A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 10 – por Carmen Maria Serralta

PARTE III

(continuação)

  1. 4 – La Otra Muerte (El Aleph, 1949)

            Borges, no epílogo de El Aleph, escreve: “La Otra Muerte é uma fantasia sobre o tempo que urdi à luz de alguns argumentos de Pier Damiani”. Esse conto perfeito é um bom exemplo de um gênero engenhosamente explorado por Borges, no qual ensaio e ficção se misturam formando  um amálgama. O conto propõe a ideia de um passado passível de ser modificado e apresenta duas versões alternadas da vida e morte de um homem: Pedro Damián. As testemunhas esquecem o comportamento covarde desse personagem na cruenta batalha de Masoller[1] e substituem essa lembrança por uma morte heroica sonhada por ele em seu delírio. O teólogo dizia que Deus pode modificar o passado, contrariando a Santo Tomás de Aquino que afirmava: “nem Deus pode modificar o passado, ou fazer com que ele não tenha sido”. O conto aborda, entre outros, o grande tema do tempo – mais uma  das obsessões  borgianas.

             Cito, do livro, uma das mortes do Damián, a anti-heroica, na qual, em sua agonia, sonha a outra: a heroica. “(…) dom Pedro Damián tinha morrido noites antes, de congestão pulmonar. O homem, arrasado pela febre, revivera no seu delírio a sangrenta jornada de Masoller; a notícia me pareceu previsível e até convencional, porque dom Pedro, aos dezenove ou vinte anos, tinha seguido a bandeira de Aparício Saravia.[2] (…) “O som e a fúria de Masoller esgotavam sua história; não me surpreendeu que os revivesse, na hora da morte…” A outra morte, a heroica, imaginada por ele em  sua agonia, é aquela que agora passa a ser narrada pelas  testemunhas, que perderam a lembrança do comportamento covarde do pobre Damián em Masoller.

           Boa parte da narrativa desenrola-se na zona rural de Rivera, Masoller, lindeira à de Livramento, e não muito distante de nossa cidade. Lá corre mais uma linha da fronteira política entre os dois países. Por outro lado, o lugar poderia se referir a uma região polissêmica mais de ampliação do que de limitação de espaços, o que nos remeteria ao conceito de limes: um caminho entre dois territórios sem pertencer a um ou a outro, mas aos dois e definido por uma prática e não por uma lei. Não estamos longe do que o nosso ficcionista-viajante, Jorge Luis Borges, ao lembrar aquela viagem de 1934, contou: “Naqueles dias a fronteira entre o Uruguai e o Brasil, perto do campo de Amorim, existia, salvo por alguns acidentes naturais, somente nos mapas.” (Vázquez, 1996, p.132).

Borges - XIX

 

PARTE IV

 

8 – Depoimentos orais

 

A) O primeiro me foi dado por Julio López que fora coproprietário da antiga Casa América: bazar e livraria na cidade de Rivera. Livreiro perfeito à moda antiga, Julio juntava às recomendações literárias curiosidades e informações a respeito dos escritores. Assim fiquei sabendo, ao final dos anos 50 e início dos 60, da viagem realizada em 1934 e do crime testemunhado por Borges em terra santanense. A versão de Julio não era diferente das que mais tarde vim a conhecer nos relatos do próprio escritor, exceto por um detalhe certamente desconhecido de Borges: o da localização do café onde se deu o crime. Segundo o livreiro, o café ficava na Rua dos Andradas, nas imediações do antigo Cine-Teatro Colombo.

B) O segundo depoimento de que disponho tem a mesma procedência, isto é, também vem de Julio López e foi narrado ao nosso conterrâneo Fernando Fervenza[3]. Fernando lembra, não do nome, mas da localização do café onde aconteceu o crime: Rua dos Andradas, aproximadamente na altura do atual Banco Bradesco.

C) Em viagem a Buenos Aires, no início dos anos oitenta, Fervenza visitou o escritor no seu famoso apartamento da Calle Maipú, tendo sido atendido por Fanny, a antiga empregada-governanta da família. Ao tomar conhecimento do lugar de origem do visitante, Borges foi logo disparando: “Santana do Livramento, lá vi pela primeira e única vez matar a um homem. Estava com Amorim num café quando chegou um pobre borracho falando inconveniências. Este se aproximou demais da mesa de um homem, um capanga, o qual se sentindo importunado disparou-lhe dois tiros à queima-roupa sem sequer sair do lugar; esse fato muito me impressionou. No dia seguinte, Amorim e eu voltamos ao mesmo café e, para nossa surpresa, o assassino lá estava”. Como se vê, o relato foi formulado em palavras quase idênticas às registradas até aqui, proferidas pelo próprio escritor. Borges, é sabido, possuía uma memória prodigiosa – o intervalo de cinquenta anos entre o ocorrido e o narrado a Fervenza – não só demonstrou sua imperturbável lucidez como também salvou do esquecimento a viagem do poeta pelas terras da fronteira onde se encontram o Norte do Uruguai e o Sul do Brasil.

 

Parte V

Epílogo

 

             Não me pareceu fora de lugar incluir aqui algo que algum tempo atrás me chamou a atenção: um paralelismo entre duas histórias, achado de forma totalmente fortuita e que seria quase insignificante, não se referisse ele ao nosso hoje tão celebrado escritor. Interpretei essa correspondência como resultado de uma dessas tantas conversas que se costumam repetir em família e ajudam a nutrir os assuntos do cotidiano convívio familiar.

           A primeira história me foi contada num jantar em Montevidéu (março de 1994), numa festa de casamento, por um educado senhor de nome Carlos Haedo que estava sentado à mesa, ao meu lado. Ao constatar seu parentesco com Borges, tratei logo de perguntar-lhe sobre a pessoa do escritor. Entre outras pequenas revelações familiares, uma me chamou particularmente a atenção: “Borges costumava dizer”, contou-me meu vizinho de mesa, “que ele havia sido concebido na estância São Francisco de meu avô, em Fray Bentos.” Nunca ouvira eu antes, ou talvez nunca tivesse me apercebido de alguém que, com a naturalidade de informar o lugar de seu nascimento, mencionasse também o lugar onde fora engendrado… Recebi, no entanto, a informação apenas como mais uma simples curiosidade borgiana.

            O segundo episódio por mim “descoberto”, publicado pela primeira vez na prestigiosa revista The New Yorker (1970) narra, no capítulo “Família e Infância”, que o pai do escritor explicava a sua avó inglesa sua verdadeira origem. Passo com gosto, uma vez mais, a palavra a Borges: “Meu pai era o mais jovem de dois filhos. Nascera em Entre Rios e costumava explicar a minha avó, uma respeitável senhora inglesa, que na verdade não era entrerriano, já que – dizia – ‘Fui concebido no pampa’. Ao que minha avó respondia, com reserva inglesa: Tenho certeza de que não sei do que você está falando. Evidentemente, as palavras de meu pai eram corretas, pois meu avô fora, em princípios da década de 1870, comandante em chefe nas fronteiras do norte e do oeste da província de Buenos Aires.”[4]

            Histórias de pai, histórias de filho…

         Para os bons leitores do conto “Funes o Memorioso”, desnecessário lembrar que lá está escrito: “Minha primeira lembrança de Funes é muito nítida. Vejo-o num entardecer de março ou fevereiro do ano oitenta e quatro. Meu pai, esse ano, havia-me levado a veranear a Fray Bentos. Voltava eu com meu primo Bernardo Haedo da estância São Francisco” [5].

            Existe, como se sabe, todo um repertório de lugares e pessoas reais citados nas ficções borgianas. “Funes” é uma das tantas. Por outro lado, não é mistério para ninguém, quer dizer, para os interessados na ascendência do escritor, que Leonor, sua mãe, desde menina passava longos períodos de férias – alternados entre uma propriedade rural localizada em Fray Bentos e uma grande quinta, “Villa Esther”, situada num bairro de Montevidéu – junto a seus prósperos parentes uruguaios.  Hábito que ela seguia compartilhando com o marido e filhos até a primeira viagem da família Borges à Europa, em 1914. A lua de mel do jovem casal Borges não fugiu a essa regra. Assim sendo…

(continua)

________

[1] Batalha entre as facções dos blancos e dos colorados ocorrida no Uruguai em 1904.

[2] Caudilho blanco ferido de morte em Masoller.

[3] Hoje M. D., P.h. D. e Professor da Mayo Clinic, Rochester, Minnesota, U.S.A.

[4] Borges, 2000, p. 15.

[5] Borges,1968, p.114.

Leave a Reply