FRANKLIM VILAS BOAS COM O OLHAR DE ERNESTO DE SOUSA – MUSEU DE ETNOLOGIA, Av. da ILHA DA MADEIRA, LISBOA.

A exposição permanente do Museu de Etnologia, em Lisboa, é composta de 7 núcleos. Falaremos hoje de um deles. Pretende a direcção lembra os principais protagonistas que, desde a origem deste museu, definiram as suas linhas de ação e nele cruzam os seus percursos, os investigadores do museu ou a ele associados que no terreno adquiriram e documentaram coleções e os coletores que, por venda ou doação, aumentaram o acervo com as suas recolhas. Procura-se do que os objectos nos podem dizer e que novos diálogos nos permitem despertar, para dinamizar o museu, tornando-o num território vibrante, de pesquisa, actual e futura.

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“Em Portugal, a partir do final dos anos 50 e durante toda a década seguinte, intelectuais de várias formações (arquitetos, artistas, etnólogos, cineastas, escritores) entregaram-se à curiosidade e militância de um olhar determinado a ir para o lado de lá da opacidade dos discursos oficiais, da folclorização redutora e cansada, e assim reter maneiras de fazer, dizer, estar ou ser que poderiam ajudar a perceber o país na sua história e no seu devir concreto e insatisfeito. Era um contexto de crise anunciada pela pressão demográfica, escassez e fome no meio rural, e contenção autoritária dos gestos e da palavra. […] Eles traziam outro conhecimento sobre o país, muitas vezes com os contornos sólidos de informação e documentação geográfica, etnográfica, linguística (entre os mais recorrentes), mas eles abriam igualmente um campo de cumplicidades que tinham tanto de atitude política combativa quanto de partilha de emoções e deslumbramentos.

Ernesto de Sousa foi um destes buscadores que desvendou o olhar sobre a obra do escultor Franklim Vilas Boas, trazendo-a para a sua reflexão crítica. As obras que Ernesto de Sousa foi adquirindo nos anos de relacionamento com o artista formaram a sua coleção particular que agora foi doada ao Museu Nacional de Etnologia por Isabel Alves, sua companheira, cúmplice e incansável dinamizadora do seu legado.

Ernesto apresenta Franklim

“Franklim nasceu em 1919, em Esposende, onde morou, e morreu, num acidente, em Abril de 1968. Era casado e tinha vários filhos, vivendo todos em precárias condições financeiras. Pertencia a uma tradicional família de canteiros: dois irmãos, e atualmente, um dos sobrinhos, têm oficina própria. Quando o conhecemos, em Maio de 1964, Franklim, praticamente desconhecido para lá de seu meio, era muito pouco considerado pelos familiares, por se recusar “a trabalhar a pedra”. Era engraxador (e até isso tem importância, ao estudarmos o “acabado” das suas obras em madeira), e justificava a sua recusa de trabalhar a pedra com doenças e dores físicas. Verifiquei depois que tinha uma verdadeira antipatia, inclusive física, pela pedra; e que, pelo contrário, tratava ou referia-se à madeira com ternura e inteligência. As madeiras tinham “cadência” (ritmo, disposição) e significado. Por outro lado, o trabalho do canteiro obriga à instalação ou manutenção de uma oficina, e a um mínimo de organização – do que ele era inteiramente incapaz. Trabalhar a pedra constitui, enfim, um ofício, e trabalhar a madeira – do ponto de vista social – uma extravagância.

[…] Os tipos estáveis têm com frequência carácter antropomórfico. Geralmente relacionam-se com uma iconografia cristã, muito vaga, muitas vezes de ressonância oriental nos respectivos títulos: Egipto, Moisés… Ao rigor dos tipos corresponde uma imensa variação plástica, e muito mais íntima que simplesmente decorativa.

As árvores velhas, ou fragmentos de árvores, que perderam a dignidade erecta da árvore, caem, literalmente, num tratamento semelhante aos do segundo tipo. Na verdade, trata-se, aqui também, de um encontro da matéria com o correspondente e prévio imaginário.” E.S.

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Para contactos e outras informações vá a:

http://mnetnologia.wordpress.com/

 

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