OS MEUS DOMINGOS – ANTROPÓFAGOS – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

I

 

Todas as manhãs, quando acordo, a minha criada de quarto, selvagem domesticada das bandas da Póvoa de Lanhoso, põe em movimento o fonógrafo que tenho arrecadado na sobreloja da minha mesa de cabeceira de mistura com alguns vasos etruscos de uso caseiro e, durante dois ou três minutos, o meu espírito recém-nascido se delicia invariavelmente com a Réverie de Schumann. Alguns dos meus biógrafos têm morrido sem conseguirem apurar a razão da minha preferência musical. Muitos outros hão de falecer na mesma ignorância e eu próprio não saberia explicá-la. Sou assim desde os sete anos e aquele trecho do saxónio melodioso atrás citado é tão necessário ao meu bom humor que, tendo sido acordado há anos por uma filarmónica, atacada de alienação instrumental, numa madrugada muitíssimo comemorativa e aos sons do nosso hino – trata-se da Portuguesa e não do nó suíno que as porcas dão quando torcem o rabo – o caso foi que nesse dia ninguém viu florir um sorriso no meu lábio irónico e, à tarde, a minha família foi encontrar-me completamente neurasténico a escrever um drama histórico em cinco actos.

Tendo gargarejado assim o espírito, mando correr as tapeçarias que cerram as janelas espaçosas. A luz cegante do dia entra a jorros amarelos. Sento-me num gesto cheio de donaire, tiro a coifa de rendas de Veneza com que de noite retenho os anéis revoltos do meu cabelo louro e, tendo-me espreguiçado longamente, faço um sinal cabalístico de antemão ajustado com o pessoal menor. São introduzidos imediatamente o meu café com leite e o meu secretário particular. Este é um rapaz pouco inteligente, mas trabalhador, que hei de apresentar a V. Ex.as qualquer destes dias e escreve os meus artigos e as minhas peças mediante uma retribuição, modesta sim, mas suficiente para os seus méritos, que são poucos. O meu secretário, enquanto mastigo com um ar distraído as torradas do meu primeiro almoço, lê-me os jornais ou, por outra, o que lhe parece dever interessar-me nas gazetas.

Uma destas manhãs descobriu ele o seguinte telegrama:

Londres, 2 – Comunicam de Brisbane, cidade da Austrália, que o mineralogista alemão Wanter, que partira para a Papuásia em busca de rádio, foi devorado pelos antropófagos.

O meu esforçado colaborador continuou a sua leitura e eu fiquei cismando no caso. Conheço a Papuásia como os seus dedos. Antigamente ia para lá todos os anos a banhos e, recordando esses dias felizes da minha descuidosa infância, vi logo como as cousas se tinham passado.

 

11 de Março de 1923

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