Remexendo em livros antigos, peguei no Conhecimento do Apocalipse de Paulo Teixeira, de 1988, numa edição da : & Etc.
Apesar de ter nascido em Moçambique, foi pela Europa que mais andou em trabalho (escritor residente em Saint-Nazaire (França) e em Berlim, a convite dos Serviços Culturais Alemães). Sabe, então, do que fala.
O seu livro Inventário e Despedida recebeu vários prémios: Prémio Eça de Queirós do Município de Lisboa (1992), Prémio Pen Club (1992) e Grande Prémio Inasset/Inapa de Poesia (1991). Podemos assinalar outros prémios: Prémio Literário Ano Internacional da Juventude (1985 (com As Imaginações da Verdade) e Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1983 com Epos).
É membro da fundação Luís Miguel Nava e foi traduzido para inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e checo.
O poema A TERRA SEM LEGENDA começa com uma pequena citação de Paul Valéry: “L’Europe deviendra-t-elle que qu’elle est en réalité, c’est-à-dire : un petit cap du continent asiatique ? »
1
Estes lugares onde a história se escreveu
tantos séculos vacilam hoje entre opressões
familiares, iras permutáveis, indolências
tão vagas sob o peso de estátuas e candelabros
tantas vezes julgados inquebrantáveis. Erguidos
na sombra de uma outra idade de trevas, pela mão
de silentes escultores de uma memória tão prezada
que é quase ela nós mesmos: em Triers,
Chartres ou Poitiers. É aqui o coração
prestes a emudecer. A mente desprevenida
não modela no terror a sua camuflagem,
perseguida só no sonho (que sonho não seria)
de se perder entre a precisão magnética
dos seus relógios e a presença hermética de colunatas
que se ergueram para celebrar uma permanência
exausta entre ouro e pedras preciosas:
sobre famintos te debruças, eles que virão,
se puderem, roer-te o próprio coração.
2
Coberta de folhas e reticulados sonhos,
a noite conhece a noite indiferente
do nosso dia, o drama de viver séculos
de ontens em quartos sem lugar
para o estertor e a queda de renovados heróis.
Silêncio onde a imagem de uma decadência
infinitamente dilatada toca uma caligrafia
errante que desenha dias ainda não contados no papel.”
Escreveu-o há 26 anos atrás, recém chegados à União Europeia, com tantas ilusões pairando no ar. Mas não na cabeça do autor.


