CELEBRANDO SOPHIA – 34 – por Álvaro José Ferreira

 

Nota prévia:

Para ouvir os poemas de Sophia (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/07/celebrando-sophia-de-mello-breyner.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

 

Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia - 1940

Sophia fotografada em 1940.

Capa do livro “Sophia de Mello Breyner Andresen: Uma Vida de Poeta” (Editorial Caminho, 2011), catálogo da exposição que esteve patente na Biblioteca Nacional, de 26 de Janeiro a 30 de Abril de 2011. «Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.»

Sophia de Mello Breyner Andresen (excerto inicial de “Arte Poética V”, in “Ilhas”, Lisboa: Texto Editora, 1989)

 

EIS QUE MORRESTE

Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Coral”, Porto: Livraria Simões Lopes, 1950; “Obra Poética I”, Lisboa: Editorial Caminho, 1990 – pág. 180)
Recitado por José Manuel Mendes* (in Livro/2CD “Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX”: CD1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)

 

Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.

Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás — mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.

 

* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel

 

Pranto pelo Dia de Hoje

 

Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Livro Sexto”: III – “As Grades”, Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; “Obra Poética II”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – pág. 143)
Música: Fernando Lopes-Graça (1.ª peça de “Quatro Cantos de Sophia”, 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD “Guirlanda”, ASA Art and Technology, 1997)

 

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas.

 

* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)

 

Carta aos Amigos Mortos

 

Poema: Sophia de Mello Breyner Andresen (in “Livro Sexto”: II – “A Estrela”, Lisboa: Livraria Morais Editora, 1962; “Obra Poética II”, Lisboa: Editorial Caminho, 1991 – págs. 130-131)
Música: Fernando Lopes-Graça (2.ª peça de “Quatro Cantos de Sophia”, 1969)
Intérpretes: Dulce Cabrita & Fernando Lopes-Graça* (in CD “Guirlanda”, ASA Art and Technology, 1997)

Eis que morrestes — agora já não bate
O vosso coração cujo bater
Dava ritmo e esperança ao meu viver
Agora estais perdidos para mim
— O olhar não atravessa esta distância —
Nem irei procurar-vos pois não sou
Orpheu tendo escolhido para mim
Estar presente aqui onde estou viva.
Eu vos desejo a paz nesse caminho
Fora do mundo que respiro e vejo.
Porém aqui eu escolhi viver
Nada me resta senão olhar de frente
Neste país de dor e de incerteza.
Aqui eu escolhi permanecer
Onde a visão é dura e mais difícil

 

Aqui me resta apenas fazer frente
Ao rosto sujo de ódio e de injustiça
A lucidez me serve para ver
A cidade a cair muro por muro
E as faces a morrerem uma a uma
E a morte que me corta ela me ensina
Que o sinal do homem não é uma coluna.

E eu vos peço por este amor cortado
Que vos lembreis de mim lá onde o amor
Já não pode morrer nem ser quebrado.
Que o vosso coração que já não bate
O tempo denso de sangue e de saudade
Mas vive a perfeição da claridade
Se compadeça de mim e de meu pranto
Se compadeça de mim e de meu canto.

* Dulce Cabrita – voz (meio-soprano)
Fernando Lopes-Graça – piano
Gravado no Estúdio A da RDP (Rua do Quelhas, Lisboa)

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