Se as repetições históricas não acontecessem em Portugal com uma banal frequência, estaríamos hoje, talvez, ao nível da Noruega e da Suécia, a Dinamarca teria inveja da nossa fabulosa organização social e a Bélgica monárquica, invejaria a nossa feliz república, social e democrática!
Porém, sucede que nós vivemos no respeito pela História, temos receio de ser inconvenientes, malcriados, por isso, se procuramos ultrapassar rapidamente uns anos sem pedir licença aos outros anos entretanto removidos, ficamos com o estomago perturbado e o rosto lívido, como se fantasmas seculares, espectros erguidos das tumbas, nos viessem pedir responsabilidades: – «Não faltava mais nada! Uma pouca-vergonha! Vocês querem avançar no progresso social e enriquecer o País à custa de nos esquecerem?!- Não faltava mais nada!».
O futuro berra de dor com as repetições que lhe atrasam o andamento! Deixai que berre! Não lhe deem ouvidos: – Primeiro, a História, que é mais velha! O respeitinho é uma coisa muito bonita! O futuro que espere…
O facto é que, resignado a viver entre talas e sobre os carris monótonos de regulamentos, horários e deveres de toda a ordem impostos pelo estrangeiro, o País obedece aos ditames da velha História e, assim, vai repetindo tudo e mais alguma coisa, há mais de cem anos.
Lembra-nos a abundância de moscas: – Neste País reina e impera todo tipo de sujeira!
As polícias, os tribunais e os juízes, que ora bocejam ora assobiam para o lado, recordam, intimando-nos: – O mundo pertence ao espavento oficial!
Com voz fadista, proclamam os dirigentes políticos e os políticos a soldo do estrangeiro: – É preciso pagar dívidas de “faz de conta”, democratizando tudo por baixo, o que torna os portugueses mais acessíveis… e a sociedade estilizada em reles!
Portugal, munido da sua História, apedreja o futuro!
Somos governados por uma assembleia geral organizadora da espoliação e do crime! O reduzido número dos mais fortes em Poder e Capital, uma vez que a acção moderadora da Cultura está hibernando, triunfa todos os dias sobre a maioria, e combate-se o escrúpulo ético pelas necessidades de “salvação nacional”, como se o crime salvasse alguém ou alguma coisa!
A verdade é que as palavras nada podem e as ideias sozinhas também não abrem caminho! – Quando muito, como hipótese, podem tornar-se úteis balizas para a experimentação…
Mas no estado de letargia das massas, no estado de dormência geral dos trabalhadores e angústia apavorada dos desempregados, quem vai fazer essa experimentação?
Quem irá acordar da letargia, com as brutais advertências da realidade económica e social?

Maria â