A ALMA ESTILHAÇADA PELO MEDO DO CAOS por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Ontem escrevi sobre o medo e veio-me à memória um medo, outro, um medo que circula nas veias de quem o sente, que pode nascer dentro de nós e só connosco ficar…

A calma do marulhar das águas açorianas fez com que esse medo, outro, fosse desenhado, com uma BIC, numa folha de papel que navegou e voou entre as ilhas de bruma…e pousou nos Argonautas.

A alma estilhaçada pelo medo do caos

Irrompem aos borbotões os verdes misteriosos no Pico! O basalto negro teima em dar as mãos às infinitas matizes desse verde, não de esperança, mas de força de uma Natureza outra, rebelde e serena. A serenidade de quem nasce envolto, não num só manto, mas na colcha da diversidade cromática, não pode deixar de criar, recriar a Vida numa bruma de nuvens que teimosamente, todos os dias, mostra à evidência que nem as cores são iguais entre si…

Irrompem aos borbotões os verdes desconhecidos, sempre atentos aos lilases, aos amarelos, aos azuis, às rosas, aos vermelhos que num sentimento de partilha pontuam com as suas flores, sem pedir licença, todas as nuances entre claras e escuras tonalidades.

Deu-lhes a sabedoria da Natureza a magia da coexistência que resiste a ventos, marés e abanões telúricos…

 O Pico é um sentimento de perenidade transformatória de uma Vida que se quer para sempre, imponente e frágil.

A Vida é por vezes abanada por tremores celulares que em vez de lava fazem brotar células malignas que se querem derramar, qual seiva, amedrontando o nosso ser que, envolto nas brumas, cerra fileiras alimentadas pelos diversos verdes que sabe existirem e que abraçam tenazmente o grande seio da força da Natureza, o pico do Pico, que se deixa mostrar, quase que por magia e pudicamente, quando as nuvens sabiamente afastam as suas gotículas. Estas nunca se perdem porque logo se atraem.

A alma estilhaçada pelo medo do caos celular fica desfeita em pedaços que fogem para parte incerta… estarão por perto, certamente, mas o caos celular ergue muralhas feitas de incertezas, de perguntas sem resposta e não permite que a adversidade se renda.

Há que resistir com os verdes mais claros e menos claros, com a serenidade e a rebeldia do mar gritando silenciosamente, bem alto, para dentro do corpo fatigado. Resistir a toda a desordem é o lema, mas a volatilidade das fumarolas também me ensinou que o Pico já viu corpos valentes sossobrarem perante ondas gigantes, perante tremores sem limites …sossobrar, renascer… mas não consta que se desista quando o seio da força do mundo se revela abraçado pela fragilidade gotícula que o envolve.

Fosse eu verde e basalto e saberia onde se esconde a força centrípeta dos estilhaços da minha alma. Sou verde, basalto, mas também fumarola.

Entre tremores de alma, a vida surge e sabe que se pode recriar e alimentar nesse seio que se quer eterno e coeso, até que essas gotículas queiram alimentar uma Natureza que se encanta com a fragilidade e com a força.

O medo do tremor de alma ergue muros basálticos, de pedra solta, que se amparam na argamassa da vontade frágil sovada na força do seio que se deixa desvendar por entre as nuvens.

A lava, feita lágrimas, queima a existência e, das cinzas, brota a bruma translúcida.

Agora sim, a Vida mostra a sua imponência e mistério. O seu sentido é outro. O caminho para a percorrer não tem rumo definido, mas os currais das vinhas encaminham-me magicamente para um sentido, outro, sereno, feito de resistência.

Fora eu só basalto e petúnias e hortenses…

O seio da força da Natureza é filho da generosidade e da crueldade e não se esboroa…

O pico do Pico deixa-se mostrar quando o tremor de alma nos abala…

As crianças estão atentas ao tremor de alma que asabala e, tal como a Natureza, saberão resistir como as gotículas de água que se atraem.

bia 9.8

 

 

 

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