BISCATES -“Somos governados por idiotas ou por delinquentes?” – por Carlos de Matos Gomes

biscates

Um dirigente de empresa vulgar que se comportasse hoje como um chefe de Estado se comporta com a maior naturalidade, não se furtaria a um dos resultados seguintes: ou cairia sob uma das disposições do Código Penal, ou seria demitido pelo conselho de administração, a assembleia geral, os empregados, ou ainda, se não se reabilitasse, quer na prisão, quer na vida pública, ingressaria numa clínica psiquiátrica.

Mas estamos a falar de um chefe de Estado médio, de um produto de série, não me refiro aos «gramdes homens», que vão muito mais longe, que vão até à catástrofe total.

Jean François Revel in Carta aberta à direita.

A semana passada deixei aqui algumas questões que, se pudesse, colocaria a líderes europeus e mundiais. A lista de decisões que só a idiotia (já não falo em incompetência) ou a pura delinquência justificam é interminável e cada um terá a sua selecção. Aqui vão algumas.

O subprime. Ninguém reparou, nos ministérios das finanças, das economias, nas maiores bolsas de valores, nas administrações dos maiores bancos nos EUA, na Europa, no Oriente próspero, em Nova Iorque, em Londres, em Tóquio na vigarice que estava subjacente: vender créditos e hipotecas de casas que a mais distraída observação (apesar da embalagem escrita em inglês) levava a ver claramente visto que não tinham qualquer hipótese de serem pagos?

O Médio Oriente (1). Ninguém pensou para que servia a invasão do Iraque de Bush Junior? Ninguém reparou nos cadastros de DickCheney e de DonaldRumsfeld, respectivamente vice-presidente dos EUA e Secretário de Estado da Defesa para desconfiar que estavam ali dois bandidos capazes de tudo? Portugal contribuiu com dois videntes para a entronização deles como defensores da liberdade, o actual vice primeiro ministro Paulo Portas e o ainda presidente da Comissão Europeia, que com essa prova de fé subiu aos altares em Bruxelas.

Médio Oriente (2). Ninguém pensou no dia seguinte à invasão do Iraque?

Afeganistão. Ninguém perguntou porque carga de água foi o Ocidente meter-se no Afeganistão? Os kamikazes do 11 de Setembro, ao que se sabe eram sauditas. Os talibans não tinham brevet de piloto. Parece que toda a gente sabia onde estava Bin Laden, a começar pela família, que vivia bem instalada em Rihad, junto da família real.

Palestina. Desde a primeira crise do petróleo, anos 70, e das guerras “israelo-árabes” que a estratégia dos EUA e do Ocidente é fazer coincidir o território da Palestina com o do Estado de Israel. Porque não se faz a limpeza étnica dos semitas muçulmanos de uma vez e se prolonga a sua extinção lentamente? Custa assim tanto despejá-los no Egito? No Mediterrâneo? Deixá-los morrer à fome? Arrasá-los, pura e simplesmente?

Egito. As primaveras árabes.Quem foi o pai da ideia? Quem é que acreditou que a substituição de ditaduras mais ou menos laicas, mas que tinham um conceito de estado-nação herdado do Ocidente e imposto por elites ocidentalizadas e suportadas por forças armadas hierarquizadas, pela rede clerical que pastoreia povos excluídos dos bens materiais a que a ideologia do materialismo dominante associa o conceito de desenvolvimento e de felicidade e sem qualquer esperança num futuro mais risonho, daria como resultado uma democracia toda supimpa, com voto, direitos humanos, respeito pela diversidade, incluindo a de deuses e de cultos? Ninguém, entre os líderes das maiores nações do planeta tinha conhecimento da incompatibilidade (do antagonismo) entre crentes de deuses que salvam? Ninguém tinha lido a história das cruzadas? Da inquisição? Da reforma e da contra reforma?A história das religiões? Das causas das revoluções?

Juguslávia. Já foi há tanto tempo que até nos esquecemos que existiu uma Juguslávia. Os responsáveis pela mais sangrenta limpeza étnico-religiosa na Europa a seguir à IIGM ainda estão todos por aí vivinhos da costa. A Alemanha, a França e os seus líderes de então podem orgulhar-se do trabalho feito na Croácia, na Sérvia, na Bósnia Herzegovina, no Kosovo, no Montenegro,na Eslovénia e na Macedónia… Nenhum dos responsáveis pelo que aconteceu foi preso ou está internado num hospício…

União Europeia. É possível construir uma União política, económica e social a partir de um núcleo central de estados-nação europeus sem decidir entre fazer dela apenas um espaço de livre comércio – projecto inglês –  ou um espaço politica, social e economicamente integrado – proposta franco-alemã? Vão tentar a quadratura do círculo?

Os dirigentes europeus não só acreditam nesse hibrido geométrico resultante de dois modelos incompatíveis, como o alimentaram com sucessivos e rápidos alargamentos: plano Blair de quanto maior a confusão, menos União. Até hoje os dirigentes europeus mantêm a convicção (fazem de conta) que o paradoxo pode existir indefinidamente.

Política externa e de defesa. Épossível construir uma União política mantendo o primado das relações bilaterais e multilaterais dos estados? Sem política externa, isto é de projecção para o exterior, nem de defesa, isto é de segurança e de capacidade para impor e defender os seus interesses?

Moeda. É possível criar uma nova moeda e manter as anteriores, num esquema à carta e tudo isto sem uma união monetária, nem fiscal, nem social…

Anseios e bem-estar.Por fim, quanto à construção de uma “Europa”, os dirigentes da UE decidiram entregar a criação de uma entidade eminentemente política, que por natureza devia assentar no princípio da satisfação dos anseios à felicidade e bem estar dos homens e mulheres, das pessoas, a funcionários, isto é a operários de leis e de contas, a meirinhos e a guarda-livros. Aí temos a burocracia de Bruxelas reproduzida à imagem e semelhança dos que os nomeiam. E esperam que uma coisa dessas funcione!

A desindustrialização. Os dirigentes políticos europeus – aquelas fulgurantes personalidades que costumamos ver nos telejornais a entrarem e a saírem de reuniões e à volta de enormes mesas –definiram a política de produção de bens na Europa seguindo o princípio da divisão aristocrática do trabalho que já tinha dado origem a três belas revoluções, de que eles não devem ter tido notícia: a revolução inglesa, a revolução francesa e a revolução russa. A ideia base era a mesma: as elites dedicavam-se ao trabalho intelectual, limpo e sem esforço físico, enquanto as classes desfavorecidas ficavam comos trabalhos duros e sujos. A oportunidade que os nossos queridos líderes (tanto os idiotas como os delinquentes) aproveitaram ocorreu (grosso modo) com a globalização e a entrada da China no comércio mundial. A Europa transferiu o seu sistema produtivode baixa e média tecnologia para outros espaços, a Oriente e mantevea investigação e a produção de alta tecnologia. Assim saíram da Europa o têxtil e calçado, mas também a indústria naval, as siderurgias, parte da química, a electrónica de consumo doméstico… O resultado é o actual: desemprego e competição cada vez mais feroz das economias que começaram por fazer a montagem de máquinas simples e hoje fabricam aviões supersónicos e satélites. As cópias são cada vez mais parecidas com o original e a prazo serão idênticas ou melhores (a China já igualou a UE em I&D). A Europa tornou-se um destino turístico:os trabalhadores orientais vêm aqui ver os restos da civilização que os foi descobrir. Vêm a uma Disneylandia com fantasias originais e também a verdadeira Disneylandia, a da fantasia.

Prioridades. A política é, entre muitas coisas, mais do que a arte de estabelecer compromissos a arte de definir prioridades. Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Quais são as prioridades da União Europeia? Alguém sabe? Alguém nos disse? Alguém nos perguntou? Eu tenho uma para o topo: Reforço da coesão europeia. Criar músculo antes de me meter em aventuras. No entanto aquilo que vejo é a estratégia do corvo: bica-se o que mexe e o que brilha. Nós atiramos o Moedas para lá. A ver se dá sorte.

Fatalidades. Existe uma fatalidade na decisão política: a da pura e continuada mediocridade mesmo na delinquência. A política americana é, desde  Reagan a Obama, a mesma para a Europa, para a Rússia, para o Próximo e Médio Oriente, o rasto de destruição é contínuo: Afeganistão, Iraque, Líbia, Egito, Síria, Ucrânia, Palestina. O mesmo confronto com a Rússia, o mesmo jogo de atirar a Chia contra a Rússia, a mesma duplicidade com as monarquias terroristas e petroleiras encabeçadas pela Arábia Saudita. A política da UE é desenhada por frequentadores manhosos de um casino clandestino. Nem união, nem federação, nem nação, nem banca, nem exército, nem uma ideia para dentro, nem uma ideia para fora de Blair, a Cameron de Sarkozy aHollande, de Sapatero a Rajoy a Barroso além de outros ainda mais invisíveis nos seus uniformes de terceiros oficiais. A grande afirmação internacional da UE foi o ataque à Líbia e o empalamento de Khadafi! Depois do sucesso avançaram para a Ucrânia, fornecendo cerveja alemã e palavras de incentivo aos neonazis locais. Porque era verão e o tempo estava bom. Com o frio vem a necessidade do gás russo e volta a realidade.

Estes são apenas uns temas extraídos de memória. Cada um poderá acrescentar os seus. O que me preocupa é deixar para os meus filhos e netos um mundo que foi formatado por estes híbridos de idiotas e delinquentes.

O que me preocupa é que esta cegueira dos dirigentes acabe como é habitual na história, com dolorosas e sangrentas consequências para as vítimas inocentes destas políticas.

Leave a Reply