Ainda que as injustiças sociais e as maldades da ditadura, na sua distante pátria, o apoquentassem, o que o indignava e aborrecia era a falta de acções directas contra o regime.
Foram estes dois sentimentos (indignação e aborrecimento) que o levaram a adquirir a pistola. Proveniente da guerra civil, comprou-a a um velho refugiado espanhol, que lhe contou interessantes histórias acontecidas em torno da arma. Fora “recuperada” a um oficial franquista durante os recontros na passagem do Ebro. Tinha na sua biografia algumas mortes em combate. Guardara, numa noite fria e ventosa, dois amantes ao luar… – O instrumento quase não era uma pistola, era uma página da resistência antifascista e antifranquista.
A partir do dia em que comprou a arma, a vida tornou-se-lhe suportável. Sofria tudo. Do interior da sua solidão, como detrás de uma barricada, ostentava a pistola, como se esta fosse um sabre, e ele o cavaleiro galopando “à carga” em defesa de humilhados e ofendidos: – Já não estava sozinho.
Ser proprietário da pistola… – era ter um talismã revolucionário. A pistola tornou-se-lhe uma razão de ser, um imperativo categórico de ordem política. O resto, quase nada. Fundamentado na existência da pistola como sua propriedade, conseguiu juntar-se a um grupo de exilados que tinham também algo em comum: – Todos diziam ter uma arma ou possuíam-na mesmo, com o objectivo de iniciarem (saberia Deus quando e como!) a acção directa. As mulheres do grupo guardavam as armas dos amantes debaixo da cama. Como se pode verificar a divisão natural de tarefas estava bem montada. Depois… Depois, passava o tempo e nada sucedida, a não ser a mudança das amantes e, supostamente, a continuidade da propriedade individual das armas dos membros do grupo…
Simões, assim se chamava, organizou a sua vida em função da pistola. Começou a ser “alguém” entre os exilados… porque tinha uma pistola. Com base na arma, tomava a palavra em reuniões onde, até então, nunca dissera nada. A propósito de tudo e nada alvitrava incursões armadas ao país. Aventava com a ideia da organização de “comandos”, segundo o modelo da resistência francesa durante a ocupação nazi… Mas ninguém queria de facto ser resistente, uma vez que se contentavam em ser exilados: – Nestas ocasiões, Simões, o “pistoleiro” ficava a falar sózinho!
Um dia, no café «Au bonheur des dames», próximo do «Pont Neuf», conheceu uma jovem parisiense repleta de tédio, que imaginava amar Che Guevara e todo o tipo de guerrilheiros sul-americanos: – Confessou-lhe que ele também era uma espécie de guerrilheiro, embora em situação estacionária. Até tinha arma e tudo. E a pretexto da arma, a rapariga deixou-se levar até à sua mansarda, naquela noite fria.
A pistola devolveu-lhe tudo o que os últimos anos de exílio lhe haviam furtado… A cadeia de montagem na fábrica de automóveis já não o dobrava: – Quando chegava a casa, abria a caixa de madeira e via-a mais uma vez. Olhava-se ao espelho de pistola em punho: – Como se fosse modelo de “pistoleiro”, num estúdio de fotografia para cartazes de filmes! Compensava-se!
Uma vez houve um intelectual que lhe falara em programa político… Com que direito lhe perguntavam por um programa? Então, não se estava a ver o “programa”?! Não sabiam que ele tinha a pistola?! O que vinha fazer ali um “programa?!
A pistola era o seu passaporte, o seu bilhete de identidade, o seu boletim de entrada na revolução… Nas noites de Inverno, embrulhado num cobertor, limpava a pistola (uma S & S, calibre 6.35 mm, carregador de 6 balas), que lhe cabia na palma da mão, escura, fria, acusando algum uso nas extremidades.
Não tinha nada de seu: – Só a pistola. Umas vezes por outras, de forma a manter vivo o seu prestígio e a realçar a sua posição política, exibia-a, muito em segredo, aos de mais confiança. Mas todos sabiam que ele era dos poucos que tinha uma pistola contra a ditadura.
Todos diziam «o Simões da pistola» ou, ainda melhor, com um gosto de cinema, «o pistoleiro». – Fazia que se zangava daquela coscuvilhice e quebra de sigilo, bem como do tom de chacota com que o nomeavam. No seu íntimo, supunha isso a credencial de valentia que os outros invocavam ao referirem-se à sua pessoa.
Com a propriedade da pistola, espezinhava para o fundo perdido das suas recordações todos os ultrajes, todos os desgostos, todas as desilusões, esse constante destilar de solidão que ia arrastando por todo o lado. A pistola era uma companhia.
Os seus ideais políticos estavam ainda no casulo. Mão não se lhe punha esa questão: – Estava mobilizado pela elevação do nível que a pistola emprestava à sua futura participação numa qualquer acção directa! Ele era o “Simões da pistola”, era «o pistoleiro» …
A pistola já tinha novas facetas no seu curriculum vitae: – Recentemente havia estado na origem de una cisão política!
Um dia quiseram que ele depositasse a pistola no esconderijo da “Organização” porque, uma vez que ele era membro, a arma era naturalmente propriedade colectiva!
«Nunca! Nunca!» … A pistola havia-a comprado a um companheiro espanhol, com o dinheiro ganho em horas extraordinárias na fábrica : – «A pistola era sua!».
Disseram-lhe: – «Sentido da propriedade privada»! Acrescentaram: – Reconsiderava, fazia autocrítica e admitia que a pistola era da “Organização” ou teria de ser expulso, banido, apontado a dedo como elemento indisciplinado, individualista…
Não, não era nada disso… Que seria dele sem a pistola?! Que faria ele no exílio sem a sua arma?! Como conseguiria passar as noites, olhando para a caixa da pistola vazia?!
Para ele a acção directa, a luta armada contra a ditadura, não tinha segredos… – Conhecia-a bem, como a palma da sua mão! Pois não tinha ele a pistola?! Sabia os defeitos desta. Via, por exemplo, quanto a mola começava a estar frouxa. Tinha-a estudado até aos minúsculos pormenores. Era era-lhe acessível como um ser vivo, um animal de estimação. Melhor que um cão de guarda! Os outros – Os outros fariam dela um objecto metálico guardado num canto qualquer. A arma haveria de estranhar a mudança, se tal mudança de dono se houvesse verificado. Os outros passá-la-iam de mão em mão, sem estima. Não lhe saberiam cuidar do corpo cansado. Não saberiam ver os vestígios de vida resistentes que ela ampliava. Os outros não a amariam, como ele! A pistola albergava longos trechos espanhóis, longas e heróicas batalhas estavam impressas na sua patina…
O que ele chorou agarrada à pistola! O que ele a acariciou! Um dia perguntou-se quando havia começado tudo… Já lá iam cinco anos… Uma verdadeira recordação de infância… Podia dizer: – «Obrigado pistola!» … Levou-a aos lábios…
Pelo fim da tarde, quando regressava à mansarda, viu um grupo de exilados que se debruçavam sobre um jornal:
«-O Movimento das Forças Armadas triunfou e anuncia a entrega do Governo a uma Junta de Salvação Nacional.».
Libertação, transformação da sociedade, restituir ao povo a sua soberania, eleições livres, liberdade de imprensa… Só conseguia reter o discurso dos que falavam de coisas mais próximas de si. Eis o que conseguia apurar, esclarecer… Um golpe de estado de feição democrática acabara de pôr termo a mais de 40 anos de ditadura… O Exílio deixou de fazer sentido: -Só se ouvia falar em voltar, regressar à pátria. Voltar?
Só ele não sorria perante o inesperado. Face ao desacerto do golpe militar contra o tirano! Entrou em casa… E ele e a pistola… Não tinha coragem de pegar na arma. Passaram tanta necessidade os dois…
Empalideceram-lhe as faces, os nervos vibraram numa angústia desconhecida e, no seu cérebro esquentado, fervilhou nesse instante uma ideia ruidosa: – Aquele “Movimento…” não sei quê, veio liquidar por uma imprevidência indesculpável o seu recurso de exilado… A queda da ditadura, que deveria obedecer à acção directa emanada da pistola, acabou numa fanfarra, numa festa, num esbanjamento de cravos vermelhos atirados ao ar… A queda da ditadura, a revolução, não era aquilo, não poderia ser aquilo… A sua pistola, e tudo o que com ela havia sofrido, tinham razão!
Abriu a caixa, retirou a arma, puxou a culatra atrás, encostou o cano ao parietal direito e premiu o gatinho: – O pequeno projéctil anti-ditadura ficou encravado! …
A arma havia envelhecido, já não conseguia acompanhar as ideias radicais do seu proprietário…
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