Num volume sumptuoso que LF organizou pouco antes de morrer, intitulado Lima de Freitas: 50 Anos de Pintura, o artista reúne todas as suas pinturas num álbum de belíssimas reproduções ao longo das várias fases em que através da sua arte visual interrogou a anima mundi. A abrir o livro, em jeito de prefácio, o historiador de arte Fernando António Baptista Pereira em poucas linhas sintetiza esse percurso: Assim se foi incluindo a sua obra no neo-realismo dos anos quarenta e cinquenta, posteriormente no surrealismo de matriz expressionista […] e finalmente — e com o beneplácito do próprio autor — no “realismo fantástico” (designação mais literária do que plástica). (1)
Após a primeira fase neo-realista da obra de LF que o próprio autor se abstém de classificar, com o seu cortejo cruel dos trabalhos urbanos, rurais e marítimos, dos gritos de sofrimento, das paisagens, das varinas, dos estivadores, dos concertos campestres que nos fazem lembrar os painéis da Gare Marítima de Alcântara de Almada-Negreiros, surge uma segunda fase a que LF, com a sabedoria hermética que lhe adveio dos lumes do seu percurso, chama nigredo, fase em que, fugindo à sedução do abstractismo, se engolfa no grotesco, na crueldade, na selvajaria humana, nos demónios e no horror — e onde os críticos convencionais não vêem mais do que influxos de Brueghel e de Bosch. À fase seguinte, depurada das escórias da prima materia ainda plumbeamente perturbada, chama LF albedo ou os Jardins Edénicos, onde os labirintos do trans-tempo e do trans-espaço, das frondosidades florestais perdidas em mágicos entrelaçados, ou das nocturnidades de luminosas galáxias, dão origem a obras como Adão e Eva ou a Árvore do Paraíso, Anunciação, O tocador de flauta, O anjo e o poço, O amante de fogo, A árvore em fogo, Cabeça de mulher contendo paisagem… Se se há-de vislumbrar aqui surrealismo, será por certo um surrealismo de enigmas cujas soluções, mal se desvendam, já constituem novos enigmas em busca de novas soluções.
André Coyné, esposa de Luís Teixeira da Mota, Lima de Freitas e Cruzeiro Seixas
Com a humildade e o recato característicos d’Os Que Sabem, às últimas fases LF coibiu-se de lhes chamar rubedo, que é o Coroamento da Obra — preferiu alinhá-lhas por secções: Mitolusismos, Profetas, Anjos e Demónios, Paisagens Visionárias… Uma Alquimia aberta em perene recomeço, talvez homenagem ao neopitagórico Almada- Negreiros que LF admirava, e cuja derradeira obra, o emblemático painel da Fundação Calouste Gulbenkian, tem por significativo título: Começar. Ou seja, a Obra — opus magnum — nunca acaba, é um perene início, no sentido pleno de princípio [archê] e de portal iniciático, com seu irresistível convite à Iniciação nos Mistérios.
Designar todo este universo por realismo fantástico, não obstante o “beneplácito” de LF, pode parecer enganadoramente redutor a quem não esteja atento ao especial visionarismo da última fase do artista, que encontra nesta escola — pelo menos em parte — uma via de potencialidades para reconfigurar a formulação hermética do mistério que ele sondava.
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Nota:
(1) – Fernando António Baptista Pereira, “Os Tempos do Pintor”, introd. apud
Lima de Freitas:
50 Anos de Pintura
(op. cit.); pág. 10.


