MUNDO CÃO – MH17: a provocação que pode incendiar a Europa – por José Goulão

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Este artigo foi transcrito da edição de 20-07 de 2014 de Jornalistas sem Fronteiras. Ao autor e ao editor, oaa nossos melhores agradecimentos.

Na quinta-feira, dez minutos depois da tragédia do voo MH17 da Malaysian Arlines sobre o território da Ucrânia, a cerca de 30 quilómetros da fronteira com a Rússia, as autoridades militares de Kiev informaram a torre de controlo de que o avião tinha sido abatido. Enquanto isso, Anton Gerashchenko, ministro ucraniano do Interior e dirigente neofascista, revelou que a arma utilizada foi um míssil disparado por um lançador Buk. A pergunta é: como estava o aparelho fascista de segurança do regime de Kiev tão bem informado em cima do acontecimento?

Barack Obama, Hillary Clinton, John Kerry, o primeiro ministro australiano, a propaganda mediática global e quantos se apressaram a declarar que o crime, a existir, deveria ser atribuído aos “pró-russos” ucranianos, e logo à Rússia, saberiam disto? Talvez sim, talvez não – nunca virá a saber-se, tal como, provavelmente, nunca virão a esclarecer-se plenamente os factos daquele dia 17 de Julho em que 298 vidas humanas foram sacrificadas numa matança cujos objectivos – esses sim – se denunciarão a si mesmos na esteira da catástrofe.

Os principais dirigentes mundiais, no seguimento de um entendimento estabelecido telefonicamente entre o presidente russo, Vladimir Putin, e a chanceler alemã, Angela Merkel, parecem estar dispostos a dar espaço a uma investigação independente sobre a tragédia a realizar pela Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO), uma agência do aparelho das Nações Unidas.

No entanto, o mais provável é que os peritos da agência comecem o seu trabalho num cenário de catástrofe já manipulado, conforme se percebe através dos episódios associados à recolha de caixas negras do aparelho feita pela polícia política fascista de Kiev . As notícias são céleres e contundentes ao revelarem que a zona está sob o controlo dos “separatistas” e “pró-russos” ucranianos, mas nem sempre recordam que toda a região está desde Março sob uma operação repressiva e de limpeza étnica conduzida pelo aparelho fascista de segurança de Kiev através de forças militares e dos grupos de assalto nazis da Guarda Nacional.

A verdade oficial será sempre a que os dirigentes que estão por detrás desta operação decidirem revelar à opinião pública, por muito “independentes” que sejam as investigações a realizar. Sem esperar por ela, e para depois podermos cotejá-la com outras realidades apuradas no terreno com os destroços do Boeing 777 ainda fumegantes, membros da rede Jornalistas Sem Fronteiras dedicaram as últimas 36 horas a levantar factos comprovados e comprováveis sobre o drama e a trama. A matéria encontrada revela-nos que poderemos estar perante uma das maiores provocações para desestabilizar ainda mais a situação na Europa, sem excluir intenções subjacentes de expandir uma guerra por enquanto regionalizada.

Contexto

Sem a preocupação de identificar relações de causa e efeito, mas com a certeza de que fenómenos com esta gravidade não surgem isoladamente ou são praticados por lunáticos ou transviados, é importante lembrar o contexto internacional em que a tragédia ocorre.
O mundo está perante um processo de reestruturação de fronteiras determinado por tendências coloniais dominantes tanto em África como, sobretudo, no Médio Oriente.

Há poucos dias, entretanto, as cinco maiores potências emergentes – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – anunciaram a criação de mecanismos alternativos ao sistema económico e financeiro dominante, que poderá passar por alterações de âmbito monetário que obriguem o dólar a partilhar o seu reinado absoluto.

Rússia e a China têm sido as motivações dos mais recentes movimentos políticos, militares e económicos dos Estados Unidos da América e da NATO. A crise na Ucrânia, a partir da concretização do golpe de Estado de Novembro passado, é o maior instrumento de intimidação e cerco à Rússia. Nas últimas semanas têm-se multiplicado, sem êxito, as manobras para obrigar Moscovo a intervir na Ucrânia em defesa dos “pró-russos”. Simultaneamente, as milícias antifascistas e autonomistas do Leste e Sudeste da Ucrânia têm vindo a somar vitórias na sua reacção à ofensiva militar de Kiev, não apenas reconquistando posições como desmoralizando as tropas através de operações como o recente derrube de um avião militar. Existe, contudo, uma diferença fundamental entre o comportamento das tropas de Kiev e os autonomistas: estes resistem ao aparelho militar que foi levar a guerras às suas casas e suas terras; aquelas agem cegamente contra civis.

Os insucessos da ofensiva militar no Leste estão a abrir fissuras no regime golpista. Designadamente: os Ministérios do Interior e da Defesa estão em guerra; a candidata presidencial derrotada, Iulia Timochenko, conspira contra o presidente Porochenko.

Os factos

Ainda o mundo não tinha conhecimento de uma nova catástrofe atingindo irremediavelmente um voo da Malaysian Airlines já a torre de controlo do aeroporto de Kiev se apercebia de que aquela não era uma tragédia provocada por avarias técnicas no Boeing 777.
“Um controlador aéreo espanhol da torre de controlo usou a sua conta Twitter, rapidamente silenciada, para conseguir dar conta do que se passou nos momentos imediatamente antes e depois do desastre, segundo Natalya Komarova, jornalista freelance que se ocupou da investigação no terreno desde o primeiro momento.

“Esse controlador”, revela Natalya, “verificou que o aparelho sinistrado foi acompanhado por aviões militares ucranianos até três minutos antes de desaparecer dos radares. Poucos instantes depois de o aparelho ter perdido o contacto a autoridade militar de Kiev informou a torre de controlo de que o avião fora abatido e as instalações dos controladores foram imediatamente ocupadas por pessoal estrangeiro”.
Natalya Komarova assegura que as informações tornadas públicas pelo controlador aéreo espanhol “não deixam dúvidas de que a autoridade militar de Kiev já sabia quem abateu o avião, tudo levando a crer que a ordem partiu do Ministério do Interior, sem conhecimento do Ministério da Defesa. Esta constatação”, acrescenta, “iliba imediatamente os ‘pró-russos’”.

“No actual regime ucraniano existem militares que obedecem ao Ministério da Defesa e outros sob o controlo do Ministério do Interior, que é o epicentro do poder fascista dentro do governo”, segundo Vitaly Simonov, analista político em Donetsk.

“Foi o próprio ministro do Interior, Anton Gerashenko, quem anunciou através dos seus vários meios de propaganda que o avião foi derrubado por um míssil Buk; isto é, os militares sob as suas ordens sabem perfeitamente o que se passou”, revela Vitaly Simonov. “Posso garantir de fonte segura”, acrescenta, “que no dia anterior ao acidente, quarta-feira, as forças militares ucranianas transferiram uma bateria antiaérea Buk para as imediações de Donetsk, na região da queda do avião. Ora o próprio ministro da Defesa, Valery Galetey, reconhece que os ‘pró-russos’ não dispõem de armas como os mísseis Buk, capazes de atingir aviões voando a mais de dez mil metros de altitude, como era o caso do MH17”.
Vitaly Simonov afirma que “as manobras realizadas pela informação governamental para fazer crer que o crime pode ter sido cometido pelos ‘separatistas’ são

contestados até dentro do próprio regime”. Cita o caso do procurador geral da Ucrânia, Vitaly Yarema, que informou o presidente Poroshenko de que “os ‘terroristas’ do Leste não têm os meios militares necessários para realizar uma operação como a que foi feita, nem há notícias de que se tenham apropriado desses meios no arsenal governamental . Todos os meios aéreos militares ucranianos que os ‘pro-russos têm abatido voam a altitudes muito menores, entre os três mil e os seis mil metros, eventualmente atingíveis por mísseis de muito menor alcance”, segundo as informações do procurador geral ucraniano.
O governo ucraniano teve conhecimento de que o avião foi derrubado por um míssil no máximo 23 minutos depois da tragédia, quando as autoridades militares da torre de controlo enviaram o seu relatório ao primeiro ministro, segundo Nalatya Komarova, citando o controlador aéreo espanhol.
O relatório militar revela igualmente o local do disparo e assegura que não foi feito por “milícias pró-russas”. Uma hora e seis minutos depois do derrube, imediatamente antes de a conta Twitter do controlador espanhol ter sido desactivada, os comandos militares presentes na torre de controlo do aeroporto informaram que o disparo fatal para as 298 pessoas foi feito pelo exército ucraniano, afirma Komarova.
Outro facto já comprovado e que é comprometedor para o regime de Kiev é o do desvio de rota imposto ao avião sinistrado pelo Centro de Controlo Aeroespacial Ucraniano de Dnipropetrovsk, que o dirigiu para as zonas de combates.
“É verdade que o MH17 estava a uma altitude de segurança garantida pelas autoridades ucranianas, com base nas armas que reconhecem estar em poder dos ‘separatistas’, e que havia outros aviões internacionais sobrevoando a região”, afirma Oleg Tarasenko, piloto da aviação comercial reformado. “No entanto, foi-lhe determinada uma alteração de rota, o que carece de explicações”, acrescentou.
“A informação do desvio de rota foi noticiada pelo site flightware.com, que reconheço como credível”, sublinha Tarasenko, “e o que é fundamental saber é se foi uma terrível coincidência ou um acto provocatório deliberado. Seja como for, uma investigação profunda sobre um acontecimento desta gravidade é imprescindível num processo de inquérito sério sobre a tragédia”, sublinhou o antigo piloto comercial.

O governo da Malásia, através do seu ministro Datuk Seri Ilow Tiong Lai, especificou em conferência de imprensa que da parte do país de bandeira do aparelho “não houve quaisquer instruções de última hora para que o voo adoptasse uma rota diferente”.
“Isso quer dizer”, explocou Oleg Tarasenko, “que foram as autoridades ucranianas, responsáveis pelo controlo das rotas no seu espaço aéreo, que indicaram o caminho a seguir pelo MH17. Essa rota é 200 quilómetros a norte das utilizadas pelos Boeing da Malaysian Airlines nos dias anteriores e conduz directamente para a região do conflito na região de Donetsk, na qual, aliás, os responsáveis da aviação civil ucraniana não recomendam o trânsito dos aviões de carreiras internacionais”.

Que o avião civil com quase 300 pessoas a bordo foi abatido, são poucas ou nenhumas as dúvidas. As agências norte-americanas de espionagem têm a mesma opinião e especificam que o engenho utilizado foi um míssil terra-ar, evitando designar quem o disparou. Nesse aspecto, os espiões de Washington são mais contidos do que algumas figuras destacadas da política do país, que insinuam responsabilidades dos “pró-russos”, mesmo sabendo que estes não têm meios para o fazer, tal como é reconhecido por sectores importantes do próprio regime político em vigor em Kiev.
Segundo uma fonte de uma agência de espionagem dos Estados Unidos citada pelo Washington Post, “vai levar algum tempo a apurar informações sobre as intenções de quem esteve envolvido”.

“Não penso que seja assim”, alega Svetlana Bondar, dirigente de uma organização humanitária de Lugansk, uma das cidades mais martirizadas pela ofensiva do aparelho fascista de Kiev. “Vamos perceber muito rapidamente o que os autores deste crime pretendem obter com ele, porque os acontecimentos vão desenvolver-se muito depressa e de maneira a lançar a confusão sobre as origens do problema”, acrescentou.

Svetlana, de uma família que perdeu vários dos seus membros na luta contra o nazismo há setenta anos, afirma que a demora que venha a existir não terá a ver com a identificação de quem foi ou não autor deste acto selvagem, mas sim com o veredicto que os principais responsáveis mundiais entenderem anunciar à opinião pública, para depois actuarem em conformidade.

“Hitler mandou incendiar o Reichstag e acusou o dirigente comunista Georgi Dimitrov para lançar uma vaga repressiva que lhe permitisse liquidar a oposição”, recorda Svetlana Bondar. “Esta provocação não lhe fica atrás, e se as tropas de Kiev têm vindo a perder posições nos últimos tempos, agora o governo procurará apoios para reforçar a violência com que procura varrer todos os que no Leste e Sudeste da Ucrânia se opõem à ofensiva fascista”, previu.

“Quem ataca e chacina civis na nossa região são os que vêm a mando e a soldo dos fascistas de Kiev”, adverte Svetlana Bondar. “Nós lutamos pelos nossos direitos, pela nossa autonomia, contra forças militares que vieram atacar-nos. Eles sim, atacam civis e não tenho dúvidas de que o assassínio destes 298 inocentes vem engrossar a sinistra contabilidade de crimes fascistas na Ucrânia. Os que se dizem herdeiros dos que chacinaram dezenas de milhar de pessoas, judeus e não judeus, nos campos de Hitler são naturalmente capazes de derrubar um avião com 300 pessoas para atingir os seus objectivos”.

“Estamos perante uma provocação terrível”, acusa Svetlana. “Oxalá ainda reste aos dirigentes mundiais alguma réstia de bom senso para não se deixarem levar no engodo”.

José Goulão, Castro Gomez, Donetsk, Urszula Borecki, Kiev

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