CONFERÊNCIA “O QUE NÓS TEMOS APRENDIDO COM A CRISE E O QUE FALTA FAZER”, por RICHARD L. TRUMKA

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Na Conferência sobre ” o que nós temos aprendido com a crise e o que falta fazer” o texto de abertura do Presidente da AFL-CIO, Richard L. Trumka.

Richard L. Trumka • 20 de Junho de 2014 • Washington, D.C.

 Parte I

É óptimo tê-los todos aqui. Antes de começar, eu gostaria de agradecer a Pia Bungarten da Fundação Friedrich Ebert e a Gustav Horn do Instituto de Macroeconomia da Hans Boeckler Foundation pela parceria com a AFL-CIO em patrocinar a conferência de hoje.

Eu também quero saudar Michael Sommer, que recentemente deixou o cargo de director da Federação Alemã de Sindicatos para passar a ser o vice-presidente da Fundação Friedrich Ebert.

Antes de passar a ler a síntese das minhas notas, eu quero dizer algumas palavras sobre a nossa querida amiga Pia.

Depois de cinco anos a dirigir a representação da Fundação Friedrich Ebert em Washington, Pia voltará em breve para a sede da Fundação em Bonn onde aí irá assumir uma posição de liderança. Esta conferência pode ser mesmo o seu último evento público em Washington.

O ganho de Bona poderá ser a perda de Washington, e é na AFL-CIO especialmente que se está já a sentir essa perda. Ao longo dos últimos anos, a Pia tem sido uma verdadeira cidadã-embaixatriz da Fundação Friedrich Ebert, para o Partido Social-Democrata alemão e para a própria Alemanha. Ela sempre promoveu um diálogo muito rico e significativo sobre a economia e a política externa e sempre esteve ao serviço das mais fortes relações transatlânticas. Essas relações são verdadeiramente um pilar essencial para a paz no mundo paz e para uma prosperidade partilhada.

Aqui está uma coisa que deve ser reconhecida: política e economia são trabalhos de equipa , mas às vezes uma pessoa pode fazer o campeonato inteiro a jogar melhor, e foi isso que fez Pia no que diz respeito a qualidade das nossas conversas políticas e à profundidade das relações entre os movimentos de trabalhadores alemães e americanos.

Pia, obrigado pelo seu espírito, pela sua integridade, pelas suas ideias e pela sua ética de trabalho e boa sorte para a sua nova missão. Pia será sempre bem vinda na AFL-CIO, e espero que se mantenha em contacto connosco e que continuemos a trabalhar juntos.

Meus amigos, por favor juntem-se a mim para uma salva de palmas para Pia Bungarten.

No ano passado, realizámos duas conferências: uma primeiro em Washington e depois uma segundo em Berlim. As conferências tinham um tema — A Agenda de Trans-Atlantic para a prosperidade partilhada.

A nossa tarefa, a nossa responsabilidade, é de tomar as ideias políticas expressas nas conferências do ano passado e encontrar maneiras de as pôr em prática nos Estados Unidos e na maior economia da Europa.

A crise financeira de 2008 e a grande recessão que se seguiu são os piores eventos económicos desde a grande depressão da década de 1930. E na realidade esta crise ainda não acabou. Há um mês atrás, vimos que o Banco Central Europeu adoptou taxas de juros negativas para tentar evitar a ameaça da deflação em toda a UE. E ainda, também muitos na imprensa, nos grupos de reflexão e acima de tudo, em cargos de direcção política, viraram-se para a mentalidade de pré-crise.

Francamente, essa mentalidade tem levado a falhas políticas importantes, provocando sofrimento desnecessário em milhões de trabalhadores, homens e mulheres e famílias que perderam as casas e empregos, e quem irá suportar a dor desta grande recessão pelas próximas décadas ainda.

Na Europa, todos nós sabemos qual foi o preço de austeridade como uma resposta à crise económica — uma interminável crise económica e, no lado político, o reaparecimento do autoritarismo de direita conservadora e reaccionária e com os eleitores a perderem a confiança na própria democracia.

O que é menos conhecido é como é que essas mesmas idéias prejudicaram os Estados Unidos.

Levou mais de seis anos – seis anos – para que a economia dos EUA alcançasse o mesmo número de empregos que tínhamos antes de começar a grande recessão. A taxa de desemprego continua teimosamente alta em 6,3%, que é igual a taxa de pico durante a recessão no início de 2000.

Mas a taxa de desemprego não é a medida total do que se passa com os nossos mercados de trabalho. Mais e mais pessoas estão a ficar totalmente fora do mercado de trabalho. A taxa dos trabalhadores elegíveis na força de trabalho diminuiu para cerca de 63%, que é tão baixa como o era na década de 1970.

E mais importante ainda, a austeridade significou anos de estagnação dos salários reais para a maioria dos trabalhadores na América. Mas isto não é nada de novo — a supressão de salários tem estado no centro da economia dos EUA desde a década de 1970. Ao longo de décadas desde então que temos visto apenas breves momentos com os salários a crescer, como foi o caso, no pico da dívida, a dinamizarem no ciclo de negócios o rebentamento da bolha que se vinha a criar, mas a estagnação tem sido a norma. Isto é uma patologia central na nossa economia, cujas estruturas — tudo isto desde a política comercial e a política monetária até às nossas leis do trabalho e emprego — foram projectadas para impedir os salários de crescerem em conjunto com a produtividade dos trabalhadores.

E agora vemos que essas mesmas estruturas estão a funcionar a uma escala global, mantendo o desemprego a nível muito alto, os mercados de trabalho nada dinâmicos e com pouca capacidade de negociação pela parte dos trabalhadores. O resultado é uma economia mundial fundamentalmente instável e disfuncional, onde a deflação é uma ameaça sempre presente, e o que se vê a crescer é somente as bolhas financeiras e o capital internacional a forçar os salários para níveis cada vez mais baixos .

Claro, se a economia global está ou não disfuncional, desarticulada, depende de que lado é se está a sentir a realidade. Para um número relativamente pequeno de pessoas, este sistema tem produzido riqueza bem para além dos sonhos de Midas. E isso faz com que muitos dirigentes políticos estejam ansiosos para encontrar políticas económicas que satisfaçam simultaneamente essa elite económica global e de alguma forma enfrentem a questão da desigualdade. Mas não há nenhuma maneira de fazer isso, [de satisfazer os dois lados na repartição do mesmo “bolo” que é o rendimento].

Vemos isto na esquizofrenia das grandes instituições económicas internacionais como o Fundo Monetário Internacional e a OCDE. Como já o afirmei algures, na segunda eles condenam a desigualdade e apelam para uma prosperidade partilhada e na terça-feira defendem as políticas de austeridade e atacam os direitos dos trabalhadores.

Aqui, nos EUA temos uma versão específica deste problema — nostalgia pela década de 1990. Os anos de 1990 foram um período de tempo e durante uns breves anos em que parecia que a especulação financeira, na verdade, poderia levar a que os salários pudessem crescer— ou seja que a plutocracia poderia, e bem, trabalhar em benefício de todos nós. Mas é claro hoje que aqueles anos foram apenas uma fase duma espiral descendente — uma economia construída na queda dos salários e na redistribuição de rendimentos dos que trabalham para os ricos, feita tolerável com episódios breves de prosperidade impulsionadas por bolhas de activos. A década de 1990 pode parecer como uma década de prosperidade no papel, mas isso era prosperidade falsa alimentada por uma bolha através do endividamento e da financeirização e enquanto isso com a política comercial imposta pelas grandes empresas e com o enfraquecimento do poder de negociação salarial corroíam-se as bases da prosperidade partilhada. Era o tipo de prosperidade que todos nós acabamos por pagar, finalmente, através duma crise financeira e dum colapso da economia.

Nós não podemos andar a perder mais tempo à procura de encontrar um terreno comum entre a democracia e a plutocracia.

(continua)

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