FRATERNIZAR – Corpo de Cristo: Nenhum teólogo sabe minimamente o que é! – por Mário de Oliveira

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De regresso as grandes “manifestações de fé católica”?!

 

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A chamada festa do Corpo de Cristo, instituída apenas no século XIII, cai sempre a uma quinta-feira de cada ano e, em Portugal, até era feriado nacional. Este ano, não foi e a festa teve de ser transferida para o domingo seguinte, uma vez que este é um daqueles feriados católicos que o Governo de maioria cristã católica romana decidiu suspender (ou abolir?), pelo menos, durante cinco anos seguidos, em nome da produtividade nacional que teima em não se ver, porque só mesmo a emigração em massa, particularmente jovem, está a fazer baixar as estatísticas do escabroso desemprego no país. Porque este é o Governo da máxima incapacidade económica e política, ainda que com um invulgar descaramento para, nos discursos, mudar as situações estruturais do quotidiano das populações, cada vez mais trágicas, em outras tantas boas notícias. Precisamente, por ser um Governo de maioria cristã católica romana. Aliás, o cristianismo, de que se reivindica e faz questão de mostrar, a pretexto de tudo e de nada, é, ele mesmo, o campeão desse invulgar descaramento de mudar doutrinalmente água em vinho, vinho em sangue de Cristo, hóstias de farinha de trigo sem fermento em corpo de Cristo, um corpo que nenhum teólogo do cristianismo sabe minimamente o que é, por mais tratados e tratados que se tenham escrito e publicado ao longo destes dois últimos milénios. E por mais relatos de milagres, qual deles o mais estapafúrdio e obsceno, que se tenham inventado e narrado/ pregado como verdadeiros. Tudo se reduz a fórmulas dogmáticas, absolutamente inócuas, para cúmulo, avessas a tudo o que sejam políticas praticadas e economias vasos comunicantes, de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo a sua necessidade, por sinal, as únicas práticas que mudam de raiz a sociedade, de egoísta em sororal, de individualista em comunitária.

Este ano, o primeiro dos cinco em que a festa do Corpo de Cristo não foi feriado nacional, os bispos das dioceses do país, quase em uníssono, apelaram aos seus súbditos – mais súbditas que súbditos, à excepção dos clérigos, que, aqui, as mulheres ficam todas de fora e ainda bem para elas, de contrário seriam súbditas a dobrar – para que fizessem da festa do Corpo de Cristo, grandes manifestações de fé católica. Os apelos caíram em saco roto, ou as populações do país não tenham andado todas, por estes mesmos dias, de cabeça cheia com o Mundial de futebol dos milhões, a decorrer no Brasil, o evento mais negador do valor dos corpos humanos, quer dos jogadores escravos de luxo, quer das populações mais empobrecidas do Brasil que tiveram de ser varridas como lixo para cederem o lugar a grandes estádios, em lugar de hospitais, centros de saúde, escolas, condições de vida minimamente digna. E tudo feito com a bênção das igrejas cristãs, para as quais os corpos reais das mulheres e dos homens não chegam sequer ao calcanhar do corpo de Cristo, idolatrado e transportado por elas pelas ruas de certas cidades, vilas e aldeias, em romarias em tudo semelhantes às que, noutros dias do ano, são realizadas em honra de imagens cegas, surdas e mudas de nossas senhoras de fátima, de lourdes, da aparecida, de guadalupe, de santo antónio, de s. joão, de s. pedro, de s. roque, do senhor santo cristo dos milagres, que só mesmo as devotas, os devotos mais fanáticos conseguem ver e obter, sem que, entretanto, as suas vidas conheçam a mais pequena transformação para melhor, só para pior.

As paróquias e dioceses cristãs católicas do país e da Europa andam nitidamente aos papéis. Nem o papa Francisco lhes vale. De resto, ele parece querer remar para um lado, e elas para outro, mas a verdade é que ele é o chefe máximo da Cúria romana, por isso, o mais estéril dos mortais, por mais shows mediáticos que protagonize, quais relâmpagos na noite, que deixam a realidade ainda mais às escuras, e as populações ainda mais roubadas e deprimidas. O apelo dos bispos aos católicos a fazerem da festa do Corpo de Cristo grandes manifestações de fé, revela todo o estéril que eles são, e todo o desespero em que vivem nos respectivos palácios episcopais que são outros tantos túmulos, como o palácio onde jazia/vivia o Lázaro de JESUS SEGUNDO JOÃO. Mais um pouco, e haverá mais bispos do que párocos e as populações ver-se-ão completamente privadas das missas que, no ensinar das catequeses cristãs, transformam as hóstias de farinha de trigo sem fermento em Corpo de Cristo e o vinho do cálice de ouro em Sangue de Cristo. Ao paladar, as hóstias já transformadas em corpo de cristo são exactamente iguais às ainda não transformadas. O mesmo se diga do vinho do cálice de ouro. E o efeito transformador que produzem no viver de quem os comunga/come/bebe é nenhum, já que nem para comida e bebida servem!

O problema é que tudo no cristianismo é assim como o corpo e o sangue de cristo. As palavras dizem uma coisa, mas a realidade mantém-se inalterada, antes e depois das fórmulas ditas. Pela simples razão de que o cristianismo não passa de um corpo de doutrina sem qualquer correspondência na vida real das populações. Um corpo de doutrina que remonta a S. Paulo, não a Jesus Nazaré, o das práticas económicas e políticas maiêuticas, conspirativas e transformadoras da realidade. Um corpo de doutrina completamente vazio e até avesso a práticas políticas maiêuticas e a práticas económicas vasos comunicantes. O cume deste corpo de doutrina que não tem qualquer vestígio de realidade, para lá da farinha de trigo e do vinho num cálice de ouro, é precisamente o chamado corpo e sangue de cristo que teólogo algum do mundo sabe dizer o que é. Já que a sua consistência é meramente verbal, conceptual, doutrinal. Chega-se ao cúmulo de ensinar que, em cada hóstia consagrada e em cada fragmento dela, está todo o corpo e sangue de cristo tão real e perfeitamente como está no céu. Nada, pois, que tenha a ver com a terra, com a história humana, na qual, felizmente, continua a soprar forte, umas vezes tornado, outras vezes brisa, a mesma Ruah/ Espírito de Jesus crucificado que nos leva, essa/ esse sim, a sermos práticas políticas e económicas maiêuticas, no prosseguimento das dele. As únicas práticas que mudam o mundo e a vida. E, simultaneamente, revelam que todo o sistema de poder é estruturalmente perverso, o inimigo maior da vida, o grande ladrão e o grande assassino das populações e dos povos.

 

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