CONTOS & CRÓNICAS – “OS MALES DE ÁFRICA” – por Manuel Simões

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 Conheci-te no teu reduto da Beira, na casa maior sobre a colina, as altas paredes parecendo neutras, alheias ao processo. E a tua presença transformava as coisas nas ordens ríspidas aos criados, na impaciência com que aguardavas – aguardar era uma palavra que te ficava mal e dói-me empregá-la aqui – o cumprimento das tarefas, e até no modo como saboreavas a posse desta quinta, na encosta da serra.

 Ali eras diferente no usufruto das pedras trabalhadas, o edifício pensado e repensado em anos de muitas marcas, todo construído a pedra (como insistias), os quartos vastíssimos sobre as varandas de azulejos. Para que os fizeste tão grandes se agora só servem para te acentuar a solidão, se te sentes naufragar por dentro nas insónias constantes e doentes, com visões escorrendo das paredes brancas, amordaçando-te ao que foste, à forma como evoluiste do nada, processos limpos, quem duvida?!

 Maria do Carmo, ao pé de ti, era figura subalterna, embora parecesse orgulhar-se com o tratamento de “madame” que a distanciava, por sua vez, da forma como eram tratadas as suas iguais provenientes de outras partes de África, limitadas ao designativo de “donas”, distância significativa naqueles tempos de ainda império colonial. Mas ela compartilhava a aparente segurança sob a protecção dos deuses familiares, enquanto chegávamos à grande sala, à maior sala de Pinhais (como referias), com móveis escolhidos para a sua vastidão.

E via-te sorrir, com mal disfarçado orgulho, quando, sentados sobre os meiples, me descrevias a história e eu ia reparando que ali tudo era lógico na confusão dos estilos, incluindo o pau santo trabalhado que atravessou o mar. E agora sobre os móveis, objectos de toda a ordem, pintados de cor ocre ou vermelho da China e, a um canto, impondo o seu prestígio, um qualquer manipanço trazido lá da África, estava sobre a arca bordada a madrepérola.

 o olhar fixava os lustres imponentes, dois monstros de vidrilhos sobre a nossa cabeça e, em redor, pesando nas paredes, tapeçarias exóticas como é de costume ver-se. E fixei-me numa delas por certa associação, uma cena de caça reportada a não sei que corte, o senhor medieval com seus galgos e gado, cavalos cor de púrpura resistindo ao massacre, perante a impaciência de certa amazona. E tudo isto retinha, sem perceber o nexo de tal decoração, não obstante as explicações em que punhas tanto empenho.

E admito agora, volvidos estes anos sem África, que nem mesmo te dês conta do que és ou do que foste, que tudo tenha passado na voragem dos dias. Tudo? Mas esses sobressaltos o que são, essas manchas que te povoam o sono, que te apertam o corpo contra a parede da insónia? A noite assusta-te, eis tudo, e eis porque povoas a casa com teus grandes passos de cinza, despertando ecos no vazio das manhãs.

Então respiras porque sentes de novo o domínio, porque diriges os criados e os provocas sem motivo só porque se te representam de novo os congos, e o sangue se te altera com a memória desse fausto antigo, o comércio oportuno desses dias de glória, os servos servindo então sem outra alternativa. Este é que é, afinal, o verdadeiro mal de África, e a sua reminiscência continuará a pesar, sem remédio, sobre a névoa dos teus olhos.

1 Comment

  1. *Adorei o texto ,sobretudo …* “afinal, o verdadeiro mal de África, e a sua reminiscência continuará a pesar, sem remédio, sobre a névoa dos teus olhos.”

    Um mal que afecta ainda muito boa gente -“*…a reminiscência continua bem presente em quem ali nasceu ,pariu…viveu uma vida jamais pensada que seria um “paraíso perdido” para sempre-Maria *

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