Acordei no meio do vale deitada numa caminha de ferro, com lençóis muito brancos e lavadinhos. Tinham a leveza do ar e a frescura da terra. Cheiravam a alfazema. Era a cama da minha infância, com flores e folhas entrelaçadas, pintada da cor do céu.
O sol já tinha acordado há muito e, antes dele acordaram os pássaros que passavam em revoadas de música e bailados.
O vale estava verde e florido, sem combros nem muros, cultivado para dar fruto. O rio, a ribeira e as levadas circulavam por ali mansos e serenos como o ar.
Mais camas de ferro espalharam pelo vale o cheiro a alfazema. Ergueram-se as pessoas e começaram a trabalhar, saudáveis e sorridentes. Reinava por ali a paz e a tranquilidade da minha infância. No ar, o refrão dos Beatles you may say I´m a dreamer…
De repente desce ao vale uma cama de ouro, tão reluzente que ofuscou o sol. Os pássaros agitaram-se em pios desgarrados e o rio galgou as margens de tão assustado. Uma espécie de arame farpado cercou os campos e as pessoas sentiram nas mãos o frio das algemas. Acordei oprimida. E continuei a canção… but I´m not the only one.
Pensei com os meus botões. Dorme-se tão bem numa cama de ferro!