra não tinha sido cunhada  até meados do século XIX, e não entrou  na linguagem corrente até algumas décadas mais tarde.

Vista esta questão, os  socialistas tinham sido uma força familiar em  política há desde quase um século. No entanto, os fundadores do socialismo — figuras como Henri de Saint-Simon e Charles Fourier — não tinham a intenção de derrubar o capitalismo. As suas  aspirações eram, se estas existiam, eram alguma coisa de mais  grandioso. Eles planeavam lançar uma nova religião fundada em princípios revelados por uma outra recente descoberta: as ciências sociais. Cada termo da formulação — o social e o científico — eram igualmente importantes. Durante a maior parte do século XIX, o principal adversário do socialismo foi o individualismo, não o  capitalismo. De acordo com os teóricos pioneiros do socialismo, a sociedade era mais do que um conjunto de indivíduos. Era um organismo, e tinha uma distinta lógica própria — um objecto singular que pode ser entendido e controlado por uma ciência singular. Os socialistas alegavam dominarem esta ciência, o que  lhes conferia o direito de falar em nome da  sociedade. Uma das suas primeiras tarefas seria a de vir a  substituir o cristianismo, libertar a humanidade de preconceitos antiquados que tinham prejudicado a revolução em  França e poderia  comprometer futuras rebeliões na Europa.

O socialismo, porém, era apenas a mais recente tentativa de lidar com um problema mais profundo. Com a excepção solitária da antiga Grécia de uns 2.000 anos antes, a democracia tinha sido um conceito marginal no debate político ao longo da história. Mas a Democracia voltou à vida no final do século XVIII, não houve nenhum momento mais proeminente do que quando Maximilien de Robespierre anunciou que “a essência” da experiência democrática da França revolucionária é a  “igualdade” — um nivelamento do espírito que poderia, em teoria, ser alargado a todas as esferas da vida colectiva.

Um ano mais tarde, Robespierre estava  morto e   os hereges da igualdade estavam em retirada, mas iriam  avançar novamente. Os impulsos igualitários tomaram muitas formas, e alguns dos seus defensores  mais acérrimos acreditavam que tinham alterado suficientemente o  modelo original para justificar um novo título para a sua utopia: socialismo. Os detalhes desta evolução eram complexos, mas eles eram  captados  na carreira de um único panfleto, rabiscado pelo jornalista radical Sylvain Maréchal nos últimos dias da Revolução francesa e escondido durante décadas nos seus  papéis. Depois de finalmente ver a luz do dia em 1828, este  trabalho tornou-se um dos principais textos na fundação do socialismo. Ele foi chamado, apropriadamente, Manifesto dos iguais.

Embora descendente de rabinos, Marx nunca se  imaginava  ser  o líder de uma religião. Mas o que dizer da perspectiva de uma ciência social atrelada  a um movimento político que prometeu uma revolução dos oprimidos? Isso justifica um manifesto da sua própria autoria. Marx quis criar uma visão de socialismo que respondesse não só à Revolução Francesa, mas também  ao que os  historiadores mais tarde chamariam a Revolução Industrial. Levou tempo para que o capitalismo se tornasse  o centro da sua crítica. O Manifesto Comunista não utiliza  a palavra capitalismo, em vez disso, reserva toda a sua ira para a “sociedade burguesa”. O capital assumiu uma maior importância para Marx porque ele era um profundo leitor em questões de  economia política, mas preferiu falar de um “modo capitalista de produção,”, o rótulo para um sistema em que o trabalho era vendido  como uma qualquer outra mercadoria e cuja produção  era feita para ser colocada nos  mercados  e em que  a obtenção do lucro se tornou uma regra. Eventualmente, porém, o capitalismo assumiria o lugar no pensamento marxista que a sociedade tinha ocupado para os primeiros socialistas. As aspirações científicas das variedades anteriores de socialismo tinham sido assimiladas  mas o objecto da  análise tinha mudado. Com a morte de Marx em 1883, a palavra tornou-se de tal modo  popular que Wilhelm Liebknecht poderia elogiar Marx como sendo o criador  da ciência social que “mata o capitalismo.”

Desde o início, a ideia de capitalismo era uma arma. Os marxistas costumavam utilizá-lo para matraquear os seus adversários à esquerda, a quem eles poderiam vencer acusando-os de serem sonhadores utópicos e cegos face às   realidades da vida sob o domínio do capital. Como o declarou o genro de Marx,  Paul Lafargue,  os comunistas eram “homens de ciência, que não inventam as  sociedades mas que  irão  resgatá-las do capitalismo”. Mas a interpretação marxista do capitalismo também foi o produto de uma forma particular de pensamento.  “Totalidade” e “dialéctica” foram as palavras-chave da sua filosofia  e a sua política concentrou-se na revolução. Juntos, estes termos prometiam uma revisão completa da sociedade. Centrados sobre o  capitalismo foram conceitos que lhe serviram de guia face a um ataque ao  status quo  da burguesia que, caso contrário,  poderia parecer  impermeável à mudança. As visões  do socialismo coeso vieram alimentar a crença de que havia uma entidade fixa e antitética no presente para se lhe opor. Tudo o que os socialistas necessitavam  para selar a sua vitória era  uma revolução  que as contradições do capitalismo lhes haveria de trazer.

Os marxistas não foram os únicos a convencerem-se  de que a revolução estava  iminente. Uma notável série de transformações — ascensão das grandes empresas,  um crescimento sem precedentes na capacidade produtiva, em conjunto com a fabricação de malhas levou a que algumas pessoas começaram a referir-se  a uma economia mundial — tinham redefinindo a vida social e o significado de se ser socialista. Restringindo os monopólios, reforçando os movimentos operários, nacionalizando  a terra, instituindo a tributação progressiva, estabelecendo o Estado Providência  —tudo isto já não era a província de uma franja radical. No final do século XIX, o obituário do laissez-faire havia sido escrito tantas vezes que William Harcourt, antigo ministro das finanças, e um dos políticos mais influentes da Grã-Bretanha, pode proclamar que “agora somos todos socialistas.”

O socialismo de Harcourt não tinha nada a ver com o de  Marx; por exemplo, ele tinha  a intenção de fazer abortar uma revolução, não a intenção de fomentar uma. Ao mesmo tempo quando uma profusão de socialismos concorrentes se disputavam uns com os outros para se tornarem mais proeminentes,    muitos viram   pouca semelhança com o que Marx tinha esboçado (embora, com o mestre  morto, o  que Marx tinha preferido  também se transformou  igualmente em terreno de  disputa). Contudo os sucessores de Marx pelo menos tinham ganhado uma vitória intelectual. Falar de uma  sociedade mais equitativa tinha-se tornado ubíquo e, ao longo do caminho, o termo “capitalismo” entrou  para o  vocabulário, também.

(continua)

________

Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:

http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality

Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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