Perdoe-me mais esta carta, mas preciso de lhe contar o que se passou a noitepassada. Tive um dia tão mau, que estava a ver que não arranjavaum pouco de tempo para lhe escrever. E já estamos quase no fim da tarde. A Heloísa parece-me que está a fazer o jantar, e como demora sempre um bocadinho, vim aqui escrever-lhe.
Pois, anteontem à noite, seriam umas dez e vinte, espreitei a sala, confirmei que a minha mãe dormia profundamente em frente à televisão, baixei um pouco o som, para lhe dar maior tranquilidade, e preparei-me para sair. Fechei a porta sem ruído, não acendi a luz da escada, e o mais silenciosamente que pude, subi o lanço de escada até ao quarto andar. Planeava não me demorar mais do que trinta ou quarenta minutos, mas como sabe, com certeza, nestas situações o homem põe e Deus dispõe. Neste caso concreto será melhor dizer: o Maurício deixa-se levar e a Maria Antónia faz o que quer.
Assim que cheguei ao patamar comecei a ouvir um zumbido, entrecortado de vez em quando por um apito estridente. Fiquei um pouco assustado, sem perceber o que se passava. Talvez uma chaleira ao lume… Empurrei muito ao de leve a porta, e percebi que estava só encostada. Empurrei mais um pouco, e espreitei, Calculava que o quarto da Maria Antónia fosse mesmo por cima do meu, portanto do lado das traseiras do prédio. Pareceu-me distinguir uma luz ténue vinda daquele lado. O zumbido é que era cada vez forte, e o apito mais agudo. Vinham obviamente de dentro de casa. Não pareciam nada provenientes de uma chaleira ao lume …
Eis senão quando uma mão suave, mas firme, aperta a minha e puxa-me suavemente para dentro. Era a Maria Antónia! Pôs-me um dedo nos lábios. Arrastou-me para o quarto das traseiras. Quando entrámos, fechou suavemente a porta, e acendeu a luz da cabeceira da cama. Só então me atrevi a perguntar baixinho:
– Que barulho é este?
– É o ressonar da D. Henriqueta. Parece a banda lá da minha terra, quando desafina, ou o corneteiro vai tocar com os copos.
– É muito forte.
– É assim todas as noites. Vejo-me aflita para dormir. E tenho medo de fechar a porta do quarto, não vá ela sentir-se mal. Disse-me a D. Generosa que ela já teve ataques de sonambulismo.
– Sonambulismo? Mas isso até pode ser perigoso…
– Disseram-me que sim. Mas já aqui estou há três semanas e ainda não notei nada. Espero que continue assim. Se ela me aparece a andar no corredor a dormir, o que hei de fazer? Parece que é perigoso acordá-los.
– Não, ao contrário, deve-seprocurar acordar os sonâmbulos. Com todo o jeito. Até porque é perigoso andarem por aí. Ela pode querer ir para a escada. Ou cair de uma janela. E aqui é um quarto andar. A D. Henriqueta ainda vai ter de mudar de casa, se se confirmar o sonambulismo …
– Que coisa complicada. Mas pronto. Trouxe o dinheirinho?
– Santo Deus, esqueci-me da carteira lá em baixo. Vou buscá-la. A não ser que me deixe pagar amanhã…
– Não, vá buscar a carteira. Aqui não se fazem adiantamentos. Depois esquecem-se de pagar. É sempre assim.
– Não seja desconfiada. – Estava a começar a ficar um pouco ansioso, até porque a Maria Antónia estava mais despida do que vestida. Tentei agarrá-la. Ela sacudiu-me.
– Nada de atrevimentos. Senão, amanhã conto tudo à D. Heloísa. Digo, claro, que você tentou atacar-me.
Lá vim eu buscar a carteira, o mais silenciosamente que pude. Cá em baixo, a minha mãe continuava a dormir sossegadamente em frente à televisão, que agora dava um filme de vampiros. Baixei ainda mais o som, fui buscar a carteira e, sempre muito silenciosamente, voltei para o quarto andar. Quando lá cheguei é que foram elas. A porta, que tinha ficado encostada quando saí, estava fechada. Fiquei ali, sem saber o que fazer. Não me atrevi a bater à porta, mesmo ao de leve. Comecei a pensar se não seria melhor voltar para casa. O receio de alguma represália da Maria Antónia fez-me hesitar. Pareceu-me ouvir ruídos dentro de casa. Passou-se o tempo, talvez meia hora. A porta abriu-se de mansinho e a Maria Antónia saiu muito sorrateiramente. Agora trazia vestido um roupão. Não é que a tapasse muito. Disse-me:
– Imagine que a D. Henriqueta me apareceu ali no quarto. Perguntou-me se estava ali o Norberto. Até quis ver se ele estava debaixo da cama.
– Quem é o Norberto?
– Acho que era o marido dela. Contou-me a D. Generosa que ele morreu há muito tempo. Parece que andava sempre metido com outras mulheres. Assim que via umas saias avançava logo.
– Que horror. Seria mesmo assim?
– Bem, os homens, já se sabe como são. Olhe para você. Com esse ar de santinho, está sempre a deitar o olho para onde não deve. – apertou o roupão, enquanto dizia estas sentenças. Continuou.
– Olhe, isto hoje está complicado. É melhor voltar para casa, antes que a sua mãe acorde. Ou então que a Henriqueta tenha outro ataque, e venha outra vez procurar o Norberto. Ainda o confunde com ele.
Não precisei de ouvir mais nada. Dei boa noite à Maria Antónia, e vim escada abaixo. Só quando cheguei ao terceiro andar é que me interroguei sobre como é que ela saberia que a minha mãe dorme sempre em frente à televisão. Deve ser resultado das conversas de café, ocorreu-me. Felizmente que, cá em baixo, a Heloísa continuava efectivamente a dormir, e o filme de vampiros ainda não tinha acabado. Fui pôr a carteira ao quarto, e voltei á sala. Sentei-me a ver o filme. Mal acabou, ela bocejou fortemente, acordou completamente, e perguntou:
– Estás aí?
Fomos para a cama de seguida. Também já eram quase duas da manhã.

