POESIA AO AMANHECER – 475 – por Manuel Simões

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ELISABETH RENNÓ

                                            ( 1930 )

            SUBMERSÃO

            A pedestal de carne húmida

            vinha o mar

            e seu bramido

            era maior que as ondas

            batendo nas pedras

            em que o limo de séculos

            prateara

            de pranto negro e assustador

            O canto das sereias

            era forte

            a seus ouvidos de Ítaca

            e não havia

            nenhuma densa para fechá-los

            As coisas

            que o mar trazia

            eram restos do passado

            e provas de presente

            vivências de antevisão

            em aura de futuro

            Abriu-se a linha das águas

            do bíblico caminhar

            e à angústia suportada

            deu-se eterno repousar.

            (de “Reflexos…”)

Poetisa e ensaísta brasileira. Presidente emérita da Academia Feminina Mineira de Letras. Antologiada em “A poesia mineira do século XX” e em “Reflexos da Poesia Contemporânea do Brasil, França, Itália e Portugal” (2000). Autora do ensaio “A aventura surrealista de Lêdo Ivo: invenção e descoberta” (1985). Publicou vários livros de poesia, entre os quais “Palavras e Parábolas, Cantata em Dor Maior” e “Ronda Universal”.

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