CRÓNICA DO MUNDIAL – O MEU COMENTÁRIO – por João Machado

Imagem3Este campeonato do mundo de futebol de 2014 já teve pelo menos um lado bom: mostrou a muita gente o que é o mundo do futebol. Não o futebol, mas sim o mundo do futebol. Alguns chamam-lhe mesmo o submundo. Foi muito interessante assistir às reacções dos brasileiros, em relação aos aspectos mais negativos da organização deste campeonato. Já sabíamos há muito tempo, muito antes do Euro 2004, que o futebol serve de pretexto para muita coisa negativa. Mas a Copa 2014 mostrou, numa dimensão nunca alcançada anteriormente, o quanto encobre a manta do futebol. Para usar uma expressão muito repetida noutras circunstâncias, “as oportunidades de negócio” que ele possibilita.

Alguns de nós já conheciam o civismo dos brasileiros. As manifestações que ocorreram foram, é certo, manchadas por excessos, e ainda não terminaram, mas a grande maioria decorreram, e vão com certeza decorrer, dentro da maior ordem, embora haja, ao que parece, quem queira fazer passar uma má imagem relativamente aos que nelas participaram. Contudo, é preciso realçar que a maior parte das manifestações alcançaram os seus objectivos ordeiramente, ao contrário do que chegou a ser propalado. Muitos participantes deixaram claro que não são contra o futebol, nem contra a copa, são sim contra o mau uso que deles se faz. E conseguiram deixar claro o que contestavam. Aspectos muito graves, como as insuficiências das infra-estruturas, muitas delas, como o metropolitano de S. Paulo, a parecerem estar mesmo em risco, foram devidamente vincados. E a grande mensagem é que o povo brasileiro gosta muito de futebol, mas não como ópio.

O futebol é um jogo muito bonito e interessante, quando bem jogado. Para muita gente, sem dúvida, mesmo quando mal jogado. Até pessoas que afectam não o apreciar, acabam fascinadas com a movimentação que desencadeia. Num campeonato do mundo, é suposto aparecer o melhor, a elite. Por isso, o Brasil preparou o evento na perspectiva de que muita gente comparecesse aos jogos, de dentro e de fora do país. Houve grandes dificuldades em executar as obras planeadas, em cumprir os prazos marcados. Não vou entrar na análise dos vários aspectos que falharam, que foram muitos, nem dos muitos abusos cometidos, matéria já tratada em muitos lados, incluindo A Viagem dos Argonautas. Refiro só que a comunicação social foi um dos sectores que mais investiram neste campeonato do mundo. Em reportagens, filmagens, entrevistas, eu sei lá. E então em comentadores… Num país em que o comentário é, há muito, uma instituição dominante, conseguiu-se atingir as raias. Seria interessante saber quantos comentadores tem este campeonato do mundo, só em Portugal. Na televisão, jornais, rádio. Todos somados são de certeza mais do que o total de jogadores intervenientes no evento.

Não me digam que é uma questão de somenos. Há muita gente que não se levanta da cadeira (do sofá, da poltrona) para ir ver um jogo de bola, mesmo que seja na rua ao lado, mas que contudo se deixa ficar noites e noites em frente à televisão a ouvir os comentadores. Alguns só sabem dos resultados dos jogos por estes. E preferem que o seu comentador favorito dê uma trepa nos colegas, a que o clube do coração ganhe o jogo. Acreditem! Já nem discutem as peripécias dos jogos, mas sim os argumentos dos comentadores, bem como os adjectivos que empregam.

O excesso de comentários tem sido prejudicial ao futebol, e ao desporto em geral. Nem falo dos directores que não tomam decisões, ou erram quando as tomam, pressionados pelo receio de serem fuzilados nos jornais ou na televisão. Falo dos jogadores que, saturados de boatos, críticas infundadas, uma incompreensão que se manifesta a toda a hora, muitas vezes vêm o seu prestígio e até a dignidade amachucados por sensacionalismos inconcebíveis. É verdade que muitos (não todos! Nem a maioria…) ganham muito bem, e alguns imoralmente. Contudo, é impossível que alguns deles não se sintam como aberrações, ao fim de algum tempo. E poucos estão preparados para resistir.

Conheço mal os meandros da federação, e do futebol em geral. Contudo, arrisco-me a dizer que a selecção portuguesa, que ontem foi eliminada ainda na fase inicial da Copa, nunca poderia ter ido muito longe. Composta maioritariamente por jogadores ligados a equipas estrangeiras, e que cumpriram épocas muito duras, dificilmente poderia estar em boa forma. Por outro lado, o seu campo de recrutamento é muito pequeno. Não só a população do país é pouca, e está envelhecida, como a escassa prática de desporto, nas escolas e no país em geral, faz com que o número de praticantes de futebol com um mínimo de qualidade seja muito reduzido. Ainda há a ter em conta a existência à volta dos jogadores de um certo ambiente enquistado de intrigas e rivalidades mesquinhas,bastante envolvente e muitas vezes desestabilizador, que a actuação e o excesso de comentadores agravam consideravelmente, em vez de ajudar a ultrapassá-lo. É muito desgastante para quem, no fim de uma época longa e dura, vem tentar integrar-se numa selecção nacional e partir para um país amigo, é certo, mas longe e com um clima (climas) e um ambiente social muito diferentes dos do nosso país.

 

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