EDITORIAL – A ESCÓCIA, UM PAÍS NA EUROPA

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 Não oferece dúvidas a ninguém que a Escócia tem os requisitos básicos para ser um país à parte. Mesmo os que a ela se opõem não o negam. Os argumentos que apresentam em contrário são perfeitamente ultrapassáveis após negociações sérias, em que as duas partes estejam dispostas a respeitar a vontade do povo escocês. Os problemas que são levantados como o de se a Escócia continuará a usar a libra como moeda, ou de se assumirá parte da dívida pública britânica, ou ainda os relativos a questões de segurança ou ambientais, a exploração do petróleo no Mar do Norte, e outros, poderão perfeitamente ser resolvidos, se as partes envolvidas mantiverem a compreensão pelos problemas suscitados pelas inovações que serão necessárias e o respeito pelos princípios democráticos.

 Se da parte das autoridades da Grã-Bretanha, incluindo os grandes partidos tradicionais (estes nas sociedades ocidentais constituem cada vez mais como que um poder especial, um pouco à semelhança das Igrejas ou das forças militares), existe uma grande oposição à independência da Escócia, por razões que se genericamente se podem classificar como de defesa das tradições e da manutenção do imperialismo britânico, existe também oposição à independência por parte de outros países, como os Estados Unidos, da União Europeia e do sistema financeiro que não são mais que manifestações de solidariedade com o statu quo ante. Subjacente a elas estão cálculos políticos que nada têm de democráticos, como não perturbar a participação do Reino Unido na União Europeia, aliás muito ameaçada por outras razões, nas negociações do chamado Tratado Atlântico de Comércio Livre ou na NATO.

O Reino Unido se o “sim” triunfar no próximo dia 18 de Setembro ficará reduzido à Inglaterra, País de Gales e Irlanda de Norte. Não é crível que os seus cidadãos fiquem mais infelizes ou mais pobres como uma Escócia independente. Grave é continuar de pé a confrontação entre as comunidades católica e protestante na Irlanda do Norte, sem que se veja maneira de a serenar que não passe por medidas profundas no campo político e económico, pôr fim a atitudes provocatórias, e encarar frontalmente o processo de uma integração na República da Irlanda, separando a política da religião e deixando para trás concepções antiquadas, do tempo em que os monarcas eram os donos dos países, por direito divino, ou outro resquício medieval.

Mais difícil de entender é a posição da União Europeia. Se o sim vencer no referendo, parece que a letra dos tratados europeus impõe que a Escócia fique excluída da União Europeia. Até um anti-europeísta reconhecerá, sem ironia, que o se tem de mudar são os tratados europeus e não a vontade dos escoceses. Será entretanto de recordar que, quando o referendo foi marcado, o comissário Barroso veio logo, pressuroso, informar que a vitória teria esse efeito. A União Europeia e a Europa em geral têm todo o interesse em respeitar a vontade dos povos, a começar pela dos que as integram. Esse respeito tem sido muito pequeno até à data, como se tem verificado até à data. Seria muito importante, até para a muito periclitante imagem da Europa, que se ufana de ser a pátria da democracia, que houvesse um reconhecimento, e mesmo uma celebração, da independência da Escócia, caso o sim vença.

 

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