PROFESSOR CONSTATA: UNIVERSIDADE ESTÁ EM CRISE – por RAFAEL BALBUENO, com edição de FRITZ NUNES

Obrigado ao Camilo Joseph, assim como a Rafael Balbueno e Fritz Nunes. 

Vicente Rodriguez

Professor constata: universidade está em crise

Vicente Rodriguez falou na UFSM sobre mercantilização da educação

Publicada em 05/08/2014 14h55m
Atualizada em 05/08/2014 14h58m

Vicente Rodriguez, da Unicamp, detectou o surgimento do “Homo Lattes”

De que forma o Capital, que tem seus interesses e objetivos sobre todos os setores da sociedade, investe sobre a universidade? Quais os impactos dessa investida e como eles se manifestam? O que representam os docentes, o ensino e a pesquisa, nesse processo? Foi para responder algumas dessas perguntas (mas não apenas essas) que o professor do departamento de Ciências Sociais e Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Vicente Rodriguez, esteve em Santa Maria para duas atividades. Na quarta-feira, 30 de julho, Rodriguez ministrou a palestra de abertura do VI Fórum Internacional de Pedagogia, o Fiped, enquanto na quinta, 31, o professor participou de uma roda de conversas promovida pela SEDUFSM e acompanhada por diretores do sindicato e docentes da universidade.
Ambas as atividades, que ocorreram na UFSM, traziam um tema central: a mercantilização da educação. A maneira pelo qual o Capital transforma o bem comum, que é a educação (e também tantas outras propriedades da humanidade, como os recursos naturais, por exemplo) em uma mercadoria. “A educação tem que ser rentável para o Capital, seja através da privatização do público ou da apropriação do conhecimento”, destaca o professor.

A crise da universidade

Para o professor da Unicamp, logo de início é importante destacar que “efetivamente há uma crise na universidade”. Essa crise, contudo, se manifesta em várias facetas. Conforme destacou Rodriguez, uma das crises da universidade é de hegemonia, já que as insituições de ensino superior já não mais representam o único espaço de produção do conhecimento, existindo, hoje, diversas alternativas legítimas na promoção dos saberes. Essas alternativas, conforme o professor, são destacadas ainda mais pela existência de perguntas que a sociedade faz à universidade e que essa não tem capacidade de responder. Outro aspecto dessa crise seria o da legitimidade, já que são cada vez mais cotidianos os ataques à autonomia universitária, com a interferência do Capital definindo, consequentemente, o que se pode e não se pode fazer dentro de seus espaços.

Por fim, a universidade sofre uma crise institucional, na qual sua principal manifestação se refere às políticas de financiamento do Estado, que, por sua vez, “tem outros interesses”. Na análise do professor, “é uma absoluta vergonha que tenhamos que discutir uma parcela maior do PIB para a educação”. Ao processo de escassez de recursos para o financiamento, é somado, convenientemente, um outro aspecto, o da privatização, e esse, por sua vez, traz em sua gênese um dos principais problemas da universidade hoje, que seria a introdução de uma nova forma de gestão acadêmica.

Esse novo gerenciamento, conforme destaca Rodriguez, “exige a alienação da pesquisa”, primeiro para que não se debruce sobre problemas reais e efetivos da sociedade, segundo para que alimente a estrutura do Capital, seja de conhecimento ou, obviamente, de recursos, como já foi dito.

No que toca aos recursos, falando sobre a privatização do público, o professor destaca uma entre tantas possibilidades desse processo, mas essa provavelmente a mais discreta: o financiamento através de editais de pesquisa. Já em um processo bem mais evidente, outra possibilidade de privatização da educação é o próprio crescimento de uma “indústria” privada do setor. Reforçando seu argumento, Rodriguez destaca que hoje o mercado educacional movimenta mais dinheiro que o automobilístico e que 80% das matrículas da educação estão no setor privado (especialmente forte na educação superior e infantil).

O controle sobre a pesquisa

Para controlar, absorver e tornar rentável o conhecimento produzido na academia, o Capital precisa definir os limites dentro dos quais se é permitido fazer ciência. Nesse sentido se encaixam, por exemplo, os editais aos quais os pesquisadores devem atender caso queiram ter seus trabalhos vinculados aos órgãos que avaliam, validam e respaldam institucionalmente as pesquisas. Esse processo, conforme destaca Vicente Rodriguez, promove um trabalho individualizado, competitivo e dentro de determinados limites do que se pode investigar, o que desemboca com frequência em uma pesquisa alienada, a “pesquisa desinteressada”, conforme as palavras do próprio professor.

O pesquisador (se atende a todos os critérios exigidos) vai bem, mas a ciência vai mal”, comenta o docente, para mais adiante brincar com o surgimento de uma “nova espécie”, a do “Homo Lattes”, ou seja, a do pesquisador que vive para atender em grandes quantias às demandas produtivistas da plataforma Lattes (que determina o que deve ser pesquisado, assim como avalia a relevância do estudo e aponta a qualificação do pesquisador, critérios quase que exclusivos nas avaliações que desembocam na progressão na carreira). Todos esses fatores, conclui Rodriguez, produzem prejuízos especialmente sobre aquela que é imprescindível para a pesquisa acadêmica: a liberdade. “A liberdade é matéria-prima fundamental para a produção do conhecimento crítico da universidade”, comenta o professor.
Essa demanda produtivista, calcada exclusivamente na quantitade e no atendimento ao que regem os editais, promove, para além do seu impacto na produção de conhecimento, repercussão também na própria prática da docência, já que a rotina de produção, para atender os números cobrados, não é compatível com o pleno exercício em sala de aula. Além disso, o envolvimento em atividades para além da sala de aula, que permitam uma formação crítica ao docente, se torna quase inviável e implica na alienação do próprio trabalho e na desindentificação do professor enquanto trabalhador.

Todo esse processo, destaca Rodriguez, está interligado e faz parte da investida do Capital sobre a universidade. O produtivismo, a privatização, a sobrecarga aos docentes e, além disso, a sobrecarga direcionada para o atendimento de determinadas demandas, são apenas alguns elementos de um grande projeto do Capital para a universidade. Cabe a universidade, resistir.

Texto e fotos: Rafael Balbueno
Edição: Fritz Nunes
Assessoria de Imprensa da SEDUFSM

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Nota de A Viagem dos Argonautas

A UFSM – Universidade Federal de Santa Maria fica no estado brasileiro de Rio Grande do Sul, na cidade de Santa Maria. É uma universidade pública, fundada em 1960, e que actualmente conta com quase 30 000 estudantes.

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