MUNDO CÃO – Israel tem um plano: conquistar e reocupar Gaza – por José Goulão

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Transcrito da edição de 2014-07-25 de Jornalistas sem Fronteiras com autorização expressa do autor e editor.

Fontes políticas israelitas admitem que o primeiro ministro Netanyahu está a cumprir, ponto por ponto, um plano elaborado pelo seu companheiro de partido e principal rival na direcção do Likud, o vice-presidente do Knesset (Parlamento), Moshe Feiglin. Segundo este plano, retirar o poder ao Hamas no território é apenas um ponto de um projecto que culmina na limpeza étnica da Faixa de Gaza através da conquista militar, ocupação e repovoamento por israelitas.
“Se olharmos em conjunto o plano que circula que entre os dirigentes israelitas e a operação militar que está a ser desenvolvida em Gaza ficamos sem dúvida de que ambos obedecem ao mesmo contexto, declara um general na reserva cujo repúdio pelas práticas políticas e militares do actual governo o “têm aproximado do Meretz”, uma esquerda trabalhista tradicional que apoia os Acordos de Oslo e a solução de dois Estados na Palestina.
“O que Feiglin pretende, e que não encontra qualquer oposição nos mais actuais comportamentos de Netanyahu”, diz o general, “é um dos maiores crimes da história recente da humanidade: impor a milhão e meio de pessoas a fuga para o deserto do Sinai, provavelmente com a cumplicidade do Egipto”.
Não existem actualmente dúvidas em Israel, tanto entre os círculos de poder como na fragilizada oposição, de que o primeiro ministro tornou sua a agenda da extrema direita e dos grupos fundamentalistas religiosos sionistas associada à criação do Grande Israel e à liquidação definitiva da possibilidade de criar um Estado Palestiniano na Palestina. “Aparentemente, esta operação em Gaza destinava-se a impedir o desmantelamento da coligação governamental, ameaçada pelas divergências entre Netasnyahu e o siofascista Lierberman, ministro dos Negócios Estrangeiros, mas agora não existem quaisquer dúvidas de que o chefe do governo cavalga a onda do extremismo”, analisa Judith Rosenfeld, professora israelita de ciências políticas. “Quero dizer com isto”, acrescenta, “que Netanyahu substituiu o processo gradual de colonização, uma expansão forçosamente mais lenta, pela guerra contra o Hamas matando dois coelhos de uma cajadada: impede o governo palestiniano de unidade e desmantela o maior partido palestiniano, aquele que tende a recolher mais apoios entre os sectores jovens e mais activos da sociedade”. Judith Rosenfeld explica que “se Netanyahu tem estado a assumir o programa da extremíssima direita muito mais facilmente, por razões do seu próprio poder interno no Likud, adoptará os planos da facção Feiglin, a que mais condições tem para lhe disputar o poder, fragilizando assim a influência desta no Comité Central.”
O general na reserva “próximo do Meretz” expôs em resumo o plano de Feiglin, vice-presidente do Knesset e membro da estratégica Comissão de Negócios Estrangeiros e de Defesa: “obrigar a população das zonas mais controladas pelo Hamas a abandonar os locais; estender a operação a toda a Faixa de Gaza, sem contemplação com “escudos humanos” ou “questões ambientais e patrimoniais”; bloqueio total do território; ocupar toda a faixa depois de neutralizados os principais centros de resistência do Hamas e tendo como única consideração evitar ao máximo a perda de soldados israelitas; aniquilação de todos os grupos armados; repovoamento de Gaza por judeus, oferta de recompensas financeiras a todos os cidadãos árabes que saiam do território, desde que não estejam implicados em actos de resistência; os que ficarem, “após alguns anos poderão receber a cidadania israelita desde que aceitem a nova soberania”.
O general sublinha que, “sem qualquer dúvida, os primeiros pontos estão em curso na operação Barreira de Protecção: observe-se que nem hospitais, nem escolas, nem residências são poupados, como a operação se estende a todo o território, apesar do objectivo proclamado de destruir os túneis, e como as populações de muitas zonas têm sido ‘aconselhadas’ a abandoná-las tanto através de lançamento de panfletos, ameaças de drones ou bombardeamentos directos”.
O Sinai, território sob administração egípcia, seria o principal destino dos refugiados de Gaza, de acordo com os projectos dos dirigentes israelitas, o que implicaria “cumplicidade do regime egípcio”, diz a professora Judith Rosenfeld. Fala-se igualmente na Jordânia, que nos círculos de poder de Netanyahu é encarada como a futura “Palestina Oriental”.
“Perante estes factos vem-me à memória uma declaração do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Egipto, Abdul Gheit, que atribui o derrube de Mubarak, em 2011, ao facto de se ter recusado permitir a imigração dos cidadãos de Gaza para o Sinai”, recorda o jornalista egípcio Hashem Sharabi, em serviço no território. “Foram os americanos que fizeram o pedido a Mubarak e não lhe perdoaram tê-lo recusado”, acrescenta.
Depois dos assassínios em massa na região de Shezhaia, na periferia da cidade de Gaza, e no piso de cuidados intensivos e das salas de cirurgia do hospital de Deir Balah, as tropas israelitas abateram sexta-feira pelo menos 16 pessoas ao destruírem a escola primária de Beit Hanun, no norte da faixa, portanto na extremidade oposta à da localização dos túneis.
“Era uma das escolas que tínhamos adaptado para acolher algumas das 100 mil pessoas que ficaram desalojadas desde o início da operação”, explica um funcionário sobrevivente da agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos (UNRWA), que não escondia a indignação. “Aquilo não é um exército, isto não é uma guerra, estamos perante um bando organizado de assassinos e uma matança de inocentes”, testemunha.
A UNRWA está a utilizar cerca de 100 escolas do território como alojamento provisório das pessoas que continuam a ser sistematicamente expulsas das suas casas, muitas das quais já destruídas, por supostamente viverem em zonas onde o Hamas tem estruturas militares. O bombardeamento da escola provocou 16 mortos e mais de 200 feridos, sobretudo mulheres, crianças e trabalhadores da UNRWA. Houve famílias que perderam seis dos seus membros. Estes números foram divulgados pelo próprio secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, que anunciou o encerramento da escola e continua a solicitar “contenção” a Israel durante a operação.
O modo como a escola foi destruída corresponde ao conteúdo do plano Feiglin, que recomenda que não haja contemplações perante escolas, hospitais, edifícios religiosos e habitações desde que o exército os considere a funcionar como “escudos humanos”.
Autoridades de Israel, tal como acontece regularmente desde o fuzilamento de quatro crianças que jogavam futebol numa praia de Gaza, anunciaram a instauração de mais um inquérito, mas ainda antes de se iniciarem os procedimentos atribuíram a tragédia a um míssil do Hamas que “caiu pelo caminho” antes de atigir Israel. Logo a seguir a dedução foi alterada: tratou-se afinal de uma “resposta” do exército a um míssil lançado das imediações da escola da ONU.
“Muitas das pessoas que estavam alojadas na escola refugiaram-se no hospital de Beit Hanun, mas ignora-se quanto mais tempo ali permanecerão com vida. Logo a seguir, um disparo feito pelos invasores provocou uma explosão a 50 metros da entrada do hospital, lançando o pânico em todas as instalações.
O número de mortos provocados pela agressão israelita subiu para mais de 800, cerca de um quarto dos quais são crianças.
Israel perdeu 32 soldados – quatro dos quais vítimas de “fogo amigo” – quatro vezes mais do que os registados em 2008 na operação “Chumbo Fundido”.
“Estando ainda, por certo, longe do fim, estas perdas são um elevado preço para os padrões israelitas”, sublinha a professora Judith Rosenfeld. “Isto significa que a operação tem uma importância estratégica que não está a ser explicada em todas as suas dimensões ao povo israelita”, acrescenta. Isto “leva-nos a temer”, sublinha a professora, “que o plano Feiglin seja a verdadeira cartilha de Netanyahu nesta guerra”.

José Goulão, Christopher Wadi, Gaza, Sara A. Oliveira, Jerusalém

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