A IDEIA – O PONTO DE BAUHÜTTE E O MISTÉRIO DO SEXTO ESTIGMA – 1 – por António de Macedo

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Antes de nos aventurarmos mais longe, seja-me permitido insistir no curioso protagonismo do icosaedro nesta arte iniciática, e, consequentemente, do seu poliedro dual (1), o dodecaedro, de doze faces pentagonais sumarizando a dodecametria zodiacal e apostólica e a pentametria, não só do pentágono, mas sobretudo da estrela pentagramática símbolo da Iniciação. Nesta, se o pentagrama for perfeito, vemos o símbolo tradicional do conhecimento e da quinta-essência, não só aristotélica mas sobretudo hermética, na boa tradição da occulta philosophia compendiada por Agrippa.

Aqui a Geometria e a Mística encontram-se e cruzam-se. Recorrendo ao conhecido pentagrama de Agrippa inspirado no “Homem vitruviano” de Leonardo da Vinci, com o Homem-Microcosmo de braços abertos e pernas afastadas, formando uma estrela de cinco pontas inscrita num círculo, obtemos a imagem do iniciado crístico, desperto pelo sacrifício do Gólgota — ou seja, pelo Fogo Espiritual Regenerador. Este Fogo inunda de vida pulsante a estrela estigmática de cinco pontas, constituída pelos estigmas na cabeça (coroa de espinhos), nas palmas das mãos e nos peitos dos pés (cravos), cinco pontos cruciais que se localizam nos cinco vértices da estrela e correspondem aos pontos onde é mais forte a união entre o corpo físico e o “corpo etérico” do ser humano.(2) Com a abertura e vitalização destes pontos, pelo Fogo iniciático do sacrifício da Paixão, todo o corpo se torna fulgurante como um ouro glorioso.

Na tapeçaria intitulada “O Número”, que Almada-Negreiros realizou em 1958 para o antigo Tribunal de Contas, no Terreiro do Paço, o motivo central é uma figura de homem de braços e pernas abertos, inscrito num quadrado que por sua vez se inscreve num círculo, à semelhança do pentagrama de Agrippa. À esquerda, alinham-se verticalmente cinco dos motivos explorados por Almada, entre os quais o traçado geométrico com que procurou determinar — durante quase trinta anos, sem o conseguir! — o misterioso Ponto de Bauhütte, tarefa ingente a que se dedicou também LF, dando continuidade à exaustiva demanda do mestre e ao que parece com êxito, com a ajuda de um outro mistério, o da Vesica Piscis, e do númen inspirador do próprio Almada, segundo LF nos conta: Tendo tido o privilégio de o conhecer pessoalmente [a Almada-Negreiros] no final da sua vida, e tendo recebido dele, se não a revelação das suas descobertas, pelo menos um pouco da chama que ardia nos seus olhos à evocação dos mistérios do Número, após a sua morte fui visitado em sonho pela sua presença, e em sonho fui investido com o dever de dar a conhecer a sua busca e de prossegui-la, o que silenciosamente aceitei.(3)

Dentro das minhas modestas possibilidades, e como também tive o privilégio de conhecer pessoalmente Almada-Negreiros nos dois útimos anos da sua vida e de muito o ter interrogado, atrever-me-ei a propor uma pedra-de-fecho místico-iniciática para o Ponto de Bauhütte, pedra-de-fecho intencionada geometricamente por Almada e decifrada geométrica e surrealisticamente por LF. Tende pois, prezados leitores, a complacência e a bondade de me acompanhar por mais algumas linhas antes de concluir este texto, que já vai longo, e desde já me confio ao vosso criterioso julgamento na síntese que ouso submeter-vos.

Olhai com atenção para a tapeçaria d’ “O Número”, e aí vereis que o desenho geométrico alusivo a Bauhütte, à esquerda, se posiciona, em relação à figura humana do centro, um pouco abaixo e no mesmo lugar em que estaria o soldado Longinus (4), que, com a sua lança, perfurou, com um golpe oblíquo de baixo para cima, o fígado de Jesus crucificado, se imaginarmos que este se sobrepõe à figura central. Temos assim que o golpe de lança é um sexto estigma, que cai fora dos cinco tradicionais da estrela estigmática de cinco pontas.

Que mistério se dissimula por trás deste novo estigma, não sei se lhe chame ex-cêntrico?

18 Lima de Freitas, 515: O Lugar do Espelho — Arte e Numerologia [515: Le Lieu du Miroir— Art et Numérologie, 1993], trad. port. do Autor. Lisboa: Hugin Editores, 2003; págs. 353-354.

19 O “poliedro dual” de um poliedro é o poliedro que se obtém unindo por segmentos de recta os centros das faces consecutivas do primeiro.

20 Max Heindel, Ancient and Modern Initiation (op. cit.); pág. 118.

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