Na edição de 3 de Agosto do El País, dizia o colunista Manuel Vicent que “para um intelectual, ser acusado de anti-semita é um estigma difícil de suportar”. Perante as imagens cruéis que os noticiários televisivos mostram todos os dias como se pode acusar de anti-semitismo quem condena o monstruoso crime que os militares israelitas estão a cometer? Neste momento penso que ser acusado de sionismo constitui estigma mais profundo. Até porque os «argumentos» de quem defende a ofensiva sobre a Faixa da Gaza começam a raiar o delírio, a imbecilidade e se apoiam sobretudo em mentiras e numa «reconstrução» fantasiosa da História.
Há fundamentalistas islâmicos que reclamam o Al Andalus como sua velha pátria. Todos sabemos que os Árabes ocuparam grande parte da Península durante mais de sete séculos, criando aqui uma civilização de um grande esplendor. Mas, uma coisa é cometermos o erro de ignorar uma parte do nosso passado histórico, outra coisa é tentar reconstituí-lo. E outra coisa ainda, essa perfeitamente disparatada, seria considerar que o facto de terem ocupado este território durante quase oito séculos confere aos muçulmanos o direito de voltar como seus proprietários. Porque antes dos Árabes, estiveram os Romanos, e antes destes os Fenícios, os Gregos, os Cartagineses e antes desses…
Pois, esta situação que aplicada à nossa terra logo vemos ser absurda, passou-se com os Palestinianos. Num livro religioso muito antigo e com o qual eles nada têm a ver, está escrito que ali foi o berço de Israel. E que um deus que não é o seu prometeu a terra que lhes veio dos antepassados a um povo estrangeiro. E, assim, foram desapossados das suas casas, das suas terras, das suas árvores…
Hoje, o Estado de Israel é um país da Ásia Ocidental situado na margem oriental do Mar Mediterrâneo, com uma área de 20 770 / 22 072 km². As suas fronteiras não fixadas oficialmente, situam o Líbano a Norte, a Síria e a Jordânia a Leste e o Egipto a Sudoeste. A Cisjordânia e a Faixa de Gaza, confinam também com Israel. Tem uma população de cerca de 7,5 milhões de habitantes, dos quais 5,62 milhões são judeus. Dentro do segmento árabe, predominam os muçulmanos, havendo ainda cristãos, drusos, samaritanos e outros. Israel, gostemos ou não, é uma realidade.
O problema judaico tem origens remotas, pré-bíblicas, de que todos já ouvimos falar. Hoje queria apenas lembrar como é que a questão surgiu, no seu formato contemporâneo. O sionismo (palavra com origem em Sion, uma colina da antiga Jerusalém), eclodiu na Europa em meados do século XIX como reacção ao anti-judaísmo que nunca deixou de se verificar. Elitistas, usurários, concentrando grandes fortunas nas suas famílias mais poderosas, os judeus, com os pobres pagando por tabela os pecados dos ricos, sempre provocaram ódios e rejeições. É preciso dizer-se que o anti-judaísmo, condenável como o são todos os sentimentos xenofóbicos, tem na xenofobia judaica uma das suas raízes. Não só, mas também.
As comunidades hebraicas, segregadas, perseguidas, sonhavam com uma pátria judaica. O sionismo, eivado de religiosidade, propugnava o regresso dos hebreus a Israel. Sonhar com Israel confortava os perseguidos e segregados judeus. Quando da expulsão dos reinos da Península, a maioria emigrou para a Europa, mas alguns foram para a antiga Judeia. Desde o século XV, a cidade de Safed tornar-se-ia um importante centro de estudo da Cabala. Foi no século XIX que a afluência de colonos judeus à Palestina foi mais significativo. Em 1844, estando o território integrado no Império Otomano, a maioria da população da cidade de Jerusalém, era já hebraica. Conviviam sem problemas com muçulmanos, cristãos, gregos, arménios. Na segunda metade do século, a migração judaica continuou, agora proveniente sobretudo da Europa Central. Theodor Herzl, jornalista húngaro, também ele de origem judaica, publicou em Viena o livro “O Estado Judeu”. A ideia de uma «pátria judaica» seduziu os judeus espalhados pelo mundo. Os mais aventureiros e crentes, começaram a chegar à Palestina. O conceito de kibbutz (granja colectiva) consolidou-se depois de criado o primeiro, que se chamou Mikveh Israel (Esperança de Israel), fundado em 1870. Os sionistas, impregnados de fervor religioso e patriótico, defendiam a ideia de um estado hebraico que ocupasse o território definido no Antigo Testamento, o que implicaria a absorção da Jordânia. Foram propostas alternativas na Patagónia, em Chipre, no Uganda e até em Angola.
Na realidade, em 1912, o deputado Manuel Bravo apresentou no Parlamento português uma proposta para ser criado em Angola, no planalto de Benguela, um colonato judaico com cerca de 45 000 Km2 (sensivelmente o dobro da área do Estado de Israel). A proposta foi aprovada e no, ano seguinte, ratificada pelo Senado. Porém, a Jewish Territorial Organisation, que fez uma visita ao território, recusou o projecto. Terminada a I Guerra, com a queda do Império Turco, a Palestina passou para administração britânica. E este pormenor fez toda a diferença. Em 2 de Novembro de 1917, pela Declaração de Balfour, a Grã-Bretanha assumia perante a comunidade hebraica o compromisso solene de edificar na Palestina o ambicionado «lar judaico». O documento, enviado ao Lord Rothschild, presidente na British Zionist Federation, foi assim chamado por ser assinado pelo então secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour.
Dizia: “Caro Lord Rothschild, “Tenho o grande prazer de endereçar a V.Exª., em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia quanto às aspirações sionistas, declaração submetida ao gabinete e por ele aprovada: O Governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um Lar Nacional para o Povo Judeu, e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objectivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das colectividades não-judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.
“Desde já, me declaro extremamente grato a V.Exª. pela gentileza de fazer chegar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista. “Arthur James Balfour.”
Só pela reacção violenta dos árabes, depois de 1920, a Grã-Bretanha percebeu que para resolver um problema, criara outro. Tentou emendar a mão e voltar atrás com a promessa ou, pelo menos, reduzir-lhe o alcance, pondo alguns entraves à migração de judeus para o território. Depois, a II Guerra e o Holocausto reforçaram a ideia de que uma pátria judaica era essencial. Na Palestina, os árabes reagiam com violência à ideia. Mohammad Amin al-Husayni, Grão-Mufti de Jerusalém aderiu ao nazismo e incentivou a realização de pogromes. Hebron, Jafa e Haifa foram palco de incidentes graves. Em 1921, depois do massacre de numerosos anciãos judeus em Hebron, foi fundada a Haganá, com o objectivo de proteger as comunidades judaicas na Palestina. Da Haganá saiu o Irgun, em 1931. O Irgun especializou-se no ataque a alvos militares britânicos.