XAILES – Crónica de Joaquim Palminha Silva

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Mulher de xaile, numa criação de Almada Negreiros

Xailes!

Era miúdo, mas ainda me lembro dos xailes sobre os ombros das mulheres…

            Nesse tempo, parecia-me que a dor feminina se regulava pelo uso do xaile. Xailes negros, cinzentos, azuis-escuros… Cheguei a acreditar que a vida quotidiana portuguesa se recortava no horizonte de cada terra a preto e cinzento.

            Nessa época haveria uma metafísica do xaile?! – Que eu saiba ainda ninguém a explicou. Os xailes desdobravam-se e multiplicavam-se, consoante pesava nas famílias a vibração do abandono, da tristeza, da dor e da miséria…

            Havia mulheres que o punham pela cabeça, o que lhes parecia dar uma protecção especial contra a escandaleira que envolvia as forasteiras que vinham de Lisboa, esquisitas, dispersas nos costumes, sobretudo sem xailes pelos ombros.

            Havia velhas mansíssimas de xaile negro, que contavam histórias fantásticas de lobisomens acontecidas nas encruzilhadas dos caminhos, cerca da meia-noite de Lua cheia!… E o focinho dos avejões dessas histórias, ficou-me parecido com a cara das pobres velhas.

            Com o destilar do tempo, aprendi que nem todas as mulheres de xaile eram velhas. Algumas eram mesmo bastante novas, mas entravam naquela via dolorosa do xaile encaracolando os anos de propósito, com medo das poucas-vergonhas… Enfim, no respeitante a desgraças interiores, só Deus sabe!

            Na igreja, as mulheres de xailes negros eram uma massa humana taciturna. Rezavam fustigando as palavras das orações na ânsia de reconstruir uma imagem ludibriante e esquiva da religião que, além do ritual abastardado que praticavam, era amálgama de superstições, de amuletos pendurados ao pescoço e promessas a Santos e Santas, que só elas pareciam conhecer. E rezavam de harmonia com o negrume dos seus xailes, trotando frases a modo de matar as dúvidas e, como as velas, a queimar o tempo devagar, devagarinho… – E metiam-me medo, com as suas faces escaveiradas e os olhos consumidos pela febre dos mexericos.

            Estou a vê-las! – Erguiam-se dos bancos da igreja e, num gesto de asas de corvo, agitavam os xailes atrás das costas, para de novo os cingirem sobre os ombros, partindo tão sinistras como tinham chegado… Xailes negros, corvos a derriçar a carcaça do tempo!

            Havia ainda os xailes das operárias, às vezes já no fio, a tapar misérias, fomes, desgostos e desemprego! Muitas vezes, xaile a cobrir as “nódoas negras” das pancadas do marido, um desgraçado sem rumo, alcoolizado.

            Hoje o xaile negro está desvalorizado… O seu roçar agoirento sobre a fantasia dos miúdos, mudou de habitat.

Quem quiser ver o xaile deve dirigir-se a uma «casa de fados»: – Aí, sobre os ombros de uma cantadeira, apesar do seu berrante colorido, é ver o vaidoso a pretender encenar a antiga posse das desgraças, levando pelos ombros a fadista que ora arrepela, ora faz contorcer-se, ora a adormece na tortura da paixão desfeita, às lascas como o bacalhau, até a esfarrapar, obrigando-a aos trinados incertos ou contínuos.

            Quer isto dizer que o xaile, na altura de “descer à cova”, antecipando-se deste jeito a uma reforma da indumentária feminina, soube apresentar (vá lá saber-se como e porquê), além das antigas formas cénicas da vida, uma geometria elementar, física, para dar certidão popular ao Fado!

            O carácter mórbido do xaile, por assim dizer, caldeado na forja pantomineira de tapa-vergonhas, autoriza esta suspeita nos tempos que correm: – Está em hibernação!

            Muito para lá das marcas, sem necessidade de grande alarido, o xaile talvez espere a sua hora, entretanto refugiado no Fado… E como o tempo lhe sobeja, além de se aburguesar, mostra-se musicalmente na chalaça, no pitoresco, mesmo no melancólico… E há quem pague para o ver agitar-se à média luz!

            Dos ombros destas Vénus pataqueiras, o xaile espreita-nos agora travestido pela moda. Mas quem nos assegura que o xaile tradicional, com a sua entrada renovada no inferno freudiano nacional, não está para breve?

            Afora o tradicional xaile negro da viúva do pescador da Nazaré, esse manto de lã grosseira ensopado de amargura, no meio desta crise económica (ética e cultural) que nos atormenta (como as coisas estão!) o xaile neo-realista dos personagens de Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, Manuel da Fonseca e Antunes da Silva, tem razões de sobra para aguardar renovada aventura no Portugal de hoje. O xaile do antigamente… – Sonha que ainda nos pode enchumaçar a vida!

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Grupo de operárias da «União Fabril» (Lisboa), fotografia da Ilustração Portuguesa, 1911.

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