A minha Rua – Joaquim Palminha Silva

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Rua. Artéria pública no emaranhado sanguíneo de uma cidade… Rua em alegre alvoroço, com as festas populares de Primavera e Verão! – Em que funda gaveta da memória metemos o namorado dia de Santo António, de forma a não ser “pisado” por S. Valentim?

…A Rua à nossa espera, no regresso da Escola e, como o desafio era um “modo de estar”, faziam-se corridas ao pé-coxinho: «O último chegar é parvo!» … Rua que dava para o pequeno jardim da Praça… Fim-de-tarde de um remoto Verão, e a roda de meninas floreando a cantiga pelos ares: «Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, giroflá… giroflé, flé, flá…»; «… ó Senhor Barqueiro, deixai-me passar, tenho filhos pequeninos…». Doce e persuasiva certeza do amor singelo entre meninos e meninas, quando este sentimento era um formigueiro d’alma… Talvez porque ainda não corrompido:

«Rei,

capitão,

soldado,

ladrão,

menina bonita

do meu coração.».

 

Tomba uma lágrima … Recordo: «- Mãe! Já chegaram as andorinhas!». Lembro os ninhos nos beirais, sujando paredes caiadas de branco, mas todos a dizer: «Não se toca nas andorinhas, pois são as “galinhas de Nossa Senhora”».

Travessa das Pombas onde nasceu e viveu a Maria da Graça, habilidosa costureirinha, rapariga de linda voz («Poderia ter sido fadista profissional, em Lisboa»), que o corpo escultural lançou na vida desditosa e, uma vez posta no meio da Rua, foi o que se viu, tornando-se ordinária e Maria Desgraçada!

A minha Rua foi também caminho para Deus, afastando o jovem liceal João Fonseca da sua queda para a estroinice e hábitos de parasitismo, de que à boca grande o coimavam, para o levar a vestir a sotaina e, afável de temperamento, embarcar um dia, missionário salesiano, para o longínquo Timor, onde veio a morrer…

            A minha Rua… Só graças a ela e aos momentos que ali vivi, a imagem do meu País se tornou real, sensação física e, ao mesmo tempo, extremamente inspiradora. Porque a minha Rua, segundo os anos foram passando, tomou formas diversas, como se tivesse a preocupação peculiar de me acompanhar, de acompanhar os outros vizinhos, e ser uma síntese da cidade, de Portugal.

            Há muito que partiu a camioneta da carreira, com um cão galgo pintado nos lados … Depois, percebeu-se que a minha Rua tinha alguns automóveis ao rés das portas das casas, a gozar o relento e a roubar espaço aos moradores… Passaram anos, e a minha Rua («Pai Nosso que estais nos céus!…») enterrou alguns dos seus vizinhos. Ainda hoje recordo com estupefacção o senhor Chico Cauteleiro (nós tratávamos todos por senhor, fique registado!) que, de repente, entre duas fracções de uma cautela a vender, caiu fulminado no meio da Rua, morto naquele instante, como se “alguém” o houvesse chamado, e ali ficou um par de horas de olhos muito abertos para o céu, até chegar o «delegado de saúde», a polícia e familiares! Que coisa, meu Deus!

            Das portas de casa dos ricos, há algumas décadas que desapareceram as “criadas” de touca e avental cor de neve. E também desapareceu a viúva de um lavrador, senhora de grande fortuna (dizia-se), madrinha de muitos meninos pobres, que vivia sem capacidade de resistência, mas teimando que os médicos, os medicamentos, hospitais e clínicas foram feitos para extorquirem o dinheiro às viúvas ricas! Tempos depois, as necessidades físicas e mentais impuseram-se, e os herdeiros meteram-na numa «Casa de Repouso». Hoje, o seu prédio argumenta “contra” a vida de degradação e ratazanas, e é discutido nos Tribunais pelos herdeiros desavindos, num escândalo de ódios.

            A minha Rua é quase uma «História de Portugal», talhada à cutilada dentro das muralhas da cidade, e vai da Índia a Alcácer-Quibir, dobrando o «Cabo Não» – O Zé-Zé das bicicletas foi para a Legião Estrangeira da França… E nunca mais ninguém o viu! O meu companheiro de maluqueiras juvenis, o “Rã”, emigrou para a Austrália. Uma vez escreveu para alguém da Rua, a dizer que vivia num imenso deserto interior, ganhava muito dinheiro mas não havia onde o gastar…Vá lá a gente emigrar! – Ora adeus!

Na minha Rua até houve um sapateiro de “vão de escadas”, que dizia “décimas” de improviso, e um barbeiro à esquina que tinha o único papagaio palrador da cidade, com o suplemento de que era «malcriado e anarquista»! Quanto trambolhão de bebedeira amparou o candeeiro de pé alto da minha Rua?

            Na minha Rua havia uma casa de lavrador riquíssimo que, nos anos de penúria rural, mandava as criadas atirar aos pedintes, pelas escadas a baixo, pães de quilo revestidos de bolor… E esta gente ia à missa! E esta gente dizia-se católica! Que má frequência tinha então a igreja da Praça!

Ao lado do jardim, na Praça, sempre e mesma cena… Domingo de manhã, à mesa do café quase deserto, o sujeito (óculos de grossas lentes) conversava com o jornal, era o tradicional “diálogo” monótono do velho reformado do Tribunal, habituado a falar sozinho, gozando os primeiros raios de sol e definhando todas as semanas… Mas aguentava à custa de remédios para tudo…Com o dedo de unha indiscreta coçava a cabeça… Quando morreu veio a polícia e fez-se um inquérito, disseram-me. Parece que o sujeito tinha jornais proibidos debaixo da cama, desses papéis velhos que prometiam justiça social eterna… Quem o recobriu no funeral não foram os vizinhos, pois foi a enterrar só, mas sim a mortalha espessa, invisível, da humana desilusão…

A minha Rua, calma e recolhida no ventre da cidade, nunca acarretou as indispensáveis despesas em oportunas obras de reparação. Apenas se fizeram, de urgência, as mais gritantes nos estragos, quando o pavimento abatia ou os canos esgotos rebentavam… Mesmo assim, só tinham a casa caiada (nas vésperas do S. João) os moradores pobres, pois os ricos «não estavam para essas bacoquices».

Com o rodar dos anos, a toilette da minha Rua obedeceu com rigor ao estilo de cada época, como a música que se espalhava pela atmosfera vinda das janelas e varandas: – O tango e o fado, símbolos de tragédia e dor, as zarzuelas e outras espanholadas cheias de salero e castanholas; depois, a música da FNAT (que hoje se chama INATEL), a “música ligeira nacional” com os «serões para trabalhadores» repletos de trinados femininos e masculinos, inclassificáveis, saindo das telefonias sob a responsabilidade da «Emissora Nacional», apanhando “à traição” melodias estrangeiras. Enfim, truques de importação. Deixem-se estar quietos: – «É uma casa portuguesa com certeza…».

A minha Rua deixou-se amar e, entre beijos escondidos e assinaturas de empréstimo, casamentos com aflições entre portas, cedeu o lugar à podridão sem um protesto, sem uma observação, um carinho da Junta de Freguesia, do Município. Os da política, sempre hipócritas, só se lembram da minha Rua quando começa o tempo da pedincha e recolha de votos! … Ai! a minha Rua: – Quem te viu e quem te vê!

Há vezes escuto a minha Rua dizer-me ao ouvido: «- Chut! primo, o que lá vai, lá vai. Foi sonho… Esta vida é apenas uma curta passagem!».

Quando eu era criança, via-a tão Senhora de si, tão “sol nascente” ou assim o julgava… Hoje apresenta-se-me desabrigada, uma autêntica vadia, possuída por desequilíbrio mórbido, disfuncional, testemunhado nas casas arruinadas, no pavimento descalçado aqui e ali, nos prédios vazios, de portas tombadas, como bocas cheias de cáries e infecções indecifráveis. A minha Rua, toda energia e convivência há 60, 70 ou mais anos, repugna hoje de desfeita, fede e irrita, transformada num esboço de múmia desdentada que só poucos enxergam e se doem e, para cúmulo da indecência, as esquinas são urinóis a céu aberto! A minha Rua, como uma mulher nascida prendada e educada, bela, mas pobre do nº tal ao nº tal, remediada do nº de polícia tal ao nº de polícia tal, rica em dois ou três prédios; a minha Rua, dizia, que todos nós deveríamos respeitar na medida em que a fomos conhecendo e vivendo, ao abandonar-se-nos confiante, acabou tombando na atmosfera insensata da nossa indiferença e agressividade cosmopolita, como se fosse uma mal-casada moída de pancada pelo brutamontes do marido. Depois, fragilizada, confundida, deixou-se arrastar sem vontade própria para a prostituição dos plásticos chineses, das lojas de materiais sem nome que obrigam a falências e abandonos, deslizou em seguida para o aluguer de quartos a imigrantes e indigentes ou indigentes e imigrantes.

Até um lupanar de brasileiras, moças de muito corpinho, seguramente infortunadas, esteve instalado na minha Rua, dois anos a angariar fregueses… Um dia, o clã das matronas de buço regimental (explicável pela psicobiologia!) juntaram-se nas imediações do gabinete do Presidente de Câmara, e reivindicaram a expulsão das “meninas de telenovela” que «viviam à sombra dos respectivos maridos e, por conseguinte, roíam o orçamento familiar», vá lá saber-se porquê! – Ai minha Rua!

A minha Rua, infeliz, desentendida da malha urbana da cidade, desgostosa de habitar numa teia de artérias decadentes, chega a ter o ar de quem roga: «Deixem-me morrer em paz!».

Como as Travessas sem consciência cívica e de calçadas rotas, Largos e Praças entulhadas de “mobiliário urbano” de fancaria, que se porta mal com o espaço envolvente, também a minha Rua perdeu a auto-estima, como hoje dizem os entendidos da psicologia a granel. A minha Rua já aluga quartos a qualquer um, já deixa que nas suas casas fanadas e de telhados rotos se deite qualquer “papa-açorda”, sem lhe impor as regras da civilidade, os centenários códigos de convívio social, habituais nesta cidade tocada de sinos e preces antigas, de espectros que gemem sob as pedras, e de memórias arrecadadas numa Biblioteca Pública cheirando a bafio, com livros ratados, como se fossem dentes podres de gigantes arrumados em prateleiras.

A minha Rua… – Vive hoje uma degradação e abandono contínuo. Todavia, parece que por durar muito e a morte a espreitar com distracção, a providente natureza conserva-a mesmo arruinada e, com dobrada energia ou simulacro de vigor físico e sentimental, depois de tantos abalos espantosos e incúria humana, fá-la desdenhar do tempo. A minha Rua enfrenta a morte com frontalidade, como um pegador de toiros!

A minha Rua está sentada num “banco de eternidade”, à espera já não sabe de quê nem de quem, de perna traçada, mostrando as «meias de vidro» cheias de “malhas”…

A minha Rua… As ruas das cidades do meu País: – Com os ossos à mostra, como pessoas trituradas pelos anos e maus tratos, as carnes rasgadas pelas dolorosas restaurações e desapiedadas inovações de importação, descosidas do Portugal português, perdidas no meio da podridão…

A minha Rua… As nossas ruas, queridos vizinhos! Quantas andam para aí já sem moradores, sem risos de crianças, sem raparigas de seios roliços namorando às janelas belos jovens suados da correria da bola; quantas andam para aí cheirando a mofo, de braço dado com os miasmas do meio ambiente doentio…

Ruas antigas das cidades de Portugal, fizeram todas maridanças com o desleixo, desprezando moradores e vizinhos e hoje, carrancudas e tristes, raspam com cacos de telha as carapelas das postulas, no meio de «uma grande sem-vergonha»! Ruas numa pilha de nervos! Ruas de “ir pela água a baixo”, com a moinha das demolições a roer-lhes o interior, ajudadas pela torpeza e relaxidão dos habitantes!

Ruas de Portugal. Bazófias urbanas: – Pequenas “pátrias” destroçadas, restos, tábuas de Nau à deriva no mar de sargaços que é a angústia geral, tábuas podres há muito desprendidas d’Os Lusíadas!

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