FRATERNIZAR – QUEM PODE APRISIONAR O VENTO NAS PALAVRAS? – por Mário de Oliveira

 

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QUEM PODE APRISIONAR O VENTO NAS PALAVRAS?

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Fui convidado pela minha querida Amiga Patrícia Queirós, Actriz profissional que também está determinada a fazer do Barracão de Cultura um dos seus espaços de intervenção artística maiêutica, para uma tertúlia sobre religião e espiritualidade, e aceitei. A tertúlia aconteceu ontem, 26 de Junho, no Cais Cultural, ali mesmo junto à Estação dos comboios, em Caíde de Rei. As pessoas foram as bastantes para nos partilharmos durante mais de duas horas e nos desassossegarmos umas às outras. Porque, quando pelas nossas mentes passa o Vento (em hebraico clássico diz-se Ruah, um substantivo feminino, por isso, o meu preferido, até porque é ela que está na concepção de cada uma, cada um de nós, no útero das nossas mães, o que me leva a ter de reconhecer que somos filhas, filhos da Ruah, antes de sermos filhas, filhos das nossas mães e dos nossos pais!), nunca mais somos as mesmas pessoas de antes. Tudo o que o cristianismo, o judaísmo, o islamismo e todos os outros sistemas religiosos arquitectaram para formar/ formatar as nossas mentes e, desse modo, nos impedirem de sermos Eu-sou, único e irrepetível, na História, a crescer de dentro para fora em permanente relação maiêutica uns com os outros, é derrubado e nada mais volta a ser como antes.

 

A noite começou por ser amena e bastante participativa, que eu puxava pelas pessoas para que se pronunciassem e se dissessem. E elas não se fizeram rogadas e soltaram as suas línguas. Pronunciaram-se, abundantemente, mas acabaram por me deixar desorientado no meio de tantas palavras ditas. Depois de muito escutar, confessei-lhes a minha desorientação. As palavras, mais que muitas, que elas haviam dito e partilhado tiveram o perverso condão de me deixarem desorientado. Sinal inequívoco de que eram palavras geradoras de desorientação, não de luz e de guia. E disse-lhes isso mesmo. As pessoas falaram, falaram, mas não disseram nada ou quase nada que fosse delas. Não se disseram nas palavras que disseram. Não se deram nas palavras. Sem disso terem consciência, limitaram-se a reproduzir palavras de outro, não se disseram, não se partilharam. Por isso, não tiveram voz nem vez, apesar do seu muito dizer. Sem se aperceberem, limitaram-se a ser meras cassetes. O que disseram não era delas, mas de um estranho, precisamente, o estranho que as traz interiormente domadas/ domesticadas/ sequestradas, desde o nascimento. Por isso, parecem pessoas, mas são cassetes. O cristianismo, com a sua ideologia e a sua teologia idolátrica, é o demónio que lhes ocupa a mente, a consciência e lhes rouba a palavra, a voz e a vez. Mesmo, agora, que já são adultas na idade, continuam quase como no útero materno. Não cresceram de dentro para fora, não são. É um outro, estranho a elas, que as domina e que lhes rouba a voz e a vez. Não as deixa ser e crescer de dentro para fora em sabedoria e em graça/ entrega de si aos demais, na máxima gratuidade. O cristianismo, o judaísmo, o islamismo e todos os demais sistemas religiosos têm esse perverso condão. São assassinos da matriz original de cada mulher, cada homem que vem a este mundo.

 

Quando lhes disse isto, as pessoas ficaram interiormente agitadas e dificilmente terão conseguido dormir esta noite. A religião, onde entrar e ficar, faz as pessoas prisioneiras, cativas. Rouba-lhes o ser. Mais do que pessoas, são cassetes. Não se dizem, não se partilham. Reproduzem o discurso do seu dono, do seu sequestrador. São religiosas, não são humanas, crescem em anos e em estatura, não crescem em sabedoria e em graça/ entrega de si aos demais, na máxima gratuidade. São um desastre ambulante. São abortos que se agitam, sem nenhuma originalidade. São quantidade, números, estatística, não são qualidade, seres humanos únicos e irrepetíveis.

 

Não se pense, entretanto, que basta mudar as palavras e passar a chamar “espiritualidade” ao que até há pouco chamávamos “religião”. O problema não se ultrapassa com a mudança das palavras. Só com a mudança do ser. A espiritualidade de que actualmente tanto se fala, como alternativa ao religioso, enferma da mesma perversão que a religião, de que o cristianismo, no Ocidente, é o exemplo mais acabado em perversão. Urge, por isso, nascermos do Vento. Urge nascermos da Ruah. Sermos de dentro para fora. Únicos e irrepetíveis. Outros Jesus. Mas então somos fonte de sarilhos, imprevisíveis, clandestinos, com quem o sistema de poder não poderá contar, nem os partidos políticos, nem as paróquias, nem as escolas do sistema. As filhas, os filhos da Ruah/ Vento são outras, outros Jesus. Como ele, dizem aos párocos e pastores, aos governos e aos partidos políticos, às escolas e às igrejas, Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não! Eu vim trazer a dissensão. E ainda: Vim lançar fogo à terra e o que mais desejo é que tudo se incendeie. E, finalmente: Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; e todo o que é pela verdade, escuta a minha voz. Numa palavra, nasci e vim ao mundo, para fazer novas todas as coisas, não para ser uma cassete mais.

 

Podem imaginar o abalo sísmico na mente/ consciência das pessoas presentes na tertúlia. E para ajudar a alimentar esta Ruah que nos faz ser de dentro para fora – só assim somos seres humanos – partilhei com elas, quase a concluir a sessão, o Salmo 43, versão terceiro milénio também para ateus, de O LIVRO DOS SALMOS, Edium Editores, 2012, que reza assim:

 

43 Desapareçam as religiões e fique a Tua Ruah

1 É apenas de Ti, Deus Abba-Mãe, que tenho sede e fome.

Depois, quando espero vir a ser encontrada, encontrado por Ti,

deparo com exércitos de sinistros líderes religiosos, pastores,

papas e bispos residenciais, que me falam em Teu nome

e se arrogam de privilégios e poder absoluto sobre mim.

 

2 Só Tu, Deus Abba-Mãe, és a Ruah que me chama à vi vida

e nela me sustém. Graças a Ela, sou mulher, homem dádiva.

Desapareçam todas as religiões da face da terra; fique comigo

e com todos os povos apenas a Tua Ruah maiêutica.

 

3 Fora do oprimido/pobre, não há santuário digno desse nome.

Só na comunhão com eles, chego a ser Tua filha, Teu filho.

 

4 Vivo longe dos altares e dos templos; os cultos que neles

se promovem são idolatria. Apenas, lá, onde dois ou três se

encontram para subverter/derrubar politicamente o Poder este

tipo de mundo, Tu, Deus Abba-Mãe, és canto/dança.

 

5 Estão já à porta, aqueles dias, em que, dos santuários

construídos pela mão do Poder, nem cacos restam.

Só seres humanos, outros, Jesus, ao leme do mundo.

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