A IDEIA: LIMA DE FREITAS OU A SURREALIDADE DO GRAAL (2) – por António de Macedo

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SURREALIDADES, SUPRA-REALIDADES, TRANS-REALIDADES…

Um vasto terreno, este das surrealidades, e como sobre algumas delas já teci uns comentários noutro lugar2, limitar-me-ei aqui a um breve ponto da situação —Imagem1 preambular das surrealidades de Lima de Freitas (1927-1998)3 que, em matéria de capas policiárias e outras, se seguiram às cento e doze que Cândido Costa Pinto debuxou para a Colecção Vampiro. Aliás, e já que falamos em capas, onde LF mais presença marcou foi numa outra colecção que surgiu mais tarde, a não menos lendária Colecção Argonauta, cujo primeiro livro saiu em 1953 (tinha eu 22 anos e já cursava Arquitectura), uma colecção de ficções científicas e fantásticas que se quadravam bem com as imaginárias surrealidades — ou supra-realidades! — em que LF se excedeu, brilhou e finalmente se tornou apóstolo (no sentido etimológico de “enviado” ou “embaixador”) e mestre. As capas de LF para esta última colecção foram tantas que lhes perdi a conta.

Retrocedendo um pouco para rememorar o já sabido mas por vezes deslembrado, e deixando de lado as retrusas polémicas entre Mário Cesariny e José-Augusto França, sobre se o surrealismo é um “vanguardismo” trans-histórico, ou an-histórico e eterno (Cesariny, e também Natália Correia) ou um “modernismo” delimitado historicamente (França, na trilha de António Ferro), debruçar-me-ei de preferência sobre as supra-realidades ou trans-realidades que LF penetrou com a sua tão fina quão complexa visão, perceptível ao longo do desfrondar das etapas da sua obra.

Essas supra- ou trans-realidades ganham visibilidade se as entendermos a brotar da irrealidade tal como a luz nasce das trevas — ex tenebris lux, para usar o aforismo maçónico inspirado livremente no primeiro versículo do Génesis. Virá a propósito relembrar uma frase que o filósofo Eduardo Lourenço proferiu no entremeio de um discurso seu: …A nossa sede de realidade não tem fim. Só a mais vertiginosa imersão na irrealidade a pode satisfazer. Sonhar o que não existe e tanto nos falta, dar ao inacessível ou invisível um rosto familiar é a vocação própria dos poetas. Quer dizer, dos criadores.4 A “imersão na irrealidade” que, só ela, pode satisfazer a “sede de realidade”, prende-se obviamente com o estar e o ser português que LF tão regiamente teologizou na sua panóplia de Mitolusismos. A “mais vertiginosa imersão na irrealidade” que por sua vez dá  “ao inacessível ou invisível um rosto familiar” é uma busca sagrada de um Santo Graal cuja trans-realidade se esteia na correnteza de buscas mais terráqueas de uma “surrealidade” ansiosa por explorar as subtis irrealidades de uma realidade que só o surrealismo — imaginava-se — poderia intuir.

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2 – António de Macedo, Textos Neo-Gnósticos: Os Códigos Mistéricos da Quinta Idade. Corroios: Zéfiro Edições, 2006; págs. 123 e segs.

3 Doravante, e para tornar o texto menos adiposo, designarei Lima de Freitas pela sigla LF.

4 Discurso proferido em Lagos em 10 de Junho de 1996, Dia de Portugal e das Comunidades, quando Eduardo Lourenço recebeu das mãos do Presidente da República, Jorge Sampaio, o Prémio Camões.

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