Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Piketty versus Marx: os dois economistas têm muito em comum mas as suas diferenças são também importantes
Russell Jacoby
New Republic, 7 de Junho de 2014
Parte II
(continuação)
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A igualdade é uma questão muito pouco presente na obra de Marx. Ele nunca pensou que os salários dos trabalhadores pudessem vir a ficar muito elevados mas nem mesmo que eles chegassem a um valor modesto, isto não era o relevante para ele. O trabalho embrutecedor, esse permanecia, não importa aqui o salário. O capital dita os seus parâmetros, ritmos e especificações do trabalho, o que é rentável e o que não é. Mesmo sob o capitalismo “fácil e liberal”, onde o trabalhador obtém melhores salários e pode alargar os seus tempos de lazer e o seu consumo, a sua situação de trabalhador para outros fundamentalmente não muda. Um melhor salário não altera a sua situação de dependência, mas “uma melhor paga, melhor roupa e mais limpa, melhor comida e mais abundante, e um acréscimo de pecúlio [poupança] não fazem cair as correntes do escravo.” Na melhor das hipóteses, salários mais elevados significam que ” a corrente de ouro à qual o capitalista mantém o assalariado preso e que este não deixa de continuamente a estar a forjar, é já bem comprida para permitir algum relaxamento de tensão”. Pleiade, vol I, pag 1128
As notas de protesto do século XIX aqui podem provocar um sorriso e, no entanto, a formulação concentra-se na estrutura do trabalho sobre a qual Piketty não está interessado. A questão não é a de se saber se Marx ou Piketty estão certos sobre a forma como funciona o capitalismo, mas sim qual é o vector da sua análise. Piketty aponta para o vector da redistribuição, Marx aponta para o vector da produção. Piketty quer re-distribuir os frutos do capitalismo a fim de equilibrar os seus altos e baixos; Marx quer transformar o capitalismo, a fim de acabar com o seu domínio.
Muito do trabalho de Marx, desde muito cedo e até ao fim da sua vida, foi o de procurar documentar a miséria do trabalho. As centenas de páginas do Capital descrevem o dia de trabalho médio (e a noite) assim como os seus descontentamentos. Piketty é silencioso sobre esta matéria, embora o seu livro abra a falar de uma greve de trabalhadores nas minas da África do Sul. A entrada no seu índex para o termo “trabalho” lê-se “considere a separação capital-trabalho .” Isto faz o sentido, porque são as desigualdades desta partilha que interessam a Piketty, não o próprio trabalho enquanto tal.
Isto também faz Piketty parecer contemporâneo e Marx irremediavelmente a parecer um economista à moda antiga. O trabalho em Piketty existe principalmente como números sobre rendimento. Com extensos flashes sobre detalhes ou com uma raiva superficial no seu livro, basicamente refere-se ao mundo dos muito ricos. Ele observa que a fortuna de Liliane Bettencourt, herdeira da L’Oréal, o gigante da cosmética, aumentou de US $4 mil milhões para US $50 mil milhões entre 1990 e 2010. “Por outras palavras, Liliane Bettencourt, que nunca trabalhou um dia na vida dela, viu a sua fortuna crescer exactamente e à mesma velocidade que Bill Gates viu crescer a sua. ” A atenção de Piketty para os endinheirados fala à nossa sensibilidade actual, enquanto a descrição de Marx de um dia de trabalho dos padeiros, de lavadeiras ou de tintureiros evoca um mundo já passado. Indústria transformadora e montagem no trabalho é todo um mundo que está a desaparecer nas nações capitalistas avançadas, embora esteja bem vivo no mundo em desenvolvimento, desde o Bangladesh até à República Dominicana. Ainda o que é velho não é necessariamente obsoleto, e a atenção e preocupação de Marx sobre o trabalho indica algo que dificilmente se vislumbra em Piketty.
Piketty efectivamente documentos a “explosão” da desigualdade, especialmente nos Estados Unidos e contesta os economistas mainstream que procuram explicar as grandes diferenças salariais pelas forças racionais dos mercados. Ele espicaça os economistas americanos académicos “muitos dos quais acreditam que a economia dos Estados Unidos está a funcionar muito bem e, em particular, que premeia o talento e o mérito de forma rigorosa e precisa.” Isto não é surpreendente, observa ele, na medida em que estes economistas pertencem ao decil dos 10% mais ricos. Os seus salários são impulsionados pelo mundo financeiro privado, em que estão em concorrência ou em que ocasionalmente trabalham. O resultado? Eles “têm a infeliz tendência para defenderem os seus interesses privados enquanto incrivelmente alegam estarem a defender o interesse geral”. Piketty, que ensinou no MIT, nota na sua introdução que o elenco dos economistas apologéticos e falsos cientificamente o desiludiram muito. Uma “grande vantagem” de ser um economista académico em França, diz-nos Piketty , é o mínimo respeito e o pagamento que se recebe. Isso mantém-nos ancorados no mundo real.
Mas Piketty é menos bem sucedido em oferecer uma contra-explicação da vasta desigualdade salarial para além da noção bastante convencional que a tecnologia, a educação e os costumes sociais conduzem a uma hierarquia dos salários. A remuneração dos que ele chama de “supermanagers” não pode ser explicada por uma “justificação racional de produtividade”. Os “prémios extremamente generosos atribuídos a gestores de topo” são uma “força poderosa”, intensificando a desigualdade económica, especialmente nos Estados Unidos. Estes pagamentos gigantescos reflectem normas sociais atuais, elas próprias parte integrante de uma política conservadora que reduziu as taxas superior de imposto. Os executivos das empresas atribuem-se a si-mesmos alários enormes, porque eles podem, e a sociedade considera aceitável — pelo menos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Esta é a explicação de Piketty.
A análise de Marx procede de maneira completamente diferente. Ele está menos interessado em mostrar as grandes desigualdades económicas e está muito mais interessado em encontrar e explicar que a origem das suas raízes está na acumulação capitalista. Para se ter a certeza, Piketty assenta a desigualdade no que ele chama de “a contradição central do capitalismo,” a disjunção entre a taxa de retorno sobre o capital e a taxa de crescimento económico. Na medida em que a primeira necessariamente eclipsa a segunda, favorecendo a riqueza existente sobre o trabalho existente, leva a uma distribuição desigual e “aterradora” da riqueza. Marx pode não discordar, mas novamente o seu centro de atenção está no trabalho e na produção, que é onde a desigualdade se gera e onde actua. Marx argumenta que a acumulação de capital leva ao desemprego parcial, casual e permanente. Seria difícil declarar que estas não são realidades dramáticas do mundo de hoje, mas de que não se vê nem uma sombra no texto de Piketty..
Claro, Marx começa com uma proposta diferente: o trabalho como fonte de riqueza. Novamente, hoje isso pode parecer estranho, mas também sinaliza algo sobre o capitalismo que dificilmente é resolvido. O capitalismo tanto exige como dispensa o trabalho. Por outras palavras, o capitalismo tanto emprega e, crescentemente, desemprega. Precisa de trabalhadores quando se expande, despede trabalhadores quando quer cortar nos custos e quando automatiza. Marx discute longamente como é que um avanço do capitalismo produz “uma população relativamente redundante de trabalho.” Isto leva a duas formas básicas, despedindo os trabalhadores já contratados e deixando de contratar novos trabalhadores. Como consequência o capitalismo produz pessoas “descartáveis” ou seja, um exército de reserva de desempregados. À medida que a riqueza e o capital aumentam, assim acontece com os desempregados e os sub-empregados , verdadeiramente desiguais.
(continua)
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Para ler a parte I deste artigo de Russell Jacoby, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
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Ver o original em:
http://www.newrepublic.com/article/118024/piketty-and-marx-where-they-disagree


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