EDITORIAL – OS GAJOS GANHARAM?

logo editorialHá temas incontornáveis, para usar a expressão que (enquanto não surgir outra) se emprega a propósito e a despropósito. Mas evocar a memória de Salgueiro Maia é mesmo um imperativo que não podemos nem queremos contornar. Sobre um escritor que morreu muito jovem e se converteu numa lenda, disse um outro – «teve a sorte de morrer antes de começar a cometer os erros que quem está vivo não consegue evitar». Morrendo com 48 anos, Salgueiro Maia, figura emblemática do movimento libertador, nunca cometeu actos que pudessem empalidecer o seu prestígio de homem corajoso e honesto. E recusou os dividendos que a sua coragem lhe poderia ter feito render.

Um nítido défice no comportamento ético da maioria das personagens que actuam no palco da política, leva-nos frequentemente a afirmar que «são todos iguais». Para que não se caia no desespero de considerar normal o oportunismo reles, a falta de dignidade com que hoje se faz uma afirmação e amanhã se contradiz por actos o que as palavras da véspera juraram, para podermos continuar a acreditar que esta espécie de  primatas superiores que se apossou do planeta é capaz de ser verdadeiramente humana e superar a sua animalidade, podemos inventar figuras ou a mitificar biografias – Cristo, Buda, Visnú, Maomé…  e podemos estribar essa esperança em exemplos como os de Salgueiro Maia. Não foi um político, porque não o quis ser. Mas a sua modéstia não conseguiu evitar que seja um símbolo de honradez, com a dimensão ética que os símbolos devem assumir.

E não é possível esquecer que nos antípodas dessa generosa atitude cívica, está gente que lucra com os desastres financeiros que arruínam a economia nacional, gente que colaborou com a polícia política, gente que afirma hoje como irrevogável o que amanhã revoga… E são os crápulas, mentirosos e sem honra que ocupam as cadeiras do poder e que decidem o que está certo e o que está errado. Que decidem recusar uma pensão à viúva de Salgueiro Maia e atribuir condecorações a agentes da PIDE.

Quando soube que o cancro o iria vitimar, Salgueiro Maia disse para um companheiro de armas – «O gajo ganhou!».

O cancro fascista deixou metástases pelo corpo da Nação. Os gajos ganharam! Pelo menos, até agora, estão a ganhar, querido amigo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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