Já algum tempo que não lhe escrevia. Peço-lhe desculpa de o voltar a incomodar. Espero que esteja a ter um verão agradável. Tenho andado ocupado a preparar a cadeira, que vou tentar fazer agora na segunda época. Tenho ido à faculdade todas as semanas, mas não há nada de novo, a não ser uma questão que lhe vou contar. Mas, para começar, deixe-me dizer-lhe que a minha mãe parece que voltou ao que era antes de irmos a Cascais. Razoavelmente animada, anda sempre de volta das suas telenovelas, vai todas as tardes ao café, e trata-me como sempre. Mas reparei que tem conversado muito mais com a Henriqueta do que antigamente. Desde a última vez que lhe escrevi, a contar o nosso passeio, já foi a casa dela duas vezes, pelo menos. Há muito tempo que não o fazia, talvez desde o ano passado. Percebi que foi a casa da amiga por não querer conversar à minha frente, pois de ambas as vezes saiu de casa sem me dizer nada, deixando a televisão ligada. Normalmente avisa-me, até porque não gosta que eu saia sem lhe dizer. Da segunda vez, estava ela de volta, sentada em frente à televisão, perguntei-lhe:
– Tinhas saído?
– Sim. Fui à Henriqueta ver como ela tem passado. Hoje não apareceu no café. Querias alguma coisa?
– É que a televisão estava ligada…
A conversa ficou assim. Eu não lhe tinhafeito companhia no café, porque precisei de ir à faculdade. Mas ao sair, logo a seguir ao almoço, percebi que a Henriqueta e a Maria Antónia tinham acabado de descer a escada, e, depois ao passarem frente à Esplendorosa, fiquei com a impressão de que elas tinham acabado de entrar. De qualquer modo, não aprofundei o assunto, para não perturbar a Heloísa.
Entretanto a Maria Antónia parece menos interessada em mim. Por um lado fico contente, mas por outro tenho pensado que, um dia destes, tenho de voltar à “pensão” da D. Generosa. Contudo, embaraça-me ela ser irmã da Henriqueta, situação que só descobri recentemente, conforme já lhe contei. Às vezes, penso se a Maria Antónia não terá contado alguma coisa à sua actual patroa. Depois, entre irmãs é capaz de não haver muitos segredos…
Mas ontem aconteceu uma coisa que tenho de lhe contar. Estávamos em casa, seria quase meio dia, quando tocou o telefone. A minha mãe estava na sala e atendeu. Não ouvi bem o que dizia, mas ela veio logo chamar-me.
– É para ti. É a tua colega Maria da Luz.
Fui logo atender. A Maria da Luz ainda estava na terra. Disse-me:
– Maurício, como estás? Ainda vou ficar aqui, em casa dos meus pais, mais uma semana.
Trocámos umas cortesias, sem que eu me alongasse muito, até porque a minha mãe também estava na sala. Falámos sobre a preparação do exame, discutimos um pouco a matéria, e a certa altura a minha amiga perguntou-me:
– Maurício, gostavas de vir aqui à Beira passar uns dias? Os meus pais iam gostar de te conhecer. E podíamos avançar o estudo.
– Não sei se poderei – respondi-lhe de imediato. – Amanhã telefono e digo-te.
– A tua mãe está bem?
– Assim, assim. Não se dá bem com o calor.
Falámos ainda um pouco e depois desligámos. Olhei para a minha mãe, que estava sentada, vendo a televisão. Assim que poisei o auscultador, olhou para mim, e perguntou-me:
– Vais viajar? Visitar a tua colega?
– Não sei. Talvez não. Ainda se gasta muito dinheiro numa viagem. E não gostava de ficar em casa da Maria da Luz. Não conheço os pais. Ela também não me convidou expressamente para ficar em casa dela.
– Ah, sim. Desse modo … – encolheu os ombros e fez um ar de dúvida. Aumentou o som da televisão e pôs-se a ver o programa. Voltei para o meu quarto. Mas ao almoço ela perguntou-me:
– Gostavas de ir visitar a Maria da Luz?
Olhei para ela. Pareceu-me um pouco tensa. Sentia-me um tanto perplexo. Ela já me tinha ouvido várias vezes falar sobre ela, e sabia que costumávamos estudar juntos. Mas daí a pensar outras coisas, seria dar um salto muito grande. Então ela acrescentou:
– Se quiseres, dou-te dinheiro para a viagem.
Então é que fiquei mesmo espantado. A minha mãe nunca encorajou qualquer relação minha com uma mulher. Pelo contrário. Já lhe referi o que se passou com a Natália. Enquanto durou o namoro, mostrou sempre um sofrimento, uma aflição profunda, que me deixava perturbadíssimo. Quando eu saía, perguntava-me sempre a que horas voltava, e se me atrasava, nem que fosse só um quarto de hora, repreendia-me, por vezes exaltadamente. Agora, parece que me está a encorajar a ir ter com a Maria da Luz, pensei eu. Mas também é verdade que ela não sabe ao certo qual é a nossa relação, concluí com os meus botões.
Lá vou eu pôr-lhe um problema difícil. Vai dizer que não têm nada a ver com o assunto, que eu tenho quarenta e sete anos, e que não tem culpa nenhuma de a minha mãe me tratar como se eu ainda fosse uma criança. Mas, desculpe, acha que eu aceite o convite da Maria da Luz? Não será chato deixar a Heloísa sozinha?