CONTOS & CRÓNICAS – “Pequeno-Almoço” – por Joaquim Palminha Silva

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As mulheres são “inesperadas”, mas os homens não as merecem na maior parte dos casos!

Desde que começara a ir comer àquela cantina diocesana para os “sem-abrigo”, que um cavalheiro decaído, aparentando não mais de 50 anos bem vividos, com um aspecto de desalinho nas roupas lavadas, a olhava com insistência. Das primeiras vezes pensou que fosse apenas curiosidade pela sua pessoa, pois, tal como o homem, ela aparentava não pertencer ao meio, acontecendo-lhe ter caído naquele centro cristão de apoio aos menos favorecidos, por viuvez, por abandono, por falta de emprego para a sua idade e instrução superior à média, por e por, etc. …

Matilde rondava os 50 e tal anos, com aspecto de quem vinha de mundo sofisticado, talvez das artes ou das letras. Enfim, era um Robinson de saias, um contra-senso sociológico naquela selva humana. Tinha um porte aristocrático, distante sem ser ofensivo, um rosto onde a seriedade se misturava com a expressão do olhar terno e magoado ao mesmo tempo, de quem aceita o destino como se aceita a Primavera ou o Inverno. As rugas e os cabelos brancos de neve, fartos, penteados com cuidado, distinguiam-na do conjunto desalinhado de mulheres andrajosas, algumas demasiado sujas, efectivamente miseráveis, no sentido pleno da pobre condição humana.

Passadas semanas, quando o homem abandonou definitivamente o seu lugar para se vir sentar junto dela, estremeceu (de prazer ou de receio?) ao sentir o seu joelho contactar levemente a perna das calças do homem, quando este aconchegou a cadeira ao lugar. Olhou-o de soslaio. Não queria confessar a si própria que tinha esperado que qualquer coisa de parecido acontecesse e, sobretudo, tinha algum receio que se ouvissem as palavras que estava silenciando, de si para si.

Matilde, filha da D. Carmo e do Dr. Ricardo, médico interno do Hospital de S. José, mas com consultório aberto no Chiado. Matilde, com vestidos escolhidos e cortados nas melhores lojas da cidade. Matilde, beneficiada com todos os adornos do Conservatório Nacional, esquisitamente burguesa e “progressista”, como o pai, leitor de um só jornal diário, o República. Depois, Matilde casada com um desses “distintos” cavalheiros da Baixa Pombalina, que vivem de um emprego, solicitado pela família, aos balcões de um banco ou atrás do guichet de uma Conservatória do Registo Civil…     Ainda mais uma vez, Matilde órfã, triste de ciúmes nos teatros, cinemas de Lisboa, sobretudo no “S. Carlos” a ver pelos binóculos o marido dissipar-lhe a pequena fortuna familiar com mulheres de seios permanentemente representados como se fossem obeliscos, mulheres tanto estupendas à vista quanto prejudiciais ao casamento. Por fim, Matilde viúva, fugida da vida de sociedade duma vez para sempre, caída na desgraça de uma descolorida pensão de sobrevivência. Matilde concentrada na conformação da sua pobreza, murada em casa, saindo só para tomar algumas refeições na cantina diocesana. Matilde com os seus olhos de mal-amada, lagos de luz e veludo, proprietária de uma juventude por descobrir, já no Outono da vida.

Então? (disse o homem com a maior naturalidade desta vida, como se estivesse a encetar conversa interrompida na véspera). Quer saber o que pensei quando me sentei ao pé de si?

Matilde não respondeu à interrogação. Manteve-se imóvel, de olhos baixos.

Não tem um pouco de curiosidade?

Aproximando-se um pouco mais:

Vá lá, eu digo-lhe a razão por que olhei para si tantas vezes, dias e dias, mais de uma semana… Estava a pensar que duas pessoas como nós, estranhas a tudo isto, deviam estar juntas em vez de ficar cada uma a seu canto. Não acha?

Excitada, Matilde endireitou-se na cadeira e, para proteger a tremura dos lábios, levou a chávena de café com leite à boca. Era um homem de meia-idade. De feições marcadas, com um toque de grisalha e cortês dissipação, cujo diagnóstico mais certo era dizer-se que estava a envelhecer contrariado, frequentando locais de que não gostava.

Matilde voltou-se para ele, olhou-o algum tempo, e disse:

Que quer dizer com isso? Seja como for… Eu sei. Estou com curiosidade de ver até onde vai esta sua abordagem… Não é este o local, nem o dia nem a hora, nem talvez a idade para nos conhecermos…

Então qual é a característica principal desta nossa mútua atracção? … Você não precisa tanto de companhia como eu?!

Matilde sorriu. Notou que o homem vestia com elegante desalinho, e que as suas roupas, embora cansadas pelos anos e muito uso, eram de marcas de qualidade. Disse então ao cavalheiro:

Como estas fatias de pão… Há sempre alguém no mundo que precisa de companhia, não lhe parece?

Numa síntese de anos de idiotice moral, de remotos fulgores juvenis insatisfeitos, resumos de casada espoliada e viúva desesperada, num assomo de coragem, Matilde resolveu “ressuscitar” do seu pessimismo inconfessado, inspirada na atmosfera daquela manhã, do pequeno-almoço:

Repare o Senhor… Deixe o nome, diz-me depois… Somos duas fatias de pão. Você é uma, a outra fatia sou eu: agora põe-lhe manteiga dentro e um pouco de fiambre, se houver, e assim temos uma sanduíche! … Isto é o que eu entendo por estar acompanhado… Vê como é fácil, poupam-se palavras! Já viu coisa mais fácil de dizer e fazer?

Como se fosse pneumático, o cavalheiro deu um salto para trás, levantando-se da cadeira! Aquela mulher não tinha resguardo algum no entendimento…

Ouça cá, você é doida?! Esse é o seu critério? Então eu sou uma fatia de pão com manteiga?

O Senhor ouviu o que eu disse?

Ouvi! (respondeu atónito o cavalheiro).

Então que disse eu?

Boa inteligência… Olhem como resumiu a nossa mal começada conversação! (desenvencilhando-se de vez de Matilde, recuando e afastando-se da mesa). Quer dizer que eu, para si, minha Senhora, não passo de um pequeno-almoço, duma fatia de pão com manteiga?! Fico inteirado! …

Todo palha em fogo, o homem saiu pela porta ampla da sala… E os miseráveis comensais em redor, só pobreza e bisbilhotice, desejando descobrir o que se havia passado, deitavam a Matilde olhares com malagueta.

Com um sorriso ameno, a expressão que imaginou não lhe pareceu tão bruta, depois de pronunciada, mas sempre foi pensando: – «O homem, de fatia de pão, transformou-se num grande pastelão.» …

 

 

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