BLAISE CENDRARS
( 1887 – 1961 )
CONTRASTES (fragmento)
As janelas da minha poesia estão escancaradas para os boulevards e
para as vitrines
Brilham
As pérolas da luz
Escuta os violinos dos automóveis e os xilofones dos linotipos
O pintor lava-se na toalha do céu
Tudo são manchas de cor
E os chapéus das mulheres que passam são cometas no incêndio
da tarde
A unidade
Já não há unidade
Todos os relógios marcam agora 24 horas depois de serem atrasados
dez minutos
Já não há tempo.
Já não há dinheiro.
Na Câmara
Estragam-se os maravilhosos elementos da matéria-prima
… … … … … … … … … … … … … … … … … … …
Chovem globos eléctricos
Montrouge Gare de l’Est Metropolitano Norte-Sul bateaux-mouche
mundo
Tudo é confuso
Profundidade
Na rua de Buci apregoam L’Intransigeant e Paris-Sports
O aeródromo do céu é agora, incendiado, um quadro de
Cimabue
Quando em frente
Os homens são
Altos
Negros
Tristes
E deitam fumo, chaminés de fábrica
(Outubro 1913)
(de “Dix-neuf poèmes élastiques”, versão de Manuel Simões)
Pseudónimo de Frédéric Louis Sauser. Poeta nascido na Suíça mas naturalizado francês. Foi um dos promotores da poesia moderna, sobre a qual fez conferências no Brasil convidado por Oswald de Andrade (1924 e 1926). Da sua obra poética: “Les Pâques à New York” (1912), “La guerre du Luxembourg” (1916), “Du Monde Entier” (1919), “Poèmes Nègres” (1922), “Documentaires” (1924).

