RELEMBRANDO “O MEU PÉ DE LARANJA LIMA” – por Clara Castilho

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Lembrando-me bem de ter lido este livro ainda jovem e de muito dele ter gostado, reli-o, agora com outros olhos.Capa da primeira edição de Meu pé de laranja lima, em 1968 É do escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos (1920 – 1984). Mauro de Vasconcelos nasceu numa família pobre. Percorreu o Brasil de norte a sul; foi treinador de boxe, agricultor, operário, “garimpeiro”(explorador de minérios), carregador de bananas, actor de cinema, jornalista, locutor de rádio e escritor. Iniciou diversos cursos superiores, mas nunca concluiu nenhum deles. Foi em 1968 que escreveu a sua obra mais conhecida – O meu pé de laranja lima – história baseada na sua infância. Nos primeiros meses de lançamento vendeu mais de 217 mil exemplares…. Hoje, pode ser descarregada em pdf e é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura 3º ciclo. Foi traduzido para 52 línguas e publicado em 19 países,  adoptado em escolas, para o cinema, televisão e teatro.

Neste livro defrontamo-nos com a história de Zezé, com seis anos, um rapaz pobre, inteligente, sensível e carente. Com a falta de afecto que não encontra na família, anda pelas  ruas  divertindo-se e pregando partidas. Descobre a ternura e o carinho no amigo “Portuga”. A árvore pé de Laranja Lima, a quem faz confidências, e a quem chama Xururuca é o seu auxílio, pelo desabafo das tristezas.

 Se em jovem talvez me tenha divertido com as suas partidas e humor, hoje, revejo a vida de muitas crianças:

“ … dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía no coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem contar a ninguém o segredo.”

“… eu quero ter doze filhos e mais doze… os primeiros serão todos crianças e nunca vão apanhar. Os outros doze vão ficando homens.”

-“ Tu gostarias de ser meu filhinho?

– A gente não pode escolher o pai antes de nascer. Mas se pudesse eu queria você.

– Verdade, pirralho?

– Posso até jurar. Depois, seria uma pessoa a menos para comer…. Se não quiserem dar, você compra. Papai está sem dinheiro nenhum. Garanto que ele vende. Se pedir muito caro você pode me comprar a prestações”.

“… realmente não disse nada, mas tinha o horror e a revolta estampados nos olhos. Eu não queria que ele visse as manchas, os vergões e as cicatrizes das surras que eu tinha apanhado”.

“A pobreza lá em casa era tanta que a gente desde cedo aprendia a não gastar qualquer coisa. “

“Minguinho é meu pé de Laranja Lima. … ele é um danado. Ele fala comigo, vira cavalo, saia com a gente.”

“O vulto de Mamãe apareceu na esquina. Era ela. Ninguém no mundo se parecia com ela”.

“Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque eu sempre conversava com tudo, mas pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar.

-Mas você fala mesmo?

[…] – Árvore fala por todo canto. Pelas folhas., pelos galhos, pelas raízes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que você escuta meu coração bater”.

Sabemos que continuam a existir muitos Zezés. Esperemos que encontrem muitos Portugas.

 

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