CONFERÊNCIA “O QUE NÓS TEMOS APRENDIDO COM A CRISE E O QUE FALTA FAZER”, por RICHARD L. TRUMKA

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Na Conferência sobre ” o que nós temos aprendido com a crise e o que falta fazer” o texto de abertura do Presidente da AFL-CIO, Richard L. Trumka.

Richard L. Trumka • 20 de Junho de 2014 • Washington, D.C.

 Parte II

(conclusão)

E embora isso possa ser uma mensagem difícil aqui em Washington, quando se sai de Washington, verifica-se que toda a gente está cansada do estatuto de uma economia que só funciona para uns poucos privilegiados. Na semana passada, um republicano que é o líder parlamentar da maioria na Casa dos Representantes, Eric Cantor, participou nas eleições primárias em Washington e os seus eleitores votaram em massa no seu adversário, um desconhecido professor universitário de economia, David Brat, candidato do Tea Party [1]. Os especialistas ficaram loucos a quererem perceber a razão deste resultado, mas isto é para mim tão claro como o dia. Eric Cantor fez o jogo de Washington até ao limite do impensável, e como o seu adversário frequentemente disse, ele era o homem que colocou o “compadrio” no “capitalismo de compadrio”.

As pessoas em geral estão doentes e cansadas deste jogo — não importa se somos Democratas ou Republicanos. Estamos fartos disso. E nós descobrimos que todo o jogo é feito para que os nossos salários não melhorem enquanto um punhado de pessoas ficam fantasticamente ricas. E então eu tenho boas notícias, porque aqui, na América, milhões de pessoas estão a encontrar uma saída construtiva para a nossa insatisfação e para a nossa .raiva. Olhe-se para o crescimento da solidariedade entre os trabalhadores de fast-food, entre os trabalhadores de remuneração ao dia, , entre os motoristas de táxis, entre os escritores de guiões para a TV, entre os trabalhadores de Walmart, entre as empregadas domésticas, entre os trabalhadores dos hotéis e assim igualmente para muitos outros tipos de empregos.

Ao mesmo tempo os nossos amigos alemães dizem-me que muita gente na Alemanha reconhece que quando os trabalhadores têm uma opinião de verdade sobre a economia a economia funciona melhor. E assim embora a Alemanha tenha um governo de coligação, o governo está a avançar no sentido de criar um salário mínimo que será situado perto de US $12 por hora e ao mesmo tempo encara aplicar medidas para fortalecer a negociação colectiva e a participação dos trabalhadores na gestão das empresas.

Em cada grande economia, quando nós colocamos a questão: “O que é que nós já aprendemos com a crise?” levantamos imediatamente uma outra pergunta: “Quem é este “nós”?”

As elites económicas parecem ter aprendido que eles podem ir até onde quiserem como o fizeram antes da crise, acumulando riqueza que os outros criaram. Alguns políticos parecem pensar que podem manter-se a trabalhar com objectivo de levar a água ao moinho destas elites económicas e ainda obter os votos da maioria cujos rendimentos continuam, por isso mesmo, em queda. Isso, parece-me, foi o erro de Eric Cantor. Outros, os verdadeiros dirigentes, respondem a esta grande escolha com uma resposta clara— a prosperidade partilhada, o aumento de salários, uma democracia restaurada devem ser as primeiras prioridades.

Hoje, iremos ouvir um destes líderes, o Presidente da House Progressive Caucus, Keith Ellison. Keith, como a senadora Elizabeth Warren e Sherrod Brown e os prefeitos Bill De Blasio, Marty Walsh, pessoas que se opõem claramente à plutocracia. Estes dirigentes têm soluções que vão além dos ódios e das míticas ideologias que inspiram o radicalismo de direita, aqui nos USA e na Europa. No centro dos seus programas está uma grande ideia — e a ideia é a da prosperidade partilhada.

Os trabalhadores estão prontos para trabalhar — para calcetarem a via — para os líderes políticos que podem mostrar o que eles já aprenderam com a crise. E a América começou a ter um debate nacional de há muito tempo esperado. Se ouvissem as classes tagarelando em D.C., ouviriam os ecos do debate no distrito de Cantor. Queremos que este debate se faça em cada concurso para os cargos de direcção federal e estadual, em cada país e para a direcção de cada Organização Internacional. Nós queremos uma resposta à simples pergunta: O que é que nós queremos fazer para que a nossa economia global apareça a proporcionar a partilha da prosperidade?

Queremos que seja uma plantação? Ou uma comunidade?

Esta é uma questão séria , porque numa época de integração económica e financeira global, de catástrofes climáticas eminentes, de problemas ambientais que se tornam problemas económicos que a seguir se tornam problemas de segurança nacional numa questão de dias, o nosso mundo simplesmente não pode continuar a pagar o modelo de plantação por mais tempo. É uma receita para a catástrofe. Em poucas palavras, essa é a lição da crise económica.

E o que é que a comunidade parece? Todos vocês irão discutir isso hoje em detalhes, mas deixe-me oferecer algumas sugestões.

E com o que é que a comunidade se parece? É do que se irá falar hoje e em detalhes, mas deixem-me oferecer algumas sugestões.

Primeiro, numa comunidade, há pleno emprego e toda gente tem acesso a um bom trabalho com condições dignas numa economia onde os salários sobem com a produtividade.

Em segundo lugar, numa comunidade investe-se em bens públicos – as coisas que nos fazem a vida o melhor possível para todos nós – como estradas e pontes, desde o transporte ferroviário de alta velocidade à energia limpa e às as escolas de nível mundial. E isso deve começar tornando-se seguro de que todos no nosso planeta têm acesso ao que é básico na vida moderna –desde água potável ao acesso à Internet.

Em terceiro lugar, numa comunidade todos nós temos uma voz, no trabalho e nas urnas de voto. E uma voz no trabalho, significa o direito de negociar em conjunto, como verdadeiros sindicatos, com os nossos empregadores.

Em quarto lugar, numa comunidade todos nós pagamos a nossa justa parte de impostos.

E talvez os mais importantes, numa comunidade global, estes princípios aplicam-se em todos os lugares. Numa comunidade global não deve haver nenhum espaço para os paraísos fiscais ou para os pequenos principados onde os ditadores e monarcas hereditários torturam os trabalhadores que exigem um salário mínimo nem para as grandes potências económicas mundiais que constroem a riqueza das suas elites nacionais empobrecendo e silenciando os trabalhadores e, por esta via, gostaria que cada um pense cuidadosamente sobre que países poderia eu estar a colocar nessa última categoria

Se defendemos estes princípios, podemos criar um novo e global NEW DEAL que anuncie um novo dia para a Democracia e para a prosperidade partilhada. E isso seria um legado da crise que vale a pena defender.

Eu espero que hoje possamos debater a agenda no quadro destas linhas que acabo de esboçar . Tenho a certeza que muitos de vós têm as vossas próprias agendas para esta discussão. O que eu espero é que nós tenhamos em comum aqui é que a nossa resposta para a pergunta sobre o que aprendemos com a crise é a de que devemos efectuar mudanças económicas estruturais e fundamentais se queremos refazer a economia global como uma comunidade e não como uma plantação.

Agora, como se pode ver pelo programa, nós reunimos um grupo excepcional de economistas para nos falarem sobre estas questões. E ao almoço iremos ouvir dois ilustres políticos – o congressista Keith Ellison, que é co-presidente da bancada progressista do Congresso e Michael Sommer, quem é o vice-presidente da Fundação Friedrich Ebert e ex-presidente da Confederação Sindical alemã.

A AFL-CIO sente-se profundamente honrada em ter o privilégio de co-patrocinar uma reunião tão distinta de legisladores e de economistas .

Richard L. Trumka, At the Conference “What Have We Learned from the Crisis and What Remains to be Done?”, 20 de Junho de 2014 • Washington, D.C.

http://www.aflcio.org/Press-Room/Speeches/At-the-What-Have-We-Learned-from-the-Crisis-and-What-Remains-to-be-Done-Conference

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[1] Nota do Tradutor. Esta questão é muito séria exactamente pelos argumentos levantados, pelo facto do candidato vencido ser Eric Cantor e não tanto pelo facto do vencedor ser um ilustre desconhecido. Sublinhem-se aqui duas declarações, a primeira de Brat e a segunda de Ingraham.

1. The American people want to pay attention to serious ideas again,” Mr. Brat said, speaking on Fox News. “Our founding was built by people who were political philosophers, and we need to get back to that, away from this kind of cheap political rhetoric of right and left.”

2. Ms. Ingraham, one of the few high-profile conservatives to put her muscle behind Mr. Brat, said that the primary results were “an absolute repudiation of establishment politics” and that Republican leaders should take note.

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Para ver a parte I desta conferência de Richard L. Trumka, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/08/03/conferencia-o-que-nos-temos-aprendido-com-a-crise-e-o-que-falta-fazer-por-richard-l-trumka/

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Sobre este será de ler também o texto OBAMA DEVE IGNORAR OS GUERREIROS E CENTRAR-SE NA ECONOMIA – por KATRINA VANDEN HEUVEL. Vão a:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/07/12/obama-deve-ignorar-os-guerreiros-e-centrar-se-na-economia-por-katrina-vanden-heuvel/

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