
III
Infelizmente para mim não pude gozar tudo quanto esperava. Precipitei-me, mediquei-me demasiadamente e, quando deveria estar no pleno gozo da minha situação de doente, encontrei-me quase bom.
Um dos prazeres que me reservava era o de não escrever esta semana o folhetim costumado. O jornal anunciaria que “o nosso querido colaborador e brilhante humorista não pôde, por incómodo de saúde, enviar-nos a sua crónica habitual”, e remataria fazendo votos pelo meu pronto restabelecimento.
Os leitores que me conhecem de vista não deixariam daqui a tempos, quando me encontrassem na rua ou no carro eléctrico, de notar que eu já estava bom e sei que é sempre lisonjeiro para o amor próprio de qualquer o estar ao facto da vida íntima dum homem célebre.
Mas, chegado o último prazo e metendo a mão na consciência, vi que podia escrever o folhetim. Ainda me doía um tanto a cabeça, tinha ainda na boca o travo de várias hóstias e pastilhas, ainda me esperava sorrateira uma tijela de caldo muito fraquinho. No entanto, só por uma pieguice ridícula e um imoderado desejo de me tornar interessante e alvoroçar as populações, é que eu seguiria o conselho da minha preguiça e deixaria a minha prosa cristalina dormir no fundo do meu tinteiro, também de cristal.
Deliberei, pois, escrever. Abri a minha gaveta dos assuntos e pus-me a escolher um que conviesse. Vários se me apresentavam e, em torno de cada um deles, eu ia fantasiando os adornos de chiste com que os havia de vestir.
…E nisto a dor de cabeça voltou mais forte! Sabia-me cada vez pior o cigarro, esse meu tão querido colaborador.
Em volta dos meus olhos, que se fechavam pouco a pouco, bailavam os móveis do meu gabinete de trabalho. O papel branco, que tinha diante de mim e esperava de braços abertos a minha espirituosa crónica, dava-me vertigens.
Foi então que reconheci que seria mal empregado gastar hoje um dos meus bons assuntos e deliberei ir deitar-me. Pousei a caneta, arredei o papel, desviei a manta que tinha posto sobre os joelhos, aconcheguei o abafo que deitara sobre os ombros e, pensando comigo que não é crime deixar um dia de fazer a obrigação, dirigi-me ao meu quarto, mirei com um sorriso a cama onde avultava sob a roupa o aquecedor eléctrico, despojei-me dos trajes inúteis, enfiei-me entra os lençóis quentinhos e, depois de apagar a lâmpada, tratei de gozar o melhor possível o prazer de estar muito quieto com dores de cabeça e um bocado de febre.
11 de Fevereiro de 1923

