AMOR SUBLIME E OS “PERIGOS” DA PAIXÃO – 1 – por Rachel Gutiérrez

 

livrolivros225Em Sense and sensibility (Razão e sensibilidade), Jane Austen (1775-1817), cuja obra vem merecendo novas e belas versões cinematográficas, apresenta o amor-paixão de Marianne por Willoughby como uma doença quase mortal, da qual a moça é salva graças à dedicação de sua sábia irmã Elinor, e à devoção constante e serena do Coronel Brandon.

Jane Austen é uma psicóloga extraordinária e uma severa crítica da sociedadeunnamed
inglesa do início do século XIX, quando a mulher só tinha um destino – o casamento, desde que seu dote fosse apreciável, e sua família, respeitável. Quando, na verdade, os arranjos de casamento não passavam de bons negócios. Austen pinta em tons aparentemente pastel, do Barroco-Rococó, uma sociedade onde as maneiras, o estilo, ou melhor: a Forma afoga em sua superficialidade tudo o que há de puro, de espontâneo e verdadeiro. Sob os tons pastel, porém, existe dramaticidade e algumas dissonâncias, como na música de Mozart e de Haydn, tensões que fatalmente se resolvem dentro da tonalidade, na cadência perfeita, mas que já prenunciam o Romantismo em alguns adágios sentidos e num certo ímpeto cheio de energia.

Penetrante, aguda, irônica, a primeira grande romancista da Inglaterra admitiu, em carta a uma amiga, que sua personagem feminina predileta era Elizabeth Bennet, a altiva e rebelde heroína de Pride and prejudice (Orgulho e Preconceito), que, ao longo de todo o romance jamais se dobra, nem diante da arrogância do aristocrático Mister Darcy, nem diante da virulenta petulância de Lady Catherine, a velha dama despótica acostumada a mandar em todos que a rodeiam.

unnamed (1)Nota-se também, em Sense and sensibility, a simpatia da autora por sua apaixonada Marianne, o que não a impede de render-se à necessidade de domá-la para que aprenda a sobreviver naquele ambiente hostil ao temperamento romântico. Austen, contudo, aponta, delicada mas incisivamente, o paradoxo da civilização quando John Dashwood, irmão de Elinor e de Marianne, corta árvores para fazer uma espécie de caramanchão, uma “casa verde”, de acordo com a moda da época. Ela sabia que certas árvores não devem ser cortadas, que certas forças da natureza não podem ser controladas. Como sugere Tony Tanner, editor e prefaciador de grande parte da obra de Jane Austen, Marianne precisa “morrer”. Sim, porque morre a vivacidade de Marianne, sua sensibilidade apaixonada. E sua doença, uma doença eminentemente psicossomática, é um rito de passagem, uma adequação à Forma, à convenção, ao equilíbrio do amor contido e plácido do Coronel Brandon. A transformação é tão extraordinária que, emergindo de seu leito de quase morte, após sangrias e febres altíssimas, delírios, Marianne passa até a usar a língua dos outros, a língua aceita da submissão! A harmonia sintática e métrica do discurso são sintomas de uma mente mais harmoniosa consigo mesma, diz Tanner. Mas o preço a pagar é a renúncia à paixão. Renascida, Marianne começa a se comportar e a falar como Elinor, que encarna a sensatez e a contenção dos sentimentos. Elinor, vale dizer, não é desprovida de sentimentos, ao contrário, mas foi condicionada, como irmã mais velha, a desempenhar o papel de sustentáculo da família e, conscienciosamente, torna-se um digno emblema da ordem social. É Marianne quem vive a contradição, Marianne cujos sentimentos fortes, espontâneos, explosivos, parecem ser os de seu cavalheiro romântico – Willoughby. Infelizmente, porém, os grandes sedutores na obra de Jane Austen – (Wickan, em Pride and prejudice, Crawford, em Mansfield Park) – costumam revelar, cedo ou tarde, sua inconsequência. Willoughby não foge à regra: entre Marianne, por quem parecia sinceramente apaixonado e uma herdeira rica, que o pode salvar da pobreza, não hesita em escolher a segunda. Então Marianne, humilhada pela rejeição e enfraquecida pela doença, ou “civilizada” pelo sofrimento, toma uma nova atitude em face dos outros e do mundo. Seu olhar passa a ter uma expressão mais racional, mas também “mais lânguida”. Domada, vencida, acaba por adaptar-se ao estilo de uma sociedade que considera os sentimentos românticos insensatos, portanto, inaceitáveis.

Foi assim, então. Em vez de pagar um tributo a uma irresistível paixão, como antes se jactara de esperar – em vez de permanecer para sempre na companhia de sua mãe, dedicada totalmente ao estudo em reclusão, como em seu julgamento mais calmo e sóbrio depois decidira, – aos dezenove anos, viu-se subordinada a um novo compromisso, assumindo novos deveres, instalada numa nova casa, uma esposa, uma mãe de família e uma benfeitora de uma comunidade. (p.367)

Sense and sensibility foi publicado em 1811. Jane Austen morreu aos 42 anos, em 1817. No ano seguinte, nasce Emily Brontë ( 1818 – 1848 ), em cujo romance o fogo sagrado da paixão vai arder com intensidade inusitada.

(continua)

 

 

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