MUNDO CÃO – “Guerra permanente” – por José Goulão

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 Transcrito de Jornalistas Sem Fronteiras, ediçãao de 22 de Junho de 2014, com aautorização expressa do autor e director

O maior sonho dos falcões que comandam o Pentágono, com mandato do complexo militar industrial que governa o mundo, está a cumprir-se.

Ele é também, por inerência, o maior pesadelo de todos nós. Não vale a pena temer o desencadeamento da terceira guerra mundial; o regime de guerra permanente à escala global em que estamos a viver é o conceito que vem substituí-la e ninguém poderá hoje dizer que está a salvo.

Guerra permanente e global. Reparem: o número de desalojados e refugiados provocados pelos conflitos em curso excede já o da Segunda Guerra Mundial – e um único deles, a guerra civil imposta na Síria, é responsável por um quinto do contingente. Nenhum continente escapa ao conflito global e permanente. E lá onde os confrontos parecem escaramuças localizadas, seja na Ásia entre golpes fascistas e reclamações territoriais, seja na América Latina, através de conspirações surdas e declaradas para substituir governos eleitos por ditaduras, a guerra pode não se medir em refugiados e mortos mas não faltam o medo, a instabilidade, o terror.

Nesta guerra global e permanente, negócio fabuloso que suporta qualquer crise e no qual o maior problema dos mercadores da morte talvez seja o das rupturas de stock, os campos de batalha em que se distribuem soldados e mercenários não estão definidos. O inimigo a abater aqui pode ser aliado a financiar ali, no país ao lado, na outra margem do rio. O imperador é capaz de enviar um drone executar um “terrorista” no Iémen enquanto confia armas e missões a um seu correligionário na Turquia ou lhe outorga o comando de uma região no Iraque.

Os marechais desta guerra global permanente provocam conflitos para criar situações em que os conflitos se multiplicam a si mesmos em modo contínuo, enquanto as soluções negociadas ou não existem ou são sabotadas – Afeganistão, Paquistão, Síria, Iraque, Líbia, Mali, República Centro Africana, Sudão, Somália, Ucrânia… Os marechais desta guerra gerem exércitos, é certo, mas também recursos naturais, balanços financeiros, colossos bancários e de seguros, complexos mineiros, impérios de propaganda, polvos de parcerias público-privadas de segurança, paraísos naturais e fiscais.

Em tal palco, o ser humano é uma peça ínfima, em desvalorização constante enquanto cresce o poder da engrenagem trituradora e destruidora capaz de garantir os interesse que importa garantir.

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