VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 16 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

 

CAFÉ RESTAURANTE TAVARES

café - XXV

O Café do Grego era o oposto do Café Tavares fundado em 1784 por Nicolau Marca – mais um italiano – e que a partir da nova gerência do português Manuel Tavares em 1823 e depois de muito sarrabulho, suspeitas, intimidações e prisões á mistura, afixava no café a seguinte inscrição: “O dono desta casa não consente aqui discórdias nem conversações sobre opiniões políticas”.

Valeu-lhe pouco esta proibição e não serviu para afastar as suspeitas que o corregedor do crime teimava em manter junto do Intendente da Policia. Os “Vencidos da Vida” fizeram nele várias reuniões. Ainda hoje no Tavares Rico passam algumas das decisões mais importantes da vida portuguesa. É o restaurante preferido pela gente de mais dinheiro, ficando o Tavares Pobre para outros de carteira menos recheada. Mudando várias vezes de proprietário ao longo dos seus duzentos anos e melhorado sucessivamente em 1891, 1903 e 1921, a sita casa na Rua da Misericórdia, embora não sendo tipicamente um café, é uma inegável instituição histórica de Lisboa, por ela passando e assim continuando muito da melhor sociedade portuguesa.

café - XXVI

OS MARRARES.

Mas os genuínos cafés do Chiado pouco ou nada se confundem com a casa de pergaminhos de ouro do Tavares do Bairro Alto.

António Marrare – italiano, sim – vem para Lisboa pôr toda a vida dos cafés virada de fio a pavio. Marrares, ou melhor, Cafés Marrares não faltaram por essa cidade que vivia ainda a cheirar a cinzas das fogueiras inquisidoras. Todavia, o Marrare do Polimento em pleno Chiado é sem dúvida aquele que melhor condiz com a ação deste dinâmico reformador dos cafés lisboetas.

Quando inaugurou a grande casa do Chiado em 1820, o italiano tinha já mostrado o que valiam os cafés abertos pela sua mão. O Marrare do Carlos, a esquina da Rua da Figueira (hoje Rua Anchieta), e o Marrare das Sete Portas, no canto da Rua de Santa Justa com a do Arco Bandeira estavam de portas abertas desde pelo menos 1804. O Marrare do Cais Sodré, à esquina com a Travessa dos Remolares, desde 1809.

Quando faleceu em 1839 António Marrare não só deixava o seu nome ligado a alguns dos mais famosos cafés de Lisboa como ficaria na história do Teatro de S. Carlos de que veio a ser empresário a partir de 1825, depois de amancebar-se com Margarida Bruni, bailarina do S. Carlos em 1820 e a seguir empresária deste teatro com João Baptista Hilbrath.

Não deve haver nada mais difícil na história dos cafés de Lisboa do que meter o Marrare do Chiado em meia dúzia de linhas como vai ter de ser agora feito. Praticamente não existe um único testemunho sobre Lisboa do passado que fuja à menção deste café em longas e aliciantes descrições de muitas e belas páginas.

Foi no nº 25 da então Rua das Portas de Santa Catarina onde teceu a sua história incomparável o célebre Café Marrare do Polimento, o farol de maior incandescência que até hoje se incrustou na fenomenal artéria – conforme palavras de Mário Costa no seu livro sobre o Chiado. “Deixou uma crónica brilhante, turbulenta, estonteante e foi o criador de inacreditáveis lendas, que só o romantismo saberia urdir.” Diz ainda o mesmo autor.

O Marrare do Polimento punha todo o nosso meio cultural a falar dele e quase sempre pelo melhor, ou por ai andando. “Era o príncipe dos botequins”, na paráfrase de Tinop que adianta: “Quem se houvera dado ao trabalho de conscienciosamente estudar esse microcosmo chamado Marrare do Polimento teria contribuído para o estudo psicológico da época.” Porém, para o mesmo autor, o Marrare era também o “primeiro parlatório e pasmatório do Chiado, o mais notável centro de parolagem da velha Olisipo”.

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