CONTOS & CRÓNIICAS – Nazim Hikmet – um poeta no coração do seu povo – por Carlos Loures

Imagem1Nazim Hikmet Ran nasceu em Salónica no dia 20 de Novembro de 1901 e morreu em 3 de Junho de 1963. Foi o mais importante poeta turco do século XX; turco, pois Salónica, hoje cidade grega, estava na altura integrada no Império Otomano. Hikmet foi membro do TKP (Partido Comunista da Turquia), sendo desde muito jovem perseguido pela polícia do sultão. Entre 1922 e 1925, esteve exilado na União Soviética, completando os seus estudos em Moscovo. O advento da Revolução turca de Mustafa Kemal Atatürk, em 1923, não melhorou a sua situação, mantendo-lhe a condição de proscrito. Só em 5 de Janeiro de 2009, quase 46 anos após a sua morte, o governo de Ancara aboliu por decreto a decisão que em 1951 retirou a nacionalidade turca ao grande poeta. E, no entanto, se havia escritor que vivesse no coração dos turcos era Nazim Hikmet. Vejamos até que ponto.

Em 1943, em plena Guerra Mundial, um jovem universitário turco, envolvido num trabalho de campo de Antropologia,  chegou a uma aldeia isolada numa região montanhosa e dispôs-se a recolher canções tradicionais. Os aldeãos falaram num grande poeta, cujos versos «enterneciam as mais altas montanhas e os mais duros rochedos».  Uma rapariga disse saber de cor as «belas canções desse poeta. E a jovem começou a recitar versos que o investigador se apressou a anotar no bloco de apontamentos. Ao cabo de momentos, foi tomado de surpresa – os poemas que a camponesa sabia de cor, eram versos de Nazim Hikmet. – Quem foi o poeta que compôs estas canções? – perguntou aos aldeãos. – «Foi um grande poeta» – responderam -«Os seus versos são mil vezes por nós repetidos. Os nossos pais e os nossos avós já os cantavam também. Vieram-nos dos nossos antepassados. Como podemos saber quem os escreveu?»

Como podia ser? Sem jornais, sem rádio, a aldeia a que o jovem investigador acabava de chegar, era um aglomerado de quarenta casebres, com tectos de terra batida. Os aldeãos viviam em condições de extrema pobreza. A povoação mais próxima ficava a 14 horas de marcha, por acessos difíceis, estreitos carreiros talhados no flanco das rochas. Como era possível que os poemas de Nazim Hikmet, escritos poucos anos antes, tivessem podido chegar até àquela longínqua aldeia da Turquia asiática e enraizar-se no coração dos seus habitantes, misturando-se com as odes dos bardos tradicionais da Turquia – o legendário Korkout e o sublime Younous? Um dos poemas recitados pela jovem aldeã tinha sido escrito poucos anos antes numa cela da prisão de Brousse. Como era possível Hikmet misturar a sua voz com as obras dos velhos cancioneiros populares?

O investigador voltou à aldeia para tentar decifrar o enigma. Obteve sempre a mesma resposta: «- É um grande poeta, um grande homem. Recebemos os seus versos dos nossos pais, que os receberam dos seus pais…» Nunca conseguiu descobrir como os poemas de Hikmet viajaram até àquela aldeia e se incrustaram entre a poesia ancestral. Acrescente-se que a modernização da língua turca muito deve a Hikmet. Os grandes mestres estavam mergulhados num total esquecimento. Ninguém descobrira que o turco podia ser uma linguagem poética, literária no bom sentido e, ao mesmo tempo, terna e vigorosa. Foi Hikmet que lhe conferiu essa característica ao abandonar cânones empolados, só entendidos por eruditos, e ao adoptar a linguagem do povo, vinculada à sua realidade quotidiana, ao trabalho, à rudeza da vida.

O poeta em particular, e o escritor em geral, têm de estar no cerne da vida. Hikmet compreendeu isso e rapidamente ganhou um lugar no coração do seu povo, lugar mais importante do que mil cadeiras de academias. Como um subtil, mas impetuoso, lençol subterrâneo de água, impregnou a alma do povo turco. Esta a única explicação para o antropólogo, ajudando-o a compreender como analfabeta na sua maioria, recitava poemas que estavam proibidos. Por aqueles anos 40, a posse de um texto de Hikmet dava direito a uma pena de cinco a dez anos de prisão, a sevícias e a tortura.

Não o que se passou em Portugal com as canções de José Afonso? Muitas pessoas sem cultura ou consciência política cantavam as suas canções e recitavam os seus versos. Por exemplo, a sua canção sobre Catarina Eufémia valeu por milhões de panfletos e jornais clandestinos. Quantas mulheres, entre os 30 e os 40 anos, se chamam hoje Catarina? Homenagem, em muitos casos inconsciente, de seus pais ou padrinhos à ceifeira assassinada no Baleizão.Nem a repressão policial, nem os elitistas preconceitos intelectuais, conseguem fechar o coração de um povo à poesia, à música, à arte com que a sua alma se identificar. Muito daquilo do que hoje se celebra como grande literatura, morrerá logo que se extingam os temporais conceitos que servem de pedestal a essa suposta grandeza.

Só sobreviverá o que for genuíno e intemporal.

Leave a Reply