AVÓS A CUIDAREM DOS NETOS É BOM OU MAU ? por clara castilho

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Somo um dos países em que os avós cuidam mais dos netos. É uma notícia? Ou resulta de factos que não nos fazem orgulhar?

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Fui buscar estes dados ao estudo A prestação de cuidados pelos avós na Europa, que compara 15 países, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. O estudo foi baseado no SHARE (Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe – inquérito sobre saúde, envelhecimento e reforma na Europa), do ELSA (the English Longitudinal Study of Ageing – inquérito sobre o envelhecimento da população na Inglaterra), de censos e outras fontes de informação. Estes dados são acrescentados a dados mapeados referentes às políticas para pais e avós em matéria de licenças e trabalho flexível, do apoio prestado às famílias pelo Estado na forma de acolhimento de crianças e de prestações familiares, às políticas em matéria de reformas e de cuidados prestados a adultos e às culturas e estruturas ao nível do mercado de trabalho, do acolhimento de crianças e familiares.

Em geral, mais de 40% dos avós prestam cuidados aos netos sem a presença dos pais, sendo que os países do sul da Europa — Portugal, Espanha, Itália mas também a Roménia — são os que têm mais avós a cuidar de netos a tempo inteiro.

E porquê? Concluem os autores que é porque “as prestações sociais pagas aos pais e às mães que ficam em casa são limitadas” e “há pouca oferta de estruturas formais de acolhimento de crianças e poucas oportunidades das mães trabalharem a tempo parcial”, assim pelo facto de sermos o país com o maior número de mães com filhos até aos seis anos a trabalhar a tempo inteiro. Voilá!

Portugal tem assistido a um aumento dos agregados familiares de avós com três gerações, numa associação à pobreza e falta de recursos sócio-económicos em todos os países estudados.

Os adultos que vivem em agregados familiares com avós apresentam maiores probabilidades de serem mulheres, divorciadas, viúvas ou separadas, com níveis de instrução mais baixos e economicamente inactivas, o que é particularmente notório nos que vivem em agregados familiares de avós sem continuidade geracional.

Em todos os países, a nossa análise revela que os avós que prestam cuidados infantis tendem a ser mais jovens, mais saudáveis, casados e a terem níveis de escolaridade mais elevados, bem como a classificarem-se como reformados. Estas são as mesmas mulheres que muitos governos em toda a Europa estão a tentar manter mais tempo no mercado de trabalho para desenvolver as economias nacionais em resposta ao envelhecimento da população, com menos trabalhadores mais jovens a entrar no mercado de trabalho e o aumento da esperança de vida.

Este conflito entre o papel das avós na prestação de cuidados infantis e o aumento da participação em profissões remuneradas, tanto para proteger os seus próprios rendimentos de pensões como para aumentar a produtividade, têm implicações importantes ao nível dos futuros empregos remunerados das mães de crianças pequenas, bem como da sua própria segurança financeira numa fase posterior da vida.

À medida que as nossas populações envelhecem, é provável que o papel dos avós na vida familiar se torne ainda mais significativo. Actualmente, já 17% dos avós em toda a Europa estão na geração “sanduíche”, com os seus próprios pais ainda vivos. À medida que a esperança de vida aumentar ainda mais, esta percentagem tenderá a aumentar. Os programas de austeridade que têm conduzido aos cortes na prestação de cuidados tanto para os idosos como para as crianças arriscam colocar ainda mais pressão sobre estes avós mais jovens. Os legisladores têm de ter em consideração as implicações ao nível da futura segurança financeira destas gerações de meia-idade, bem como as implicações das políticas laborais, de prestação de cuidados e de reformas referentes às pessoas de meia idade sobre os pais mais jovens com empregos remunerados.

 

 

 

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