LIMA DE FREITAS OU A SURREALIDADE DO GRAAL (1) – por António de Macedo

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Este artigo de António de Macedo que vamos transcrever em segmentos diários, foi publicado na revista A IDEIA 71/72 de Novembro de 2013

DEAMBULANDO AMENAMENTE POR TEMPOS IDOS

Conheci o surrealismo português de uma maneira pouco convencional, para não dizer heterodoxa, numa idade em que as descobertas me vinham por ínvias vias que provavelmente consternariam buscadores sisudos como devem ser os que o mundo bem comportado espera que sejam os que nele se aventuram.

E não só o surrealismo: o mesmo me havia sucedido com Fernando Pessoa, que descobri nos anos ’40 do século XX quando eu era ainda estudante liceal. Com os parcos tostões que me era permitido aforrar na flácida algibeira desses anos juvenis comprava em lfarrabistas, em segundíssima mão, os livros que podia da famosa “Collecção Theosophica e Esoterica”, da Livraria Clássica Editora, cujos dois primeiros, publicados em 1915, se intitulavam Compendio de Theosophia e Os Ideaes da Theosophia, escritos, respectivamente, por C. W. Leadbeater e por Annie Besant, conhecidos discípulos de H. P. Blavatsky.1 O tradutor de ambos foi Fernando Pessoa, tal como foi tradutor de vários outros da mesma colecção que eu comprei com muito entusiasmo e não pouco sacrifício, devendo-se este, como disse, à pecuniária escassez da minha condição estudantil (ainda hoje os conservo!). Tal foi o meu primeiro encontro — heterodoxo? — com Fernando Pessoa: através dos mesmos livros ocultistas que ele lera e traduzira. Só muito mais tarde, já na idade da razão, o conheci e reconheci como especialíssimo criador que era.

Pois com o surrealismo português me aconteceu coisa idêntica, ou quase: foi através das capas da lendária Colecção Vampiro, onde se publicaram nomes veneráveis das letras policiárias como Agatha Christie, Ellery Queen, Erle Stanley Gardner, S. S. Van Dine, Dorothy L. Sayers, Raymond Chandler, e tantos outros, que conheci um dos expoentes do surrealismo português, o artista plástico Cândido Costa Pinto (1911-1976).

Tinha eu os meus 15 para 16 anos, frequentava o Liceu de Camões e costumava regressar a casa, depois das aulas, na companhia de um colega que moravaImagem1 para as mesmas bandas, sendo que nesse percurso tínhamos de passar por uma pequena papelaria no Campo de Sant’Ana (parece que hoje se chama dos Mártires da Pátria), onde se vendiam livros de bolso de colecções populares. Recordo-me que logo nos chamou a atenção, a mim e ao meu colega, o primeiro livro duma colecção nova que acabara de sair, livro esse intitulado Poirot Desvenda o Passado e era seu autor uma figura de quem já se falava, Agatha Christie. Isto foi em 1947, e a capa, sobretudo, espevitou-nos logo o interesse: revendo-a à distância, não há dúvida que fazia lembrar Salvador Dali, mas eu nesse tempo nem sequer sabia quem era Dali, o entusiasmo que essa e as seguintes capas de Costa Pinto nos suscitaram procedia sobretudo do “enigma” que propunham, com astuciosas entremisturas de icónicas polimorfias — por exemplo, um relógio com pestanas, uma mulher com sombra de homem, um rosto de homem com dois peixes oblíquos no lugar dos olhos, um cavalete de pintor cuja sombra era uma cruz de cemitério… Lembro-me que eu e esse meu colega, ao comprarmos cada livro, e antes de o lermos (saía um por mês), nos empenhávamos em tentar descobrir o “criminoso”, decifrando as pistas propinadas pelos surrealísticos glifos das capas!

Estava eu, então, longe de saber que nesse mesmo ano de 1947 se organizava por cá o Grupo Surrealista de Lisboa, cuja inspiração o mesmo Cândido Costa Pinto fora beber a Paris, em sugestiva conversa com André Breton — donde resultou agregarem-se nomes como Vespeira, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Alexandre O’Neill, incluindo, escusado será dizê-lo, o decano António Pedro.

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1 A partir de 1925, em que a editora passou a seguir a reforma ortográfica de 1911, o nome da colecção tornou-se mais esquelético, não obstante a adição do acento no ó e no é: Colecção Teosófica e Esotérica.

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