A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – A glória e o túmulo

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No mês de agosto de 1914, há cem anos, teve início o conflito mais mortífero empreendido até então pela espécie humana. Foi a I GuerraMundial, e durou pouco mais  de  4 anos e três meses. No fim, cerca de 10 milhões de combatentes – quase todos entre 18 e 40 anos – estavam mortos. Os homens do poder e seus contadores calculam que a economia  das potências envolvidas recuou em cerca de 25% .

Mas os governos são incapazes de estimar – por estranho a suas funções – o essencial: o sofrimento dos casais desfeitos e dos órfãos, dos filhos que não nasceram, dos namoros interrompidos, das amizades perdidas ou sequer iniciadas,  dos livros não escritos, dos  poemas que poderiam ter sido criados, das viagens  não realizadas, sem contar as angústias dos sobreviventes, os traumas das  crueldades infligidas e sofridas, os mutilados de corpo e de espírito,  as neuroses adquiridas para sempre…

Nunca se matou tanto em tão pouco tempo. Não fora novo o desejo de matar, mas eram novíssimos os meios técnicos disponíveis. Nicolau Sevcenko falou do confronto como a “apoteose bélica” da indústria e de sua capacidade para fabricar ferramentas de morte: a metralhadora, o lança-chamas, a granada, as minas, os fuzis, os gases venenosos, o submarino e, mais no final, os tanques e os aviões.

A conflagração originou-se de contradições entre três velhos impérios – austríaco, russo e otomano, que disputavam o controle dos Balkans, cordilheira de montanhas e mosaico de povos ao sul da Europa.  Era para ser  localizada mas, pelo jogo das alianças, espalhou-se, envolvendo a Alemanha, França, Inglaterra e Itália,  grandes Estados capitalistas que lutavam entre si pela hegemonia no continente e  pelas riquezas do planeta. O mundo estava em jogo e  não por acaso, duas  potências extra-européias,  Estados Unidos e Japão, também entrariam no redemoinho.

Os sábios chefes militares europeus, observou Marc Ferro,  planejaram uma aventura curta e vitoriosa. Prometiam o retorno glorioso dos exércitos antes do Natal. Mas a luta armada não seria curta nem vitoriosa. Ao contrário: foi longa, e naquele jogo, mesmo os vitoriosos perderam, tal a sangria de recursos humanos e materiais.

Ganharam apenas  os grandes bancos e indústrias, pois as conflitos bélicos oferecem sempre oportunidades de negócios. E cresceram os Estados, fortalecidos pelas tarefas de coordenação das operações militares e de centralização e concentração da economia, que supuseram, em toda a parte, verticalização, hierarquias rígidas, controles anti-democráticos e anti-populares. Estados em luta não permitem questionamentos e oposições, debates contraditórios ou liberdades de imprensa, de organização, de manifestação. Os valores democráticos, conquistados pelos trabalhadores  europeus nas décadas anteriores, foram para o ralo,  revogados. Se é bem conhecida – e exata –  a máxima de que a primeira vítima da guerraé a verdade, a segunda  será, sempre, a democracia.

Uma grande questão, porém,  subsiste e merece ser compreendida:  por que tantos dispuseram-se a morrer e a suportar  sofrimentos sem fim?

A chave pode estar na capacidade que os nacionalismos tiveram em capturar a emoção, a razão e a fidelidade das gentes.

“É preciso habituar o povo alemão a pensar que uma guerra é uma necessidade, uma libertação. Se o inimigo nos atacar, ou se quisermos dominá-lo, nós nos lembraremos que as províncias do antigo império alemão ainda estão em mãos dos francos e que milhares de irmãos alemães gemem sob o jugo eslavo. É uma questão nacional: devolver à Alemanha o que ela possuiu”. Quem disse estas palavras não foi um insano qualquer, mas os generais Schlieffen e Ludendorff, altos chefes, dirigindo-se aos cadetes da Academia Militar.

Ouviam-se discursos semelhantes  na França, na Itália, na Rússia e na Inglaterra. O patriotismo, desde a alfabetização das crianças, era inculcado como valor sagrado. Foi-se criando uma atmosfera sufocante/libertadora de exaltação patriótica para o que contribuíam ligas e organizações de defesa nacional,  desfiles militares, hinos patrióticos, cantados com a mão no peito e olhos marejados de lágrimas, onde todos eram convidados a matar e a morrer pela Pátria, celebrações em prosa e verso de conquistas e massacres de povos “bárbaros”, histórias e lendas que exaltavam a civilização de cada país.

Quando explodiu a Guerra, quase todos acorreram alegremente para a defesa da sua pátria, considerada ameaçada. Rosa Luxemburgo escreveu de Berlim que havia na cidade um clima de linchamento contra quem se opusesse aos hinos de morte. Queriam a glória para si mesmos e para a própria Nação.  No fim de pouco mais de quatro anos,lastimou Erich Maria Remarque, toda uma geração de homens estava destruída, mesmo os que escaparam das granadas. Não consideraram o que já dizia Thomas Gray, um poeta do século XVIII: “os caminhos da glória levam apenas ao túmulo”.

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

1 Comment

  1. Antes de chegar ao fim da leitura do excelente texto do Prof. Aarão Reis, pensei, por coincidência, no primeiro livro que li, muito jovem ainda, de Erich Maria Remarque – “Três camaradas”.
    E pensar que depois passamos pela que Vicente Huidobro ( no livro profético La Otra) anunciou e que foi tão ou mais terrível do que a Primeira Grande Guerra – a de 39-45 ! O historiador dirá.

    Comoveu-me sobremaneira a lembrança de toda a arte, literatura e poesia que as guerras matam junto com seus jovens combatentes. Para quê?

    Estamos de parabéns,os argonautas, com a chegada de tão ilustre colaborador.

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