CONTOS & CRÓNICAS – “habemus pacem” – por Adão Cruz

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Magnífica surpresa nesta saga de poetas para as cinzas nocturnas

Há um labirinto de -ismos que se entrecruzam de pontes sobre um rio seco ou rio desviado para lá de mim lago de silêncio com a cidade ao longe regateando simbolismos de esferas ocas semeadas pelo parque monumental parque de outros -ismos já mortos à espera de uma ressurreição sob o reflexo de mil janelas empoleiradas nos altos muros da cidade virtual em serena ode à quietude universal

Ali na esquina há fumo branco e o estribilho feroz de um surrealismo macabro de um débil concretismo experimentalista hermeticamente grosseiro gritando aos ares habemus pacem

Na deserta anatomia do silêncio onde outrora a poesia já morou grita bem alto o histórico fóssil da verdade em pedaços de vida fumegante e monstruosas resmas de páginas em silêncio montanhas de nomes a apodrecer entre escombros de pensamentos que embrulharam a consciência adormecida durante séculos inglórios sufocos de ar emoldurados de paz e de vida

Lida a vida a vida inteira em semânticas fraudes simbolísticas este atalho de fim de mundo nada encurta e tudo alonga

Verdadeiro a correr e a cantar esgueirando pela rua a frágil seara do corpo só o paraplégico fazendo cavalo na cadeira de rodas verdadeiro apenas aquele gajo sujo de vanguardas audazes colado à soleira numa caixa de cartão mostrando os dentes que não tem em arremedo de sorriso de ilusão

Por isso o poeta é um descalabro à procura de se erguer nem sequer é um fingidor enrodilhado em sublime consciente atrofiado

O poeta é uma merda

Cada vez mais me enjoam os poetas na sua ambiguidade de tempo e espaço no vazio da sua mentirosa e teatral ausência

Abrandado o tempo na escassez da vida nem da vida o poeta se dá conta

O poeta é um cego com ares de quem tudo vê o poeta é ridículo inventa céus que não existem engolindo patéticos peregrinos nos buracos negros das palavras

Diz aquilo que ninguém entende para mostrar o que não sabe fecha os versos no escuro como se branca fosse a noite inteira

O poeta finge que diz o que mente naquilo que não vê o poeta ingénuo chama-lhe deslumbramento criativo contemporâneo cuspindo para o lado a lógica discursiva da normalidade sintáctica

Não sabe que à volta do fumo se juntam quatro caminhos ainda que nenhum deles tenha princípio ou fim e há um atalho de fé sem madrugada sobre as areias movediças da maldição onde inexoravelmente se afogam a mente e a razão

Entre a apriorística rejeição dos ismos como bandeiras de vazio e a sublime depuração da beleza exaltante da poesia eternamente perdido entre o silêncio e a palavra o poeta não passa de um dilema

Por mais agudo que seja o grito da verdade se ele não traduz a alma e a força da existência não há verdade na essência do poema

 

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