VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 8-  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

Na Lisboa setecentista destacaram-se mais dois cafés que passariam á História. O Botequim do Casaca, ou Casa do Casaca, na Rua dos Capelistas, com criado a dar nas vistas trajando esmerada casaca pano português de acordo com o mais requintado gosto da época.

Se existiu tal qual se diz, o destino da Casa do Casaca haveria passar pelo exílio de Pombal e por aqui ou pouco mais se terá finado esta legenda histórica dos cafés lisboetas.

Melhor sorte tem conseguido o ainda vivo botequim da Arcada do Terreiro do Paço, primeiramente conhecido como Casa da Neve (gelado) em 1782 e logo como Casa de Café Italiana em 1784, passando por várias designações até atingir o nome que hoje ainda ostenta: Martinho da Arcada. Começa aqui aquilo que continua a ser nos dias que correm a fabulosa história dos cafés antigos de Lisboa.

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Desde o século XVII os cafés marcaram, em Portugal, a vida política, religiosa e cultural do país. Tertúlias e mais tertúlias, conferências e mais conferências. De Fernando Pessoa a Augusto Ferreira Gomes, de Almada Negreiros a António Botto, de Raul Leal ao imortal poeta Bocage, todos passaram pelos cafés de Lisboa. A coisa tomou tais proporções que alguém uma vez disse que «a vida nacional gira em volta de uma chávena de café». O Nicola, o Martinho da Arcada, a Brasileira do Rossio, o Casaca, o Suísso, a Havaneza, o café Martinho, a Brasileira do Chiado, e a lista que nunca mais acaba. Todos eles têm a sua história. Cada um deles tem as suas figuras de eleição.

O Nicola sempre associámos a Bocage; da Brasileira, desde a morte de Natália Correia, ficámos a saber que foi palco de inúmeras reuniões e de algumas «sessões culturais» – que nos tempos de Salazar outros objetivos não tinham que promover o fim do regime – com António Soares, Teixeira de Pascoaes, Ferreira Gomes e Matos Sequeira; do Chiado ficámos a saber que era o lugar de eleição de Almeida Garrett; pelo Martinho da Arcada passaram nomes como Eça de Queiroz, Cesário Verde e Alexandre Herculano. Através da história de Lisboa ficamos também a saber que segundo Júlio César Machado, «o charuto que é louro, pálido, airoso, redondinho e que estava seco quando se cortava a ponta comprava-se na Havanesa». Enfim, histórias que nunca mais acabam, sobre os cafés de Lisboa e tudo o que implicava estar de volta de uma chávena com meia dúzia de amigos e cúmplices. Os cafés, assim como muitas coisas, foram uma importação de Paris. Na capital francesa existiam, antes do século XVII, inúmeros botequins que eram locais de tertúlia. Em Portugal, como de resto em toda a Europa, foram os italianos os responsáveis pelo hábito de beber café. No princípio, antes do terramoto de 1755, os cafés situavam-se em zonas degradadas de Lisboa, eram locais frios, sombrios, com mesas e bancos nada agradáveis e que se destinavam essencialmente a vagabundos e a gente menos abastada. No entanto, nessa altura, existia uma exceção: o Café do Rosa. Situado na Rua Nova d’EI-Rei, o nome do estabelecimento era devido ao seu dono, o Sr. Rosa. Era este o único que gozava de melhor fama, cuja clientela era composta, basicamente, por negociantes estrangeiros, que garantiam no Café Rosa, a satisfação de hábitos adquiridos nas suas terras natais.

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