SOBRE PIKETTY, SOBRE DESIGUALDADES NA REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO, SOBRE NEOLIBERALISMO – NOVA SÉRIE – 5. THOMAS PIKETTY E OS JOVENS MARXISTAS SOBRE O DISPARAR DA DESIGUALDADE, por TIMOTHY SHENK

Falareconomia1

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade

Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014

Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality

Parte VIII

(CONCLUSÃO)

Um céptico tecnocrata advertiria que o nosso conjunto de dados é muito pequeno para justificar o desespero. Existem alguns exemplos de esforços bem sucedidos para repor  a desigualdade a nível nacional, mas há  um século atrás apenas havia mesmo menos desigualdade, violentamente  ou de outra maneira. A  situação  política contemporânea, com os seus pesados volumosos Estado-Providência e o seu exército de especialistas, é mais novela  do que o  querer  permitir  às  pessoas lembranças  históricas. Neste cenário, Capital in the Twenty-First Century, embora seja uma obra duvidosa como uma obra de teoria da democracia, pode conseguir mais no mundo da prática democrática.

Mas se isto ocorre, dever-se-á então  e em muito  às afinidades  de Piketty com os seus  dois notáveis  antecessores. Mais de cinquenta anos passaram desde a publicação de A Monetary History of the United States de  Milton Friedman e Anna Schwartz, mas este continua a ser  o  trabalho mais influente da economia publicado no século passado de entre os que  não foram  escritos por John Maynard Keynes.  Como Piketty, Friedman e Schwartz também assentaram a sua teorização numa enorme base de dados. Num texto cruelmente académico, contudo, estes extasiaram uma geração crescente de economistas, incluindo o jovem  Ben Bernanke, que a creditou ao tomá-la como a  base  da sua inspiração para a sua própria especialização em teoria monetária. Quando a estagflação  pareceu minar os pilares da teoria  económica keynesiana nos anos 70, os responsáveis políticos desesperados embrenharam-se  nas políticas legitimadas por Friedman e por Schwartz (o primeiro, enquanto foi ganhando notoriedade, era um protegido de Simon Kuznets). O debate político pode virar-se e seguir repentinamente vias  inesperados, e embora ajude  ter o poder do seu lado, a oposição de interesses pesados nem sempre é  decisiva. Os economistas estavam na vanguarda da viragem  contra a ordem de após-guerra, desde há décadas bastante previsível, porque nenhuma outra ciência social utiliza uma  influência comparável acima  do governo. A carreira de Piketty mostra que pelo menos alguns economistas estão prontos para ajudar a reparar os danos que os seus colegas impuseram. Estes poderiam ser ajudados ao longo do caminho por um radicalismo revigorado, mesmo marxista, de esquerda. Mas este poderia ficar sujeito às objecções de Piketty. Muito antes, este esteve  firmemente situado numa geração definida pela queda do comunismo. “Eu fui vacinado para a vida contra o que é convencional mas igualmente contra a retórica insidiosa do anti-capitalismo ” escreve, “alguns dos quais  ignoraram  simplesmente a falência histórica do comunismo e muitos viraram as costas aos meios intelectuais  necessários para forçar a ir para além dessa falência. ” Embora seja um leitor mais generoso de Marx, Piketty cai no mesmo tom áspero sempre que se refere  aos sucessores de  Marx . A hostilidade acompanha a têmpera  entre os intelectuais franceses depois da viragem generalizada  contra o marxismo nos anos 70, mas é preocupante olhar para eles e vê-los agressivos para potenciais aliados quando a escala dos  desafios que enfrentam os defensores da igualdade é tão assustadora. Também corre contra uma disposição mais ecuménica eliminada nos parágrafos finais do livro, em que ele anuncia que o “confronto bipolar do período 1917 – 1989 está  agora claramente já bem atrás de nós” e declara que chegou a hora de abandonar o terreno intelectual moldado pelos  conflitos da guerra fria.

A  retórica do Piketty não é nova. Variações deste seu tema remontam pelo menos a 1917, e imitações mais pálidas disso mesmo estavam  omnipresentes nos manifestos da  “terceira via” da década de 1990. Mas isto ressoa de uma maneira diferente hoje. Apesar de ter sido fácil tratar o ano de  1989 como a culminação da majestosa ascensão do capitalismo liberal, 2008 é bem mais difícil de interpretar, especialmente quando muitas das previsões emitidas no auge da crise financeira não se concretizaram: não há uma segunda  criação  do New Deal, não há nenhuma eclosão  da União Europeia, não há nenhuma reformulação fundamental da geopolítica. Depois de todo este tempo, 2008 ainda parece como sendo um violento rasgar do tecido da história. É difícil, talvez impossível, tecer uma tapeçaria com tantos pedaços.

Isso provavelmente é o melhor. A noção de que a história poderia ter um fim sempre foi uma ilusão, uma desculpa para fazer passar as preferências como ditames de uma mais alta autoridade aquém mas já próxima do divino. Determinar a conclusão da história exige o domínio sobre todo o seu arco de tempo  e é um conhecimento que ninguém pode afirmar possuir. O que parece permanente pode desaparecer num só instante, enquanto o aparentemente arcaico pode reviver mais rapidamente. Pretender e apelar a uma paragem no jogo afasta a proposição mais preocupante de que a história tem as suas mandíbulas agarradas  em torno de nós e que esta não está disponível  para nos deixar livres. O futuro estará sempre a surpreender-nos; é o nosso fardo e é o nosso privilégio, igualmente. Conceber uma reflexão utilizando a linguagem do passado, mostrada com veemência com o ressurgimento do marxismo, traz um sentido de ordem para o que pareceria ser como um caos. Mas uma alternativa mais promissora pode estar a caminho. O marxismo é um tipo de socialismo, mas a história sugere um conjunto muito mais rico de possibilidades, conjuntamente com alguns motivos de esperança. É isso que faz um trabalho como Capital in the Twenty-First Century, um sinal de que uma outra tradição perdida, as visões pós-capitalismo  em suspenso desde a década de 1970, poderiam estar a ser preparadas para um regresso; ou, melhor ainda, em que poderemos pôr de lado os velhos discursos e traçar o nosso próprio caminho.

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Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:

http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality

Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist

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Para ler a Parte VII deste texto de Timothy Shenk, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

https://aviagemdosargonautas.net/2014/06/25/sobre-piketty-sobre-desigualdades-na-reparticao-do-rendimento-sobre-neoliberalismo-nova-serie-5-thomas-piketty-e-os-jovens-marxistas-sobre-o-disparar-da-desigualdade-por-timoth-7/

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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