VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 9 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

Estamos em 1755. Neste ano ocorreu em Lisboa o maior terramoto de sempre. Mas, como depois das tormentas vem a bonança, o terramoto deu lugar à reconstrução, e com ela vieram os primeiros cafés tal como os conhecemos nos nossos dias: espaços amplos e bem sinalizados. E que uma disposição pombalina obrigava a que todos os estabelecimentos tivessem uma tabuleta indicando o ramo a que se destinavam. «Café Restaurante Martinho da Arcada» ou «Casa especial de café do Brasil», eram os letreiros que se podiam ver sobre as portas dos estabelecimentos comerciais dessa altura e dos tempos que lhe sucederam.

café - XIII

É dado certo que por esta altura de finais do século XVIII a moda do café não fazia grande concorrência ao consumo do chá implantado entre nós pelos hábitos ingleses. Este continuava a ser regra nos nossos salões, ao invés do que se verificava noutras capitais da Europa. Mas, seja como for, passava já pelas mesas dos cafés de Lisboa muito do que era vida nacional e que inevitavelmente viria a ser também História de Portugal.

A Revolução Francesa transformara os cafés em locais de função social que excedia tudo o que podia ser imaginado. Um pouco por todo o lado estes estabelecimentos funcionavam como veículos de livre opinião ao serviço dos mais variados credos políticos e, particularmente, dos que mais tinham haver com as ideias e as correntes do pensamento democrático. “O café tornou-se, vai para duzentos anos, o salão das democracias, o centro de informação política, o posto de observação daqueles que não dispõem – ou não dispunham – de outras antenas para captação do boato, nem de outra tribuna para exposição dos seus pontos vista, nem, ainda, de outro meio de contacto com os problemas, os acontecimentos e os homens.” Dirá Júlio Dantas em Lisboa dos Nossos Avós. O café era utilizado como “pulmão da opinião politica”, segundo expressão do mesmo autor. Dai, as perseguições de que viria a ser alvo por parte dos poderes constituídos, que viam estes estabelecimentos com muitos maus olhos e os consideravam perigosos focos de inquietação pública e de propaganda revolucionária. E se em Portugal a vida de café tardou a conquistar lugar nos hábitos da população e nunca chegou ser nada que se comparasse com o que acontecia em França, Itália, Espanha, o certo é que teve história, tem história e ficará na história desta cidade.

Com o aproximar das ideias liberais o café tornava- se numa autêntica instituição nacional com os portugueses reivindicando o direito de pensar, que alguns confundiam com perturbar.

Sobretudo em Lisboa, o café permitia uma relação humana que assustava os poderes vigentes que desde logo mantiveram estas casas sobre as malhas da mais apertada vigilância policial.

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