A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 6 – por Carmen Maria Serralta

(continuação)

 3. 4 – Para os Commentaries em The Aleph and Other Stories

              Nos “Comentários” para o conto “O Morto” em O Aleph e Outras Histórias[1], lê-se a impressão que lhe causou a viagem pelo norte do Uruguai, beirando a fronteira brasileira:

            Tudo o que então presenciei – as cercas de pedra, o gado de chifres longos, os arreios de prata dos cavalos, os gaúchos barbudos, os palanques, os avestruzes – tudo era tão primitivo e até bárbaro que mais estava para fazer uma viagem ao passado que uma viagem através do espaço. (Di Giovanni, 1970, p. 271.)

Borges - XII

 

               Borges, até janeiro de 1934, jamais tinha tido experiências de violências pessoais. A violência era ainda um componente narrativo como os da História Universal da Infâmia. A fascinação pelas brigas de punhal, faca, as lutas de espada, e a participação que ele via épica de seus antepassados – nas guerras pela independência sul-americana, nas guerras civis, no cerco da cidade de Montevidéu, onde um avô seu, então muito jovem, com quinze anos, a defendeu contra Oribe (aliado do ditador Rosas) – faziam parte de sua mitologia particular. No Autobiographical notes,[2] o escritor argentino conta que tem antepassados militares e isso talvez explique sua nostalgia de um destino épico que as divindades lhe negaram, sem dúvida sabiamente.

            Por contraste, a morte de que foi testemunha em Santana – arbitrária e bárbara, – agregada à novidade de um primitivismo humano anacrônico, já antes observado por ele na região da campanha, não somente impressionaram o visitante Borges como deixaram reflexos em vários contos seus, apontados, como se viu há pouco, por María Esther Vázquez, entre outros.

            Uma viagem que prometia ser corriqueira, quem sabe até monótona e desinteressante, acabou sendo uma experiência que lhe revelou, de maneira insuspeitada, uma realidade de vida gauchesca diferente, tanto da realidade familiar da sua Argentina natal como da sua também conhecida região sul do Uruguai. Enquanto Borges percorria aqueles campos do norte uruguaio, vizinhos à fronteira brasileira, era como se o tempo houvesse se anulado e o passado estivesse se perpetuando no presente. E, alguns dias depois, o inesperado disparo de dois tiros, num café: A vida própria e alheia valiam tão pouco que se matava por uma irritação casual e momentânea; às vezes por menos. [3]

          O escritor conhecia a fundo o tempo histórico da época descrita por Sarmiento em seu livro clássico Facundo. E mais, compartilhava da tese ali exposta, achando-a exata em relação à realidade histórica de seu país. Tempos do famoso conflito argentino entre “civilização e barbárie”. Por isso não é difícil imaginar que Borges, ao “presenciar” de forma concreta a barbárie reencarnada nos gaúchos avistados na vasta extensão daqueles campos orientais, tenha tido a sensação de reatualização de um passado remoto, de revivência do choque entre “civilização e barbárie” que marcou também, e muito, sua história particular familiar. Para reforçar a impressão de cenas que lhe evocavam aqueles tempos violentos, ele constata, não sem assombro, a impunidade do assassino, “intocável para a justiça”, comprovada por ele e Amorim no dia seguinte e no mesmo local. Lá o assassino “tomava um trago” ou “jogava cartas”- variantes do episódio –, fato que, certamente, veio realimentar a impressão de uma viagem ao passado, tantas vezes por ele assim lembrada. Além disso, só com o passar do tempo Borges chegou a se dar conta de que aquelas terras “fronteiriças e selvagens o haviam impressionado ‘muito mais que todos os reinos do mundo e sua glória’”.[4]

               Essa foi a porta – nada estreita – pela qual Jorge Luis Borges entrou pela primeira vez no Brasil. E tal acontecimento se deu – busco usar suas palavras, mesmo pertencendo a outro contexto – devido a uma inusitada trama de circunstâncias e a uma intrincada concatenação de causas e efeitos. O tema de uma armação de causas e efeitos, cujo sentido escapa aos seres humanos e determina possibilidades infinitas de consequências, é um motivo recorrente em Borges.

Borges - XIII

 

(continua) 

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[1] Editado e traduzido para o inglês por N.T. di Giovanni. New York, Dutton, 1970, p. 271.

[2] Escrito em inglês na revista The New Yorker, 1970, segundo Borges, São Paulo: Globo, 2000, p. 7.

[3] Vázquez, 1996, p.132.

[4] Williamson, 2006, p. 241.

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