A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte II

(continuação)

Mas a crise já passou, é o que agora nos andam a dizer. Vejamos alguns dados sobre a crise, sobre as posições dos países europeus de agora face ao período em que se desencadeou a crise, para se perceber bem o beco sem saída a que as politicas de austeridade nos têm levado e mais ainda para se perceber que cada vez estaremos mais endividados, cada vez com menos capacidade de resposta para uma verdadeira saída da crise.

Diz-nos a Standard and Poors:

“o montante da dívida permanece a níveis muito elevados em muitos países da periferia. Comparando a dívida externa líquida como uma fracção da balança corrente –na nossa opinião uma métrica mais eficaz para a avaliação da dívida externa. Em face de cada  uma das 129 dívidas públicas citadas por Standard and Poor’s, notamos que quase metade das 20 primeiras dívidas públicas são de  membros da zona euro.

Os gráficos 1 e 2 mostram-nos, com base em dados do BCE, que a dívida global do sector privado e do sector público dos três grandes agregados residentes, (famílias, empresas não financeiras e governo) e em termos de pontos percentuais em relação ao PIB permanece nos países da periferia muito perto dos valores muito altos atingidos no auge da crise, o mesmo acontecendo quando analisamos o problema da dívida em termos de valores absolutos, em termos de montantes globais. O elevado rácio dívida / PIB tem sido exacerbado pela queda no PIB nominal em toda a periferia. E enquanto na maioria dos países da periferia se está agora com a retoma perante um modestíssimo crescimento económico – o baixo crescimento do deflator utilizado, o do PIB, (e em alguns deflação definitivas casos) fará com que a desalavancagem (a redução da dívida) contínua se torne ainda mais complicado.

Encontro Acidental - IIaEncontro Acidental - II

Encontro Acidental - III

 

As economias de periferia em reajustamento, estão então perante um dilema entre o terem de reforçar a competitividade, por um lado (o que necessita de taxas de inflação abaixo da média da UEM) e a desalavancagem, ou seja a redução da dívida relativamente ao PIB, que seria reforçada na presença de crescentes níveis de preços). Acreditamos que à luz destes níveis de dívida acima referidos, bastante elevados, muitas famílias, indivíduos, empresas e todos os governos continuarão a apontar para uma melhoria da posição líquida. A contracção do crédito do sector privado na periferia é, a nosso ver e pelo menos em parte, devida à sinalização da procura de crédito de que o custo da dívida está ainda a ser considerado como muito alto, por muitas empresas da periferia assim como pelas famílias. Em termos macroeconómicos, isto significa que as taxas de poupança terão de permanecer altas no sector privado até que um baixo nível de divida desejado seja finalmente alcançado.

Por conseguinte, espera-se que todos os componentes da procura interna (consumo privado, investimento privado e gastos do governo) permaneçam sob pressão à baixa. Isto colocará visivelmente ainda uma maior importância e pressão nos resultados alcançados nas exportação e mais importância, portanto, na reequilibrarem das contas externas para gerar as taxas de crescimento económico sustentado necessárias para melhorar a situação ainda em depressão em termos de PIB e de emprego.”

Mas devemos sublinhar face ao texto reproduzido que procurar pela via das exportações melhorar a situação interna, com uma moeda sobreavaliada e com todos os países a querer fazer o mesmo, é objectivamente um absurdo, é uma ideia só pensável e exigida ou por ignorantes em economia ou então por verdadeiros predadores às ordens  de potências externas, como parece ser o caso de Durão Barroso, Comissão Europeia,  da senhora Christine Lagarde, FMI, de Mario Draghi, BCE, de Jens Weidmann, Bundesbank. Desde 2010 a insistirem neste absurdo das políticas de contracção que fazem aumentar o rendimento (!), ou seja, a garantirem-nos que seremos tanto mais ricos (no futuro) quanto mais pobres formos agora, com as políticas de contracção que farão disparar depois em alta os rendimentos de todos nós! E depois, como uma asneira destas nunca vem só, dizem-nos que devemos deflacionar para obtermos excedentes, o que é, de imediato, uma impossibilidade pois sendo para cada um dos Estados em dificuldade os países da UEM os seus principais parceiros, a deflação interna praticada por todos não altera os preços relativos internacionais, não aumenta a competitividade do país.  E dos resultados alcançados por este grupo de predadores da coisa pública continuemos a mostrar resultados. Como nos assinala Matt O’Brien:

“Toda a gente gosta de andar a fingir que a crise do euro acabou.

São os políticos que não querem ouvir a palavra “resgate” novamente. São os banqueiros centrais que nunca querem ouvir a palavra “deflação” de novo. São as pessoas que nunca mais querem ouvir as palavras “spreads da dívida pública”. Mas estar-se suspenso nesta crença, é claro, não faz nada para acabar com a depressão da Europa. O desemprego está ainda acima dos 25% na Grécia e em Espanha, de 15 por cento em Portugal e de 10 por cento na Irlanda.

Então porque é que a Europa não tem verdadeiramente nenhum sinal de retoma? Bem, é a dívida, oh estúpidos.

Agora, não se trata do mesmo tipo de dívida. A Grécia, como a Alemanha severamente no-lo faz lembrar, entrou em crise por causa da muito elevada dívida pública. Assim também é a mesma situação que se passa em Itália, embora este país tenha, do ponto de vista fiscal e orçamental, sido realmente bastante responsável, pois foi mais atingido pelas más condições para que haja crescimento económico do que por uma má política orçamental. Mas todos os outros países que têm estado sujeitos a situações de fortes problemas devem esta situação não a uma forte dívida pública mas sim a uma forte dívida privada, onde se mostra o endividamento privado global relativamente ao PIB, das famílias e das empresas.”

(continua)

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Para ler a Parte I desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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