JOÃO MEDINA E A ORELHA DE VAN GOGH por Clara Castilho

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Continuemos com a segunda parte do livro “Saudades da Provença” e “A Orelha de Van Gogh”, de autoria de João Medina, das Edições Colibri, e de 2013.orelha de van gogh

“A cena passa-se num quarto de pensão, em Arles, no entardecer do dia 24 de Dezembro de 1888.

Personagens:Van Gogh e a sua Orelha Esquerda.

Van Gogh está diante dum espelho, com uma navalha de barba na mão direita. Apalpa a cara, depois a Orelha Esquerda.

 V.G.: Bom, vamos a isso. (Segura com cuidado a Orelha Esquerda).

 Orelha Esquerda: O que vais fazer…?

 V.G.: Cortar-te.

 O.: Cortar-me?! ‘Tás doido ou quê?

 V.G.: Estou. Há muito. Cheguei mesmo à,perfeicão nesse domínio. Não é doido quem quer, mas só quem pode. E nem todos podem ser doidos. Acaso já ouviste falar de algum merceeiro doido? (Pausa). Agora, sim, que o outro se foi embora, agora posso agir à vontade. Só se age bem quando se está só. E eu estou só e calmo… Consigo olhar no espelho a minha própria cara como quem vê uma laranja na montra duma frutaria. Imparcialmente. Distan­ciado. Com o espírito crítico intacto, gozando de todas as minhas faculdades. E vou cortar-te como quem descasca uma laranja…(p.54)

 O.: Alto lá, Vincent! Que é isso?! Olha bem o que vais fazer!…

[…] O. (aflita): E que vais fazer de mim quando me tiveres cor­tado?

 V.G.: Ainda não pensei nisso. Primeiro agir, depois pensar.

  [….]Orelha danada, vou dar cabo de ti!… Sim, vou arrancar-te, não por­que te deteste, não para te castigar …. mas porque há em toda a punição uma auto­punição e é castigando-te que eu procuro afinal castigar-me, para que uma parte de mim se exile já do todo que eu mesmo sou, para que a desagregação comece aqui, neste cabo de mim próprio, exactamente aqui, ao lado dos meus olhos, na orelha esquerda, para que eu saia de mim nem que seja por um acto absurdo, para que um gesto extático me ultrapasse a partir de dentro. Sacrifico-te, pois! (p.57).

[…]Eu, em suma. Eu sempre dentro de mim, prisioneiro de duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte futura, caminhando isolado entre duas fendas do universo, a vulva que me expulsou e o túmulo que me há-de engolir de novo, eu a fazer grafitti em telas, eu a produzir objectos que, mal acabados, fogem logo a sete pés de mim como se tivessem medo ou horror de quem os criou, euincapaz de ser as coisas que criei, sempre aquém do gesto que as executa.(p.58)

[…]De que serviu tudo isto? Mesmo sem orelha esquerda, continuo a ser meu prisioneiro…(p.60)

[…]Isto é, mutilo-me, deixo à posteridade esta orelha esquerda decepada como penhor de insubmissão absoluta — e a posteridade que me compreenda ou não, isso é lá com ela. Estou em rebelião, quero evadir-me da minha própria prisão e, como o não consigo, dou com a cabeça nas paredes, aleijo-me de propósito. (p.62)

[…]Começa aqui a anedota, findou a tragédia. Venham os críticos, os psiquiatras, os historiadores da Arte, os embalsamadores da vida. Tomem a minha orelha, taxidermistas do porvir! Empalhem-na: e descubram como quiserem o sentido desse gesto demente. Não tenho mais nada a alegar em minha defesa. O único que podia compreender-me partiu hoje para Paris. Fiat voluntas mea. Assim seja. Amen”. (p.62)

Texto publicado na Revista Colóquio-Letras, nº 32, Julho de 1975,  pp. 40-47, ilustradocom desenhos de Van Gogh. Foi adaptado como teatro radiofónico, no programa Tempo de Teatro, na RDP, por Filipe La Féria, em 1985, com interpretações de Mário Viegas (V.G.) e Maria do Céu Guerra (Orelha).  Revisto em Setembro de 2012.

 

 

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